Joacir Soares d'Abadia[i] e Hélio Cordeiro dos Santos[ii]

1º Parte: introdução geral à Teologia Espiritual

Primeiro capítuloTeo-logia espiritual

I. O que é Teologia Espiritual

Espiritualidade é entrar em comunhão com Deus; é teologia e espiritual. É autonomia em Deus. O cristão não é autônomo em si mesmo, pois ele tem como norma de vida o próprio Deus. Assim, a norma da verdade é Deus mesmo, o qual Revela os dez mandamentos para normalizar o agir do homem. Escutar, portanto, a Palavra de Deus é uma norma. Quando Deus se Revela, Ele se torna experiência Dele mesmo. Dessa forma, a Teologia Espiritual vê como Deus avalia a experiência de Si mesmo. Deus se torna norma de experiência espiritual. Então, teologia Espiritual se coloca no campo da experiência espiritual de Deus.

Em síntese, Teologia Espiritual quer ser uma reflexão sistemática sobre a Revelação divina ou sobre a vivência da Revelação. Uma reflexão sistemática espiritual, ou seja, acerca dos valores do espírito humano como projeto de realização do homem. E como queremos falar projeto de uma teologia espiritual cristã, trata-se, pois, dos valores do espírito humano informado pelo Espírito Santo; informação esta que capacita o homem para viver os valores do Espírito divino comunicando-lhe a vida divina. O Espírito que informa, assim, o espírito humano é o Espírito de Cristo derramado em nossos corações pelo mesmo Cristo. Ela é, pois a ciência da perfeição cristã, que passa por três vias: purgativa, iluminativa e unitiva.

1.O sentido da palavra "Teologia"

Teologia, em sentido originante, é o conhecimento amoroso que Deus tem de si mesmo; é um conhecimento espiritual, porque vem do Espírito. Este conhecimento que Deus tem de si mesmo ele o comunica aos homens pela Encarnação do Verbo. Daí que Teologia em sentido originante é o conhecimento que Deus tem de si mesmo e comunica aos homens.

Quando Deus comunica o conhecimento que tem de si mesmo aos homens, este conhecimento torna-se uma norma de verdade, que deve reger o atuar humano. Assim, o homem não inventa um objeto para este conhecimento, ele o recebe gratuitamente de Deus, por meio da Revelação.

A Revelação se torna também norma da experiência de Deus (ascética e mística. Ascética, gr. aschiV - exercício, esforço. Refere-se a todo exercício laborioso que se refira à educação física ou moral do homem; é a ciência que trata dos esforços necessários para adquirir a perfeição cristã. Por outro lado, a mística – gr musthV - mistério, secreto e, sobretudo, segredo religioso). Aqui entra a espiritualidade. Pois quando Deus se revela Ele aponta para o tipo de espiritualidade que o homem deve cultivar. E a experiência que podemos ter de Deus, partindo da Bíblia, é sempre uma experiência mediada.

A Teologia, enquanto que é o conhecimento que Deus de si mesmo, é norma de experiência de Deus e norma de espiritualidade. E essa nossa experiência de Deus deve ser sempre confrontada com a Bíblia para ver a sua legitimidade.

2.Espiritual: espírito

Espiritualidade vem de espírito (ruá - ρυά - sopro). Espírito é alma (é um espírito composto, porque deve ter a matéria, um corpo; é a parte imaterial do corpo. Ela atua com a inteligência e a vontade, jamais pode atuar sozinha); é o princípio que anima o ser humano. O espírito é o princípio vital do ser humano. O espírito humano é o elemento imaterial do homem, é um princípio dinâmico. Portanto, espiritualidade á a alma que procura viver segundo todas as suas potencialidades.

A condição básica para a teologia espiritual é ter alma racional. Deus é espírito, o Espírito de Deus encontra com o espírito humano, nisso consiste a espiritualidade. Este encontro visa levar o homem a viver segundo o Espírito divino. A espiritualidade cristã, portanto, é uma relação entre dois espíritos, o humano e o divino.

2. 1. Textos bíblicos

2. 1. 1. 1Cor 2, 10-16 – Reflexão Sobre Esse Texto

_ Que tipo de conhecimento é apresentado no texto? Apresenta um conhecimento espiritual: "experimento realidades espirituais em termos espirituais" (v. 13).

_ Quais tipos de espíritos são apresentados pelo texto? Apresentam: Espírito de Deus, do homem e do mundo.

1.Espírito de Deus: é Deus enquanto conhece a si mesmo e o que está Nele. Deus conhece pela sua inteligência. Refere-se a essência, enquanto faculdade de inteligência.

2.Espírito do homem: é uma dimensão da alma, a inteligência humana. Conhece o que é do homem. O homem conhece pelo conhecimento natural e também pelos dons da graça de Deus, porque o espírito de Deus o comunica: conhecimento sobrenatural.

3.Espírito do mundo (em sentido analógico): é uma mentalidade oposta ao Espírito de Deus que está no homem.

_ Como este espírito se manifesta? Na realidade das coisas; numa linguagem espiritual.

2. 1. 2. 1 Jo 4, 1-7

"Nem todo espírito é de Deus", o verdadeiro espírito é aquele "que confessa que Jesus Cristo veio na carne é de Deus" (v. 2).

Os espíritos "que não confessam Jesus não são de Deus" (v. 3). Os homens devem discernir entre os espíritos o que é o Espírito da verdade e o que é o espírito de erro.

Quais tipos de Espíritos são apresentados pelo texto? Espírito de Deus, espírito do anticristo, espírito da verdade e o espírito do erro.

2. 1. 3. Rom 8, 26-27

Este texto apresenta o espírito como Aquele que vem em socorro da nossa fraqueza v. 26. O Espírito é também nosso intercessor.

2.2.Desvalorização da palavra "espírito"

A palavra espírito foi e é muito mal utilizado no decorrer da história, numa concepção muito idealista. No entanto, o espiritual tem que ser absolutamente realista - porque ele nos liga à realidade absoluta -, Deus.

A palavra espírito e espiritual foram banalizadas principalmente pela arte; a arte perverte o sentido de ambas as palavras, dando a elas um mero sentido intimista? Enquanto que o espiritual é interioridade, mas não é interioridade intimista, pois se assim o fosse, o espiritual e o espírito estariam totalmente empobrecidos. Daí que o significado da palavra espírito e espiritualidade devem ser resgatados hodiernos.

2. 3. Recuperar o significado da palavra "espírito"

O verdadeiro sentido da palavra espírito é aquele que o expressa com uma realidade capaz de levar o homem à prática das verdades.

2. 4. Conclusão

1Cor 3, 1-4 – onde o Espírito de Deus habita não pode haver divisões;

_ homens espirituais

_ homens carnais.

Gl 5, 16-26 (exposição ente as obras da carne e as obras do Espírito)

O espírito se opõe às obras da carne, portanto, quem age segundo a carne opõe-se ao espírito. Aquele que vive no Espírito deve deixar-se conduzir por \ele, não deve estar em busca da vanglória.

A espiritualidade é comunicação de inteligência para inteligência. Da inteligência divina com a inteligência humana. Logo, esta revelação de Deus à minha inteligência implica uma comunhão espiritual, e antes se ser uma ação minha é ação do espírito em mim.

Sem o Espírito divino o homem pode ter uma espiritualidade humana, porque ele é dotado de espírito. Porém, esta seria uma espiritualidade introvertida, sem espaço para a alteridade. A espiritualidade cristã, por sua vez, consiste em direcionar o olhar para Cristo, para que Ele comunique ao nosso espírito. O Espírito de Deus comunica ao homem não só uma verdade, mas informa-lhe a vida, lhe dá uma realidade vital.

Para se ter uma espiritualidade cristã tem que ser cristão batizado, este é o fundamento desta espiritualidade. Pois, o ser cristão é dado pelo batismo, de modo imperceptível, mas real.

O espírito do homem tem de ser informado pelo Espírito divino para que possa conhecer os dons divinos e assim possa viver. Desse modo, a vida espiritual consiste em levar uma vida livre de vanglória, inveja, tristeza, desejos da carne etc. Ser homem espiritual é ter o nosso espírito informado pelo Espírito divino.

As obras da carne vão contra a razão; o tolo é aquele que age contra a razão insensato é aquele que ouve e não pratica as palavras de Jesus (cf. Mt 5, 22).

A espiritualidade de Jesus é uma espiritualidade que passa pelas realidades da vida, assim também deve ser a espiritualidade do cristão.

II. Razão, loucura e sensibilidade

Texto de São João da Cruz. Foi um místico; é considerado o doutor Místico da Igreja.

1.Loucura nos Evangelhos (Mt 5, 22ss)

"Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza contra seu irmão, terá de responder no tribunal; aquele que chama ao seu irmão 'Cretino' estará sujeito ao julgamento do sinédrio; aquele que lhe chamar 'Louco' terá de responder na geena de fogo".

A loucura nos Evangelhos consiste em não se preparar para a morte, consiste em deixar-se levar pelas coisas do mundo, em ouvir e não praticar as palavras de Cristo.

2.Loucura para Paulo (1 Cor 1, 22-23)

Em São Paulo a cruz é um escândalo para os judeus, mas para os que crêem em Cristo ela é "poder de Deus e sabedoria de Deus". A loucura da cruz para o cristão é tudo aquilo que tenho de sofrer e viver na minha vida. Pra São Paulo, pois, loucura é não aceitar a cruz de Cristo em nossa vida.

3.A fé e a razão

"Não queiras ser sem inteligência como o cavalo, como o muar, que só ao freio e à rédea submetem seus ímpetos; de outro modo não se chegam a ti" (Sl 31, 9).

A razão é importantíssima na vivência da fé cristã, nossa fé não é uma fé irracional, a razão é como que uma condição para a reta vivência da fé. É a razão que distingue o cristão, pois o seu agir é ou deve ser sempre razoável. A razão é condição imprescindível par a vivencia de uma sã espiritualidade. Dessa forma, os animais irracionais não têm espiritualidade, porque não tem razão. A espiritualidade é algo dos animais racionais, os homens.

4.Razão e sensibilidade na vida espiritual em São João

As virtudes não são agradáveis aos sentidos, pelo contrário, elas confrontam os sentidos a fim de ordená-los. Os cristãos devem atuar pela razão no caminho de Deus. Para São João da Cruz, o uso da razão na espiritualidade é fundamental, para não se cair num sentimentalismo unitivo. Na vida espiritual não se deve buscar a satisfação pessoal.

A oração é um ato da razão e da vontade, nem sempre, ou quase sempre, a oração não é agradável, no entanto, Cristo nos ordena orar continuamente. Portanto, devemos orar sempre, mesmo que não me traz sensação agradáveis ou não.

Na oração não se pode buscar nem satisfação sensível e nem satisfação intelectual. Pode ser que numa ocasião ou noutra o ato de orar nos traga alguma satisfação, porém, isto não é o ordinário, é extraordinário.

O desejo que temos de Deus é natural, quando Dele temos um desejo sobrenatural é Deus mesmo que infunde em nós esse desejo. Por si mesmo, o homem não pode ter um desejo sobrenatural de Deus.

Ser espiritual é seguir os mandamentos: "16 Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: 17 Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. 18 Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, 19 honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo. 20 Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda? 21 Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me! 22 Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens" (Mt 19, 16-22). Na vida espiritual nós somos chamados a atuar pela fé guiada pela razão, pois a fé atinge a nossa razão, visto que a fé é um conhecimento. Ter fé é um ato da vontade e da inteligência. Deus pode vez ou outra dar uma graça sensitiva, porém, isto não é ordinário, não é a fé, é a conseqüência dessa.

A graça de Deus em nós age não em nossos sentidos, ela age transformando-os interiormente, de modo não sensitivo. Quando os dons extraordinários tornam-se ordinários é preciso se desconfiar se há, de fato, aí, uma ação do Espírito Santo, pois caso seja extraordinário, não pode dar-se ordinariamente.

O grande carisma do Espírito Santo é a caridade. Os carismas não santificam a pessoa que os recebe, o que a santifica são os dons do Espírito. Por isso, é mais importante ter os dons do Espírito do que os carismas.

A mortificação é morrer um pouco a cada dia para saber morrer uma vez por todas. A espiritualidade cristã consiste em aprender a morrer, pois aprender a morrer é seguir a via de Cristo, via crucis, via mortis.

O espiritual é a ação do Espírito Santo em nós. A vida espiritual é uma constância, uma perseverança na virtuda, na via crucis, na via mortis.

III. Espiritualidade (s)

São meios para a edificação da Igreja de Cristo. É vivencia do espírito; vivencia dos valores cristãos do espírito humano no seu ser natural.

Os valores do espírito humano: lei natural. Essa é dada por Deus, inscrita no coração humano. O homem vive-os pela vontade. O cristão, portanto, não está livre de viver os valores naturais.

A espiritualidade cristã é uma espiritualidade filial. É por meio do Batismo que o homem torna-se filho de Deus sacramentalmente.

1.Espiritualidade humana

Versa em viver os valores humanos.

Incidem em viver os valores humanos, aqueles inscritos por Deus na lei natural. Podem ser vividos tanto por cristãos como por pagãos. A espiritualidade humana é fundamental para a espiritualidade cristã. Só quem vive uma espiritualidade humana é que será capaz de viver uma espiritualidade cristã. A verdadeira espiritualidade humana é aquela que decorre da lei natural pela razão.

O homem iluminado pela razão descobre os valores, a lei natural. Os valores não são inventados pelo homem. Ao pautar sua vida pela lei natural o homem vive retamente a espiritualidade humana.

2.Espiritualidade cristã

Refere-se em viver os valores do Evangelho, de Cristo, do Espírito de Deus e de Cristo. A condição para se viver a espiritualidade cristã é ter sido batizado? A espiritualidade cristã, antes de ser uma ação nossa, é uma ação do Espírito em cada homem. A espiritualidade cristã é o espírito do homem informado pelo Espírito de Cristo.

3.Uma única espiritualidade cristã porque um só Deus, Espírito e Cristo

Ser cristão, mediante o batismo, é a condição para uma espiritualidade batismal: Graça Santificante e Filiação Divina. Assim, toda espiritualidade cristã é a vivência da Graça santificante e da filiação divina. Portanto, há uma só espiritualidade cristã, porém há diversos modos de viver a filiação divina, daí procedem aos estados da vida na Igreja:

a)o modos de ser filho de Deus no matrimônio;

b)o modo se ser filho de Deus na vida religiosa (congregações): vida comunitária e votos evangélicos;

c)O modo de ser filho de Deus no ministério sacerdotal;

d)O modo de ser filho de Deus como solteiro.

Nestas quatro vertentes estão as grandes espiritualidades, todos originárias e expressões da mesma e única espiritualidade batismal.

As diversas espiritualidades estão centradas numa virtude de Cristo sem, no entanto, excluir as demais: franciscanas (pobreza) e jesuítas (obediências e outras).

A mesma espiritualidade batismal manifesta-se também de tipos múltiplos nos movimentos: a) os Focolares _ a comunhão; b) Renovação Carismática _ os dons e carismas do Espírito e c) os outros tantos.

Desde a forma de falar histórica podemos explanar de sobre uma espiritualidade católica (firma-se numa Igreja, comunidade fundada por Cristo) ortodoxa (tem sucessão apostólica. Por isso, é Igreja. Ela tem sacerdócio válido) e protestante (não tem sucessão apostólica, assim não é considerada com Igreja).

4.O aspecto pessoal, e comunitário ou eclesial

Toda espiritualidade tem um aspecto pessoal e comunitário, que se concretiza na vida sacramental que transforma a pessoa interiormente e a coloca em comunhão com a Igreja, com a sua comunidade eclesial.

5.Espiritualidade e Teologia espiritual

A espiritualidade é a vivência dos valores cristãos; é a vivência do espírito, a Teologia espiritual, por sua vez, é a reflexão sistemática sobre esta vivência, tendo por base o dado revelado. Então, espiritualidade é o estudo sistemático sobre a vivencia do espírito; um estudo sistemático da experiência de Deus.

IV. Outros nomes dados ao Tratado: Teologia Espiritual

a)Teologia ascética e mística. Aquela se realiza pelo esforço humano; essa, por outro lado, é Deus quem faz no homem, é a cooperação do homem com Deus. Por isso, mística;

b)Teologia da perfeição;

c)Teologia da vida devota;

d)Teologia Espiritual. Porque as faculdades escolheram esse nome? Porque Teologia é o estudo sistemático de Deus. Espiritualidades porque olha o aspecto da vivência do espírito, da vivência cristã.

V. Experiência

O que é experiência? É aquilo que é sem se definir. Experiência humana é um conhecimento imediato de coisas particulares e não universais ou abstratas. Não se tem experiência da bondade, visto que ela é abstrata. A experiência deve ser o conhecimento imediato, porque sendo imediato, exige o contato, a reação com o objeto conhecido. A reação está sempre em relação ao efeito ruim ou bom para o homem.

1.A experiência humana

A experiência humana pressupõe os sentidos internos e externos. Ela trata, pois, de um conhecimento imediato das coisas particulares, não do abstrato universal. Este conhecimento exige um contato com o objeto conhecido, como já foi dito. É, num primeiro momento, um conhecimento intuitivo, não reflexivo, e leva a uma reação: ou fugir ou aproximar-se. É o desejo da fuga ou da posse do objeto. Porém, esta reação não define a bondade ou malícia da coisa. Assim, a experiência é aquilo que vem da vida e volta-se para ela mesma.

2.Experiência religiosa: de um determinado mundo religioso

Ao contrário da experiência humana, não podemos ter um conhecimento imediato de Deus, pois Ele não é acessível aos nossos sentidos e à razão. O único conhecimento que eu tenho de Deus na terra é mediado.

Portanto, a experiência que eu tenho de Cristo é humano, no sentido que pressupõe um homem que conhece, no entanto, este conhecimento não pode ser equiparado ao conhecimento que eu tenho do fogo ou de outro objeto qualquer.

3.Experiência cristã: Fl 3, 8-14; Ef 3, 17-18; Cl 1, 27

A experiência cristã resulta num conhecimento mediado pela fé e pelos sacramentos. A experiência cristã é conhecer Jesus Cristo, e conhecer Jesus Cristo é a fé. E conhecer Jesus é estar em comunhão com sua ressurreição, participar dos seus sofrimentos. Assim, a experiência cristã é mediada pela fé em Jesus Cristo. É participar com Cristo do seu Mistério Pascal.

Eu experimento o poder da ressurreição pelo poder do perdão dos pecados, visto que o pecado está morto, mas uma vez perdoado, pelo sacramento da confissão volta a viver em Cristo. Para ressuscitar, o cristão deve tornar-se semelhante a Cristo no sofrimento, na morte e viver na esperança da ressurreição futura.

Na experiência cristã possuímos totalmente o objeto do nosso conhecimento, porém esperamos tê-lo definitivamente quando o vir-mos-mos tal como Ele é não vida eterna. Então, a experiência cristã é o desejo, a esperança de participar do Mistério Pascal de Cristo para podermos contemplá-lo definitivamente na eternidade.

A experiência cristã é conhecer Jesus que vive em mim, é penetrar no coração de Jesus, é entrar no seu interior pela fé. Isto é um dom de Deus em nós.

Ef 3, 17-18: "Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade".

Aqui a experiência cristã consiste em Cristo habitar em nós pela fé. É ser plenificado com toda plenitude de Deus.

Cl 1, 27: "A estes quis Deus dar a conhecer a riqueza e glória deste mistério entre os gentios: Cristo em vós, esperança da glória!". A experiência cristã é "Cristo em nós" (vós), a esperança da glória. O homem interior tem a e experiência de Deus pela fé. A experiência cristã é uma experiência de Cristo vivida na fé, no amor, na caridade e esperança. É a vivência das virtudes.

4.Níveis de consciência

1Pd 1, 8-9: "Este Jesus vós o amais, sem o terdes visto; credes nele, sem o verdes ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa, porque vós estais certos de obter, como preço de vossa fé, a salvação de vossas almas".

O nível de consciência que se pode ter da experiência de Cristo é uma consciência na fé, esperança e caridade: "porque vós estais certos de obter, como preço de vossa fé, a salvação de vossas almas" (v. 9).

4.1. Consciência psicológica

É um atributo através do qual o homem se relaciona com o mundo e se percebe como distinto dele. É uma dimensão natural do homem. Nós não podemos ter uma consciência psicológica de Deus ou do Espírito Santo atuando em nós, porque o atuar divino é de ordem sobrenatural, enquanto que a consciência psicológica é de ordem natural, e o natural não pode, por si mesmo, alcançar o sobrenatural.

Toda ação sobrenatural de Deus em mim está além da minha capacidade de percepção sensível. Eu posso ter consciência de que busco viver cristamente, agora o que Deus faz em mim com sua graça está acima da minha consciência. Nós não sentimos a ação de Cristo em nós. Podemos, outrossim, sentir as conseqüências da graça atuando em nós: um alívio, uma alegria, uma satisfação.

Não podemos ter uma consciência imediata de Deus, do Espírito Santo e da Graça santificante atuando em nós. A algum Deus pode conceder como que se percebessem o atuar de Deus neles, isto é puro dom de Deus, não é nenhum mérito da pessoa. Nisto consiste a experiência mística.

Portanto, a primeira consciência que temos é a consciência dos atos religiosos. O segundo grau de consciência psicológica, é como a de Deus atuando em mim, não que eu sinto isto, mas eu creio nisto (este é um dom que Deus dá a quem quer e quando quer).

Num primeiro momento tem-se uma consciência intuitiva que não se pode comunicar. Num segundo momento, há místicos que podem expressar esta experiência. Existe uma outra moralidade de experiência mística que é a da ausência de Deus (Madre Tereza de Calcutá):a) quem está em pecado mortal; b) ou uma ausência pedagógica de Deus (São João da Cruz); c) quando Deus me permite participar da experiência de Cristo abandonado pelo Pai, uma experiência de corredenção (Madre Tereza de Calcutá).

Há também uma experiência da ausência de Deus que é também uma experiência comunitária: 1) os campos de concentração e 2) as multidões massacradas pela fome e pela guerra.

Os místicos seguem os passos de Cristo; mesmo o místico que vive pela fé. Nem o místico experimenta a Deus de forma imediata.

4.2. Consciência moral

É aquela que orienta o homem para atuar seguindo o bem e evitando o mal. É a "norma subjetiva próxima do atuar", ou seja, na ação concreta, o "bem" e o "mal" moral, ao final se decide na intimidade da reta consciência. É o que me permite avaliar a malícia ou a bondade de um ato. "A experiência moral é um julgamento da razão pela qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral de um ato concreto que vai planejar que está a ponto de executar ou que já pratica".

4.3. A experiência psicológica com a moral pode existir nível natural e (ou sobrenatural)

Exata duas realidades caminham juntas, na medida em que a graça que eu tenha a confiança de ser filho de Deus, fazendo com que meu agir moral se oriente para um fim sobrenatural – a vida eterna (Jo 17, 3).

5. Os lugares da experiência de Deus

Os sacramentos, culto, oração pessoal ou comunitária e na relação com o outro (igual amor, na vivência eclesial).

1. Os sacramentos – culto oração

Estes são lugares cultuais nos quais podemos ter experiência de Deus. Eu tenho fé que Deus atua nos sacramentos, através dos quais nos comunica sua graça; no entanto, esta não é uma experiência sensível. Quanto à oração, devemos rezar simplesmente para dar glória a Deus, não na busca de satisfações pessoais.

2.Relações humanas

Aqui a experiência de Deus se concretiza no amor mútuo no âmbito do trabalho, na comunidade, na família... É na vida comunitária que se pratica a caridade, a maior de todas as virtudes. É o lugar da experiência vivencial de Deus mediante o próximo. Concretiza-se mediante a vivencia das virtudes, sobretudo, a caridade.

VI. Avaliar a experiência de Deus

Temos três critérios para avaliar a nossa experiência de Deus:

1.Jesus é o modelo da relação com Deus, por isso, Ele é a referencia para a nossa relação com Deus. Temos de conformar a nossa relação com Deus à luz daquela relação que Cristo tem com o Pai;

2.A ação do espírito Santo em nós: a prática das virtudes, os frutos do Espírito em nós;

3.Podemos avaliar nossa experiência por uma mediação humana. Obediência à Igreja, ao seu Magistério, ao superior, ao Diretor Espiritual; em suma, a obediência eclesial, ou seja, obediência à Igreja. Sem estes critérios há que se duvidar da autenticidade de dita experiência cristã.

VII. Quatro elementos bíblicos de experiência de Deus

1.É uma experiência de vida

Não é mero conhecimento intelectual. Esta experiência se encarna em Cristo pois é Ele que tem esta experiência de modo pleno e definitivo (DV. 04). Esta experiência de vida divina encarnada em Jesus é vivida na Igreja e pela Igreja, seu corpo Místico; é a Igreja que dispensa a vida em Cristo por meio dos sacramentos. A experiência de Deus no AT pela Aliança (comunhão de vida), é uma experiência em Cristo devido a união hipostática.

A comunhão de vida que a Igreja comunica se realiza em cada um dos crentes mediante a fé que nos é dada no batismo e vai crescendo no decorrer da nossa vida. Esta fé deve ser manifestada no decorrer da nossa vida. Maria é o exemplo da experiência de Deus.

A experiência de Deus tem, pois, como referência Cristo na sua humanidade, enquanto unida à Trindade.

1) No AT a Aliança _ experiência de amor

2) No NT uma experiência vivida ou de vida em Cristo;

3) Não há experiência cristã sem Cristo;

4) Na Igreja. a Igreja como aquela que comunica a vida em Cristo por meio dos sacramentos; é a partir da Igreja que cada crente realiza sua experiência de Deus.

VIII. O método da Teologia Espiritual

A teologia espiritual segue dois métodos: indutivo e dedutivo.

1. indutivo: analisa a experiência de Deus na Bíblia a na vida dos Santos para daí tirar algumas conclusões. Nunca é completo; por isso deve ser limitado.

2. dedutivo: "Quem nega o Cristo não pode se filho de Deus". Parte de verdades já reveladas e definidas, as quais aplicam aos casos de experiência de Deus.

IX. Tentativa de definição da Teologia Espiritual

1.Diferença de objeto formal com a teologia dogmática e a Teologia moral. Aquela estuda a verdade, enquanto que a Teologia Espiritual ocupa-se com a vivência mesma desta verdade. Aqui não há dificuldade para a distinção entre ambas. No que diz respeito à teologia moral e teologia espiritual é maior a dificuldade de distinção, pois ambas têm o mesmo objeto formal. A teologia moral é uma teologia especulativa prática, enquanto que a teologia espiritual é uma teologia prático prática, ela não parte de princípios, como a moral, mas da experiência mesma de Deus.

2.Definição: elementos que devem incorporá-la

Teologia Espiritual: quer ser uma ponte entre Deus e o homem.

A Teologia Espiritual é o estudo científico da experiência entre Deus e o homem.

3. Deve conter vários elementos na definição do que seja "Teologia Espiritual": teocêntrico, cristocêntrico, pneumático, eclesial, progressivo.

4. (Definição particular) tentativa de definição: é uma reflexão teológica, fundamentada no dado revelado, acerca da graça atuando em nós enquanto membros de Cristo e da sua Igreja por meio do batismo, a fim de gerar em nós, de modo progressivo, a vida divina.

Reflexão por partes:

É uma reflexão teológica: é uma ciência teológica;

Fundamentada no dado revelado: é Deus que, por meio da Revelação, convida o homem a ter experiência com Ele;

Acerca da graça atuando em nós: aqui está implicada a Trindade:

a)Pai: dimensão teológica;

b)Filho: dimensão cristológica e

c)Espírito Santo: dimensão pneumatológica.

Enquanto membros de Cristo e da sua Igreja: dimensão aclesial;

Por meio do batismo: o batismo é a condição para se ter uma experiência cristã;

A fim de gerar em nós a vida divina: com a atuação da graça o homem é "divinizado";

De modo progressivo: a espiritualidade não se reduz a um ato, pois é uma vivência contínua.

Segundo capítulo

As fontes da Teologia Espiritual

I.As fontes escritas: a Bíblia, a história da Igreja, e tudo aquilo que é fonte de teologia é fonte de teologia espiritual.

II.Fontes específicas vivas: as cartas de Madre Tereza são uma das fontes vivas, as experiências pessoais. Isto é mais próprio da teologia espiritual moderna. Estas fontes vivas referem-se a pessoas ou comunidades nas quais se dá a experiência de deus. Essas não a são fontes tão confiáveis quanto as escritas, pois estão sujeitas a mudanças. As fontes vivas são frutos da ação do Espírito Santo no "Hic et nunc". Este é o grande desafio da teologia espiritual na atualidade, discerni o que de fato é ação do Espírito Santo.



[1] Texto baseado nas aulas do professor Pe. Dr. André Moffat.



[i] Estudou Filosofia e cursa Teologia no SMAB. Foi finalista no concurso internacional de filosofia da Revista Antorchacultural em 2007 e 2008. Em 2007 Com a obra "Riqueza da Humanidade..." e em 2008 com a obra "Opúsculo do conhecer". tem vários artigos publicados em Jornais tanto de Brasília como de Formosa Goiás; além de manter mensal a coluna "Filosofando" do jornal "Alô Vicentinos".

[ii] Fez Filosofia e cursa Teologia no SMAB. Foi Ordenado Diácono no dia 6 de dezembro de 2008 em Formosa Goiaa; é natural de Posse Goiás.

Revisado por Editor do Webartigos.com