JOSÉ MARIA MACIEL LIMA[1] 

 

Tradicionalmente o ensino de línguas tem sido objeto de atenção de uma boa parte dos estudiosos da linguagem. Ao longo desse percurso foram várias as sugestões e propostas para se obter sucesso e alcançar o principal objetivo do ensino de língua: “desenvolver a competência comunicativa no educando”. Na atualidade, os linguistas apontam um ensino na perspectiva textual discursiva, embasada nas teoria da Análise do Discurso.

 A análise do discurso considera a língua como uma prática social, histórica e ideológica. Considera-se que as relações sociais estabelecidas refletem-se na própria língua, de modo que, no uso desta, é possível recobrar as marcas discursivas por meio das quais se identifica a historicidade e a ideologia da linguagem. 

Nesta perspectiva, estudar um texto implica em decodificá-lo e interpretá-lo considerando os seus aspectos textuais e discursivos, esta é apenas uma etapa proposta pela Análise do Discurso. Uma outra etapa é entender a intenção do autor, localizando as vozes do discurso, isolar as vozes e inferir coisas a partir de nossos experiências e conhecimento de mundo. De um modo geral, esse e o estágio final da leitura de um texto. Mas isso não é suficiente! É preciso analisar os discursos para poder situá-los ideologicamente, e perceber o lugar que ocupa numa determinada situação discursiva. Tal análise depende do tipo e do gênero do texto. Então, a análise do discurso vem propor um bom caminho para se ter o texto como principal objeto para o ensino de língua.

Neste sentido, o discurso (ou melhor a análise do discurso) tem um lugar de suma importância no ensino de língua, pois, o discurso permite a materialização da língua, definindo-se como o efeito de sentido entre locutores. Nesta perspectiva, é possível perceber como a língua funciona para produzir sentidos, e estes não são considerados de modo absoluto e predefinido, já que a interpretação pressupõe a existência do sujeito no processo de apreensão dos sentidos, os quais não são únicos. Em face de o sentido não poder ser considerado como produto acabado, há sempre que se considerar a condição da produção de sentido, pressupondo-se que o processo de leitura e de interpretação coloca sujeitos em relação. 

Desse modo, compreender um texto considerando seus aspectos textuais e discursivo é também fazer análise do discurso. Os discurso por outro lado, estão na linguagem, são produzidos pelos enuciantes com a língua. A enunciação é um texto, onde quem escreve ou quem fala quer dizer alguma coisa. Os discursos estão veiculados nos textos. Porém, há de se perceber algumas diferenças entre estas duas unidades linguísticas: texto e discurso.

Com base nisso, denomina-se discurso toda ato de comunicação de um determinado locutor envolvido em situação de comunicativa, englobando diversos enunciados e também elementos da enunciação. Quanto ao texto, trata-se de uma unidade linguística, que pode ser materializada por meio da linguagem verbal ou não verbal que possui um sentido e apresenta uma intenção comunicativa.

Sendo assim, a comunicação se realiza através de textos. Desse modo, o texto é o veículo da comunicação. Este por sua vez é constituído de discursos que comporta ideologia. A ideologia está presente no discurso assim também como no texto, pois a língua permite que isso ocorra, visto que sem língua não haveria discurso, e sem discurso não haveria texto. O discurso veicula através do texto. E se o texto é o veiculador do discurso, ele se confunde com o próprio texto.

Por outro lado, para ilustrar que texto e discurso não são a mesma coisa, observa-se o seguinte: há alguns discursos (sentenças) na língua que podem ser usadas em diferentes situações comunicativas com intenções diferentes. Por exemplo: “a porta está aberta”. Segure-se: que alguém pode sair (ir embora); que é para alguém fechar a porta; que alguém pode entrar e etc.. Se se pode utilizar este discurso em várias situações comunicativas é por que texto e discurso não são a mesma coisa.

Apesar das semelhanças e diferenças o que pode-se dizer é que ambos se completam. O discurso necessitado do texto para existir e assim vice e versa. O discurso revela um posicionamento por parte de quem escreve ou profere oralmente, um determinado texto. Por isso, o texto e o discurso se completam. Além disso, vale ressaltar que toda situação de comunicação que se materializa pelo discurso é constituído por ideologia, que surge em um contexto social, político e histórico. Desse modo, o discurso é ideologia. Por isso, ela está presente no texto. E a ideologia é resultado de um discurso e o discurso é resultado dela.

Com bases nestes postulados, o texto se presenta como uma unidade linguista concreta indispensável ao ensino de língua dada a sua carga ideológica, que evolve aspectos históricos e social. Além disso, a unidade textual pode ser concebida como um espaço simbólico que estabelece relações com um contexto e com outros discursos que se relacionam com elementos exteriores ao texto.

O texto pode ser entendido como materialidade do que se constitui no discurso. É no texto que se encontram as marcas discursivas – os elementos que permitem identificar um conjunto de concepções ideológicas a respeito da realidade. É importante perceber que o texto não se constitui necessariamente, a partir de uma formação discursiva única e acabada, mas é atravessado por várias formações discursiva, ou seja, em um texto pode veicular vários discursos.

Retornando às contribuições da Análise do discurso para o ensino de língua, pode-se afirmar que esta perspectiva de ensino permite a análise do texto a partir de um contexto social e histórico específico. As condições de produção evidenciam as relações de força que por meio da linguagem, tornam-se verificáveis e recobráveis no texto, com base no trabalho de interpretação que é promovido.

Portanto, em virtude do que se expus até este ponto, tem-se condições de afirmar que o resgate das relações entre a materialidade linguística do texto e a sua exterioridade constitutiva parece ser a principal contribuição dos estudos discursivos para o ensino de língua materna, principalmente no que tange às práticas de leitura. Não se trata, assim, de pensar a possibilidade de fazer das teorias da Análise do Discurso tema das aulas de Língua Portuguesa, mas de insistir no fato de que quando se apropriam de seus conceitos, os educadores têm condições de ampliar o processo de leitura, avançando para além da neutralidade das unidades textuais e desvelando as relações sociais, as lutas de classes e os jogos de interesse que os constituem.

Desse modo, entende-se que é exatamente o desvelamento desses aspectos constitutivos de todo texto que se pode conduzir o educando a um processo de compreensão mais ampla das práticas sociais que se efetivam pela linguagem e a partir dela, possibilitar-lhe o conhecimento da dimensão mais ampla dessas relações no âmbito da sociedade capitalista, marcada pela injustiça e pela desigualdade social. Por meio do acesso a esses elementos determinantes na formulação dos textos, postos em relação com suas condições materiais de existência, o aluno, enquanto cidadão, pode buscar possibilidades de intervenção nessa mesma sociedade, como forma de superar coletivamente a sua própria condição de explorado.

 

REFERÊNCIA

SIGNORINI, Inês (org.). [RE] DISCUTIR texto, gênero e discurso. Parábola.

 

[1] Professor da rede Estadual de Ensino, Licenciado Pleno em Letras/Português - UFPA, Letras/Espanhol-UNIUBE, Letras Inglês-UFOPA, Graduado em Filosofia pela FPA, Especialista em metodologia de Ensino de Filosofia e Sociologia-UNIASSELVI e Ensino de Língua Espanhola-UNICAM. E-mail: ze.maciel@bol.com.br.   

Revisado por Editor do Webartigos.com