Tecnologia assistiva: ferramenta de apoio ao tratamento do autismo


Lindon Johnson Leite Macêdo[1], Cesar Augusto Cusin[2]

 

Resumo: O número de crianças autistas cresce consideravelmente, sendo que muitas pessoas convivem diretamente ou conhecem alguém com um filho autista. Ademais, o autismo não possui cura, mas o tratamento multidisciplinar pode amenizar algumas questões e, proporcionar uma vida com mais independência na fase adulta. Nessa temática do tratamento multidisciplinar para autistas, a tecnologia pode ser uma grande aliada, especialmente as tecnologias assistivas, que são capazes de atuar tanto no apoio à educação como servir de ferramenta para as terapias necessárias ao tratamento da pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA).


Palavras-chave: Autismo. Tratamento multidisciplinar. Tecnologia assistiva.


INTRODUÇÃO


Segundo o relatório do Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos, os dados atualizados em 2018 e, comentados por Paiva Junior (2019), indicam que a prevalência de crianças autistas nos EUA é de 1 para cada 59 crianças. O que demonstra um crescimento considerável, 15% (quinze por cento), em relação aos dados anteriores, os quais são de 2012 e divulgados em 2016.

 Ainda segundo Paiva Junior (2019) o Brasil não possui estudos de prevalência do autismo, ou seja, não se tem números oficiais e, o único trabalho brasileiro neste sentido, foi um estudo-piloto em 2011 no interior de São Paulo, na cidade de Atibaia, que manifestou o resultado de 1 autista para cada 367 crianças. Vale observar, que a pesquisa foi feita num bairro com apenas 20 mil habitantes da referida cidade. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também não sabe responder este questionamento. Segundo o órgão, ele planeja investigar o tema futuramente em uma pesquisa específica da área de saúde, mas não há previsão. Segundo a Lei Ordinária 13.861 (BRASIL, 2019) deverão ser incluídas as especificidades inerentes ao Transtorno do Espectro Autista nos censos demográficos.

Essa realidade associada ao encantamento que as crianças autistas têm pelos recursos tecnológicos, como smartphones e tablets, foi o que nos inspirou a pesquisar sobre a utilização de tecnologias assistivas em apoio ao trabalho dos diversos terapeutas responsáveis pela condução do tratamento multidisciplinar de crianças autistas.

“As características primárias dos autistas parecem residir nas dificuldades de desenvolvimento na comunicação verbal e não-verbal, relacionamento social e atividades lúdicas” (DUNLAP; PIERCE; KAY, 1999 apud SOUSA; SANTOS, [2005], p. 9). Diante de uma observação informal, três pontos chamam a atenção: o desenvolvimento tardio da fala, os movimentos repetitivos (estereotipias) e a dificuldade de socializar-se. É certo que o autismo se assume de forma muito particular em cada criança, tornando o diagnóstico ainda mais complexo. Visto que, tais características podem estar presentes em um e em outro não, embora pelo menos uma delas certamente estará presente.

Conforme o relatório do Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos, utilizando-se de dados coletados entre os anos de 2014 e 2015 e, considerando crianças com oito anos de idade, a prevalência seria de 1 em cada 59 casos. Tais números demonstram a necessidade de políticas e práticas voltadas a este público, o de pessoas acometidas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Sendo, portanto, a adoção de recursos tecnológicos, como instrumento terapêutico, uma atitude cada vez mais necessária para o aperfeiçoamento das terapias e, consequentemente, maior eficiência do tratamento.

Assim, trata-se de uma pesquisa bibliográfica que objetiva formular conhecimentos relativos à utilização de Tecnologia Assistiva (TA) em apoio ao tratamento multidisciplinar de pessoas com autismo, especialmente as crianças.

No aspecto geral, o presente trabalho visa analisar a influência da TA em apoio ao tratamento de pessoas com TEA. Para descrever as especificidades aqui objetivadas, pretende-se:


identificar algumas experiências com TA;

comparar a atuação dessas ferramentas relativamente às dificuldades básicas dos indivíduos autistas;

disseminar tais experiências como modelo para o mercado de software e aplicações mobile e web;

buscar princípios metodológicos de padronização de desenvolvimento e design, a serem recomendados e utilizados por aqueles que produzem ou desejarem produzir softwares, aplicativos e páginas web para o público com TEA. Além de, profissionais das áreas de educação e saúde, que lidam com esse público e os familiares e responsáveis por crianças e/ou adultos com autismo.


Este trabalho será estruturado da seguinte forma: o primeiro capítulo apresenta os conceitos, características e as informações sobre a população autista. No segundo capítulo o tema abordado é sobre o tratamento de pessoas autistas, de forma multidisciplinar, contextualizando-o dentro de cada área como psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. Em seguida, no terceiro capítulo, a temática aborda a utilização de tecnologias de informação e comunicação e tecnologia assistiva como ferramentas de apoio no tratamento multidisciplinar de crianças autistas, com observação dos aspectos teóricos e práticos da ideia. Por último, são feitas as considerações finais onde será realizada uma síntese do trabalho e apresentados os conflitos entre o que se propôs e o objetivo alcançado.


1 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) OU AUTISMO

 

Como nos explica Gadia et al. (2004) o termo “autismo” teria surgido em 1911, utilizado por Bleuler para designar a falta de contato com o mundo real e, consequentemente, uma dificuldade ou impossibilidade de comunicação. Em 1943, o psiquiatra Leo Kanner teria observado comportamento similar em algumas crianças, que sugeriu tratar-se de uma inabilidade inata para o contato afetivo e interpessoal. Já em 1944, o médico austríaco Hans Asperger observou comportamento com dificuldade de comunicação social em algumas crianças com inteligência normal.

Segundo Bruna ([201-]) o TEA é também chamado de Desordens do Espectro Autista (DEA) ou Autism Spectrum Disorder (ASD) e, recebe o nome de espectro (spectrum) pelo fato de englobar situações e apresentações muito diferentes umas das outras, numa gradação que vai da mais leve à mais grave. Ainda segundo o site, a dificuldade de comunicação e interação social estaria presente em todos os casos, apenas mudando a intensidade.

O TEA, de acordo com Bruna ([201-]) e, segundo o quadro clínico, pode ser classificado em três tipos: autismo clássico, autismo de alto desempenho e Distúrbio Global do Desenvolvimento sem outra Especificação (DGD-SOE). No primeiro caso, o autismo clássico, o grau de comprometimento pode variar muito. Os indivíduos costumam ser voltados a si mesmos, não estabelecem contato visual com as pessoas e/ou ambiente, conseguem falar, mas não se comunicam através da fala. No caso do autismo de alto desempenho, ou Síndrome de Asperger, os indivíduos possuem as mesmas dificuldades dos demais autistas, mas numa medida bastante reduzida. Eles são verbais e inteligentes e, muitas vezes imbatíveis nas áreas de conhecimento em que são especializados. E, por último, o DGD-SOE, onde estão os indivíduos considerados dentro do espectro do autismo, porém os sintomas não são suficientes para incluí-los em uma das categorias já mencionadas.

Vale ressaltar, que a Lei Berenice Piana, Lei 12.764 (BRASIL, 2012), reconhece o autismo como deficiência para todos os efeitos legais. Enquanto no seu artigo primeiro, essa lei identifica o que seria uma pessoa com TEA e a equipara à pessoa com deficiência em questão de direitos; o artigo segundo destaca a natureza das política a serem adotadas, observando a necessidade da atuação multisetorial, a colaboração da população tanto na formulação de políticas como no acompanhamento da instalação destas e especialmente as ações relacionadas à saúde com preocupação do diagnóstico precoce. Além de, um atendimento multiprofissional e acesso à medicamentos e nutrientes necessários ao tratamento. A Lei Berenice Piana também traz importantes avanços na área educacional, tratando de forma especial sobre a inclusão escolar e as penalidades à recusa de matrícula de pessoa com autismo. Ao mesmo tempo que estimula, por parte das empresas, a criação de estratégias para recepção no mercado de trabalho da pessoa autista.