RESUMO:  O presente artigo tem como objetivo discutir o papel da Supervisão Escolar frente a inserção das TICs - Tecnologias da Informação e Comunicação no gerenciamento administrativo, pedagógico e tecnológico das atividades que permeiam o cotidiano escolar e na articulação do processo de ensino e aprendizagem dos atores. As reflexões são resultadas do embasamento teórico e revisão bibliográfica, tendo como referências: Moran, Libâneo, Levy, Kenski além de outros aportes que sustentam as reflexões. Nesse contexto foi possível perceber que uma Supervisão Escolar, constituída pelo tripé do administrativo, pedagógico e tecnológico, sugere uma otimização do processo administrativo na escola, melhoria no processo de ensino e aprendizagem dos currículos, além de ratificar o caráter social, político e transformador da educação. Em contrapartida essa “revolução” que poderá vir acontecer no ambiente escolar, com a inserção das TICS, preconizada por Moran, só se efetivará com a formação continuada dos profissionais envolvidos, políticas públicas eficazes de inclusão digital e a personificação do gestor escolar como intelectual orgânico do grupo no qual fora criado e esteja inserido. 

PALAVRAS-CHAVE: Supervisão Escolar. Tecnologia. TICs. Processo de ensino e aprendizagem.

 

1. INTRODUÇÃO

Com a chegada das TICs -Tecnologias da Informação e Comunicação no cotidiano escolar, configurando ainda como um movimento pequeno em relação à complexidade e velocidade com que essas ferramentas se espalham por todo tecido social, é possível perceber aportado em autores como: Kenski, Moran, Libâneo, Levi e outros que as TICs quando bem compreendidas e utilizadas podem promover melhoria na organização dos documentos no âmbito administrativo da escola quanto na promoção de um conhecimento colaborativo a favor do processo de  ensino e aprendizagem dos conteúdos, a reconstrução do conhecimento, formação continuada dos professores envolvidos e principalmente uma supervisão escolar que se articule entre os setores administrativos, pedagógicos e tecnológico no cotidiano escolar.

As TICs ao serem implementadas nas U.E.s (Unidades Escolares), possibilitam novas relações com a reconstrução do conhecimento, na organização eficaz dos documentos e informações, permitindo a interação e comunicação entre os espaços diferentes, no qual a supervisão escolar se estrutura enquanto parte significativa neste processo, gerenciando essas transformações no cotidiano escolar, desenvolvendo a unidade da comunidade escolar sob o manto de uma supervisão participativa e cooperativa.

O aporte teórico dessa pesquisa se estrutura a partir de teóricos que se debruçam sobre o assunto, os quais destacam-se: Pierre Levy, filósofo francês, que defende a teoria da inteligência coletiva no ambiente virtual, que tende a afastar a reconstrução do conhecimento apoiada apenas na figura do professor inquestionável para uma cultura contemporânea que tem nas TICs  valiosas aliadas na otimização do processo de ensino e aprendizagem dos conteúdos e na organização dos documentos e informações. Apesar do otimismo exagerado do autor com relação a utilização das TICs no ambiente escolar é inegável que as mesmas nos próximos anos se constituirão em fortes elementos para uma grande transformação cultural nas U.E.

Vani Kenski, defende a tese de que a U.E. deve estar preparada para receber os indivíduos que nasceram nessa contemporaneidade permeada pelas TICs, em vários setores da sociedade, pois os mesmos antes de chegarem até às U.E.s já vivenciam e se relacionam numa sociedade dominada pelas novas técnicas.

Libâneo, enfatiza a participação de todos os atores que compõem a comunidade escolar como princípio primordial na criação e desenvolvimento de uma supervisão escolar que prioriza as relações democráticas e solidárias entre os envolvidos no cotidiano escolar. Defende uma estrutura básica de U.E constituída pelo conselho escolar, direção, setor técnico, administração, setor pedagógico, instituições auxiliares, corpo docente e discente.

Moran, define que as TICs ao atravessarem os muros da U.E poderá revolucionar o cotidiano escolar, favorecendo novos olhares sobre a prática educativa e o gerenciamento das informações. Alerta para o fato das TICs não se tornarem a redentora de todos os males da educação ou elemento de exclusão para os indivíduos que não detém o manuseio das novas técnicas.

Através desse ensaio pretende-se problematizar a inserção das TICs no cotidiano escolar e o papel do supervisor escolar enquanto figura de extrema importância no desenvolvimento da hegemonia daquele grupo social no qual está inserido, caracterizando-se no intelectual orgânico, conceito apropriado de Antônio Gramsci. Busca identificar o papel do supervisor escolar orgânico no cotidiano escolar frente a inserção das TICs na U.E., além de determinar qual a influência do mesmo sobre a comunidade escolar para o conhecimento e utilização das novas técnicas. 

2.  TECNOLOGIA NO CONTEXTO ESCOLAR

“As tecnologias chegaram na escola, mas estas sempre privilegiaram mais o controle, a modernização da infra estrutura e a gestão do que a mudança. Os programas de gestão administrativa estão mais desenvolvidos do que os voltados à aprendizagem mas só consegue arranhar superficialmente a estrutura pesada em que estão estruturadas os vários  ritos de ensino.” (MORAN, 2000)

A internet e as TICs – Tecnologias da Informação e Comunicação se espalham a passos largos pelo tecido social e atravessou os muros da escola transformando-se em ferramentas para otimizar as atividades administrativas e operacionais que regulam as informações relativas ao cotidiano das Unidades escolares, além de configurarem em possibilidades para implementar o processo de ensino e aprendizagem dos atores envolvidos. Torna-se emergencial a elaboração de projetos de intervenções e de políticas públicas educacionais que privilegiem a formação continuada dos envolvidos no processo, uma U.E que priorize as TICs no seu Projeto Político Pedagógico e em outros mecanismos que possam nortear a vida escolar dos indivíduos: currículos, parâmetros curriculares, programas pedagógicos e outros. Uma supervisão escolar que pretenda assimilar e consolidar as TICs na sua dinâmica organizacional deverá desenvolver competências e habilidades no gerenciamento das suas atividades tanto no âmbito administrativo, pedagógico e tecnológico.

Numa perspectiva mais abrangente o papel do supervisor escolar frente a uma sociedade tecnologizada é de perceber e agregar as potencialidades das TICs no seu cotidiano unindo forças a favor de uma educação que revolucione o atual contexto escolar tão desgastado, perpetuando por séculos o caráter tradicional da sua prática pedagógica, resistente às inovações e transformações no seu processo. Acerca da supervisão escolar de caráter colaborativo a favor do bem-estar coletivo, Hessel diz:

“Aqui é importante ressaltar que a articulação dos aspectos administrativos e pedagógicos, a preocupação com o trabalho em equipe, a integração e a rede de comunicação dentro do âmbito escolar representa a adoção de uma gestão que também incorpore as TICs- Tecnologias da Informação e Comunicação como auxílio ao trabalho.”(HESSEL,2000)

As TICs por si só não causarão a “revolução” preconizada por Moran, para que essa grande mudança seja consolidada tanto na teoria quanto na prática faz-se necessário a adoção de políticas públicas de inclusão digital que incluam definitivamente as TICs em especial o computador e a internet num movimento colaborativo entre todos e que atenda os interesses dos envolvidos levando em consideração suas necessidades e a realidade social na qual estão inseridos. O Projeto Político Pedagógico deverá abrir precedentes para a implementação de projetos, ações e grupos de discussões acerca de uma supervisão voltada para a otimização no âmbito administrativo do seu cotidiano e do processo de ensino e aprendizagem dos atores, inseridos numa realidade educacional que priorize o seu caráter político e social numa sociedade que se faz e desfaz a todo momento. (HESSEL,2000)

É inegável que as TICs tornaram-se indispensáveis no cotidiano das escolas, tanto no gerenciamento das atividades administrativas quanto no pedagógico. Apesar das salas de informática equipadas com computadores e internet, caminhamos a passos lentos para uma efetiva inclusão das TICs nas Unidades escolares, com iniciativas isoladas de alguns educadores, na implementação de projetos articulando de maneira isolada a dinâmica das suas atividades. Cabe ressaltar a emergência de um programa de supervisão que pretenda acompanhar o ritmo frenético da sociedade que articule todos os setores da Unidade escolar num processo integrador de ajuda mútua de caráter colaborativo e cooperativo entre todos.

Outro referencial teórico que dedica seus estudos sobre a utilização da tecnologia na educação é o filósofo francês Pierre Levy, que defende a teoria da inteligência coletiva no ambiente virtual, na qual os indivíduos tendem a se afastar de uma pedagogia apoiada apenas na figura do professor inquestionável, num processo de repasse de conteúdos de forma acrítica e mergulhar numa cultura contemporânea tendo as TICs como ferramentas na otimização do processo de ensino e aprendizagem colaborativo. O educador deverá desenvolver nos educandos habilidades e competências que contribuam para que os mesmos participem efetivamente da reconstrução do conhecimento. Faz-se necessário a reflexão de que essas mudanças pedagógicas da contemporaneidade não se darão imediatamente, Levy mantém uma postura otimista, quando reconhece que os problemas existem, porém, o comprometimento dos atores é necessário, principalmente na utilização dessas novas técnicas de hoje com a visão do amanhã. O educador num processo colaborativo de aprendizagem deverá ser o indivíduo que busque as informações sobre as novas técnicas, assimilando e consolidando o conhecimento sobre as mesmas, pois só assim poderão mediar e utilizar junto aos educandos e aqueles envolvidos no processo.

Para Levy,

“ ... acredito que o professor precisa se capacitar, porque ele só pode ensinar aquilo que ele domina. Eu não acredito na formação do professor apenas para usar as redes sociais.O professor tem que se esforçar. Utilizar isso para si próprio, é só uma questão de entrar nessa cultura e de implementar o Know-How pedagógico utilizando essas ferramentas. ” (LEVY,2013)

 

O autor demonstra através da sua fala, além do otimismo exagerado para a relação tecnologia e escola, reporta ao educador uma responsabilidade muito especial e grandiosa nesse contexto, negligenciando que outros setores da sociedade e do poder público deverão estar caminhando juntos nesta empreitada.

As perspectivas de futuro  no que se refere à utilização das TICs nos próximos anos são as melhores possíveis , que de acordo com Levy estamos no início de uma grande transformação cultural, em exemplo clássico é de que podemos acessar as salas virtuais de qualquer lugar, interagir com os colegas e tutores em movimentos síncronos e assíncronos, ou seja , lugares e horários diferentes, num extenso arquivo de informações  à disposição  para pesquisas e consultas , tradutores instantâneos  para textos em vários idiomas. Diante de tanta complexidade e avanço das técnicas a educação não poderá ficar à margem desse contexto, os educandos deverão desenvolver a automotivação, autoeducação e autoconhecimento, a fim de que possam interpretar os fenômenos sociais num olhar crítico e consciente do seu papel enquanto sujeito da sua história.

Mesmo defendendo a importância do papel do educador frente aos benefícios das ferramentas tecnológicas no processo de ensino e aprendizagem, pressupõe uma reflexão sobre o problema da pouca aplicação das TICs na educação, abrindo precedente para um olhar crítico sobre a estrutura da Unidade Escolar.

“O problema não está relacionado somente nos professores e sua experiência profissional e ao fato que eles não são tão fluentes em novas tecnologias quanto seus alunos. Um fator muito  importante são as regras  inter relacionais nas escolas e a cultura geral que prevalece na educação tradicional.”  (LEVY,2013)

Diante do exposto é possível perceber que o caráter colaborativo defendido pelo autor a favor de uma inteligência coletiva vai além da relação educador/educando, todas as esferas administrativas do Poder Público deverão estar juntas e empenhados para fazer frente às novas técnicas que possibilitem um maior aproveitamento no âmbito administrativo, pedagógico e tecnológico.

Levy ressalta que por mais avançada que seja a técnica ou as tecnologias propostas para a educação, elas não são capazes de efetivar as reconstruções do conhecimento a favor de uma inteligência coletiva. Ao receber o impacto das TICs ou novas técnicas no cotidiano da escola ou da sociedade, os indivíduos deverão desenvolver habilidades e competências para entenderem a utilização e o conhecimento das formas de sua aplicação.

2.1 TICs no processo de ensino e aprendizagem e no gerenciamento de informações

“Mais importante que as tecnologias, que os procedimentos pedagógicos mais modernos, no meio de todos esses movimentos e equipamentos, o que vai fazer a diferença qualitativa é a capacidade de adequação do processo educacional aos objetivos que levaram você, pessoa, usuário, leitor, aluno ao encontro desse desafio de aprender.” (KENSKI,2003)

 

O impacto das tecnologias na educação é muito grande como em todas os setores da sociedade, houve uma mudança expressiva após a década de 90 com a revolução e o avanço das TICs, tanto estrutural como organizacional e a educação não está à margem desse movimento, pelo contrário está inserida neste processo. Crianças e adolescentes que nasceram mediados pelas TICs, estão chegando nas escolas caracterizando-se em nativos digitais e que por contam dessa familiaridade com essas “ máquinas maravilhosas” mantém o domínio e fluência desses artefatos e os utilizam cotidianamente no contexto social. A educação deverá estar preparada ou estar se preparando para receber esses indivíduos frente a essas mudanças que acontecem a todo momento na sociedade, afinal as TICs se espalham por todo o tecido social. É possível perceber essas mudanças na medicina, engenharia, robótica e etc., enfim a vida de muitos indivíduos caminha junto ou são influenciadas por essas TICs. (KENSKI,2003)

As TICs ao atravessaram os muros da escola nem sempre foram utilizadas como ferramenta pedagógica, mas principalmente já faziam parte das vidas dos indivíduos antes mesmos de chegarem até a escola, pois os mesmos já estão vivenciando e se relacionando com essa nova realidade na sociedade, dominando tecnicamente essas novas técnicas. Apesar desse íntimo contato com as TICs, no interior da Unidade escolar estão relegados a uma prática pedagógica tradicional que nega as novas técnicas a favor do processo de ensino e aprendizagem.  Não cabe demonizar o quadro e giz, afinal são tecnologias criadas ao longo do tempo, a fim de implementar a comunicação entre os pares. A reflexão se faz pela necessidade de emparelhar a educação com as mudanças revolucionárias das TICs, na reconstrução do conhecimento, do processo de ensino e aprendizagem e do gerenciamento de informações.

Uma das principais novidades com o surgimento das TICs foi a possibilidade de uma maior interação entre os indivíduos (KENSKI,2003). Essa interatividade proporciona um movimento de trocas de experiências, de conhecimento, de informações, muito mais intenso e eficaz do que, por exemplo, de uma carta ou telefone, não desmerecendo a validade e grandiosidade dessas técnicas principalmente o impacto das mesmas sobre o contexto na qual foram criadas.

O grande volume de informações disponíveis para o acesso é uma das vantagens das TICs, visto que os indivíduos podem se relacionarem de forma síncrona e assíncrona a favor da implementação de novas possibilidades de aprendizagem na Unidade escolar. Um exemplo interessante é a possibilidade da criação de redes sociais como o blog, twitter, e-mail, facebook, wiki e outras ferramentas da web 2.0 no processo de ensino e aprendizagem e cotidiano escolar, afinal aqueles mesmos indivíduos que estão nessas redes acessando diariamente, estão também dentro das Unidades escolares. Nesse enfoque faz-se necessário que a educação no seu caráter macro, educadores, gestores e toda a comunidade escolar compreendam e desenvolvam projetos de intervenções para a gama de possibilidades pedagógicas e administrativas que se descortinam através dessas ferramentas digitais e colaborativas.

Diante desse movimento frenético das TICs na educação é inevitável a reflexão e discussão acerca da formação iniciada e continuada dos educadores frente a essa revolução com a chegada dessas novas técnicas na educação (MORAN, 1997). Os educadores na sua grande maioria são formados as maneiras mais tradicionais quando se trata do fazer pedagógico e didático, não vivencia nem a teoria nem na prática em sua grande maioria dessa realidade na qual as TICs se estabelecem enquanto ferramentas importantes e auxiliares na prática pedagógica (KENSKI,2003). Na contramão dessa relação é possível observar uma grande resistência e desconhecimento do caráter pedagógico e administrativo das TICs pelos educadores e gestores no interior das Unidades escolares.

De acordo com Kenski

“...os  professores universitários são os que mais reagem a introdução ou o uso das  mídias nos seus espaços de sala de aula e isso cria um descompasso, exige do professor formado que  ele saiba utilizar as tecnologias mas ele durante o seu processo de formação não as utilizou, não vivenciou projetos pedagógicos em diferenciadas disciplinas onde esse esteja presente.” (KENSKI,2003)

A partir dessa formação com lacunas, o próprio educador cria uma couraça de proteção contra as TICs na prática pedagógica, talvez não por resistência gratuita, mas pelo desconhecimento da causa.

 

2.2  Conceito de Tecnologia

“O primado da tecnologia sobre o homem resume o dogma fundamental do credo tecnocrata. Elimina os problemas concretos, existenciais, sociais surgidos do exame das relações entre o ser humano e a tecnologia... Já mostramos quanto há de simplista e inoperante nesse modo de pensar.” (VIEIRA PINTO, 2005)

De acordo com o dicionário Wikipédia o termo tecnologia originou-se do grego (tekhne) que significa “técnica, arte e ofício, acrescido do sufixo (logia) que significa estudo. Diante do exposto é possível sugerir um conceito primário e simplista de tecnologia como sendo a ciência que abarca os estudos das técnicas que visam a resolver os problemas que emergem dos fenômenos da natureza ou da necessidade dos indivíduos de se adaptarem dentro de um grupamento social.

Antes de começarmos a discutir com mais profundidade o conceito de tecnologia, balizado principalmente pela teoria de Álvaro Vieira Pinto, vale fazer uma retrospectiva histórica de algumas técnicas que revolucionaram o contexto social e temporal no qual foram forjadas, a fim de atender as necessidades dos indivíduos num determinado recorte temporal e geográfico.

Os primeiros indivíduos tiveram que se adaptar a um ambiente hostil e desconhecido no qual não dominava os fenômenos da natureza e quando passaram a enfrentar esses fenômenos criaram as técnicas de fazer fogo, andar de pé, de lascar as pedras e fazer armas, lanças, matar os animais a fim de se alimentarem e utilizarem os seus pelos como defesa dos fenômenos da natureza, construir abrigos para esconder-se dos perigos daquele ambiente.

Com o passar dos tempos novos desafios foram aparecendo para os indivíduos, surgindo a necessidade de criar o arado, ferro, melhores abrigos e outros e passaram a se comunicar oralmente e através da escrita. Percebe-se através desses relatos simplistas que as técnicas vão evoluindo de acordo com as necessidades dos indivíduos e sua relação com o contexto social.

As rupturas e substituições das técnicas não se dão de forma homogênea, muito menos em todos os lugares ao mesmo tempo e da mesma maneira. Alguns grupamentos sociais avançam na elaboração das técnicas enquanto outros continuam a utilizar aquelas criadas anteriormente.

Continuando a nossa trajetória histórica, agora passando pelo medievo percebemos as construções arquitetônicas, bem planejadas, telégrafo, pintura, mistura de tintas e outros elementos utilizadas pelos artistas, armas, pólvora, navios, âncora, grandes navegações na busca de riquezas em outros lugares. Percebemos nesse momento a utilização das técnicas a favor da hierarquização da sociedade e também da exploração de alguns povos que detinham essas técnicas sobre outros que ainda não as dominavam, estabelecendo a diferenciação entre povos desenvolvidos e não desenvolvidos.

Na Revolução industrial, as técnicas na utilização do carvão enquanto fonte de energia, o manuseio do aço e do ferro, do tear mecânico, enfim abrindo precedentes para o início da utilização das técnicas como apropriação da mão de obra dos trabalhadores por um preço baixo pelos donos dos meios de produção (fábricas) e acumulação de capital.

Com o século XX, surgiu as técnicas voltadas para a construção e acumulação das informações e de um processo de comunicação extenso, as chamadas TICs – Tecnologias da Informação e Comunicação, surgindo nesse contexto os computadores e a internet, dando um salto no processo de produção. Percebe-se novamente que os povos que detém maior domínio sobre essas novas técnicas são geralmente considerados “nação desenvolvida”.

Após esse breve relato histórico acerca da evolução das técnicas podemos começar a articular uma discussão acerca do conceito de tecnologia sobre a ótica de Vieira Pinto, o qual consideramos com um arco de abrangência satisfatório para atender a demanda dessa pesquisa e que vai para além daquele do senso comum em que tecnologia está sempre associada a computadores, tablets, TV, celular e outros.

Vieira Pinto é contrário à tipologia “era tecnológica”, comumente utilizada na contemporaneidade visto que não congrega com a hipótese da existência de sucessões de eras e invenções. Os indivíduos não conseguiriam viver frente às ameaças da natureza se não tivessem sempre numa era tecnológica, como vimos anteriormente. Em cada tempo os indivíduos recorreram à determinadas técnicas para a sobrevivência e vida social. Era tecnológica é um termo cunhado pelas nações que detinham maior quantidade de artefatos ou técnicas para dominar outras menos privilegiadas pelo avanço e acumulação das técnicas.

A técnica é essencialmente pertencente ao ser humano, a única espécie que detém a racionalidade de criar possibilidades para resolver os problemas advindos da sua relação com o seu contexto social. (VIEIRA PINTO, 2005)

Para o autor os indivíduos mantêm duas posições distintas sobre a tecnologia: o encantamento e a dominação. Os primeiros homens maravilhavam-se com os fenômenos da natureza e o indivíduo da contemporaneidade se maravilha pelos artefatos tecnológicos, mas principalmente pela ideologia que está incutida nessa relação.

Vieira Pinto estabelece quatro acepções para o conceito de tecnologia afirmando constituir em necessidade ampliar o arco de abrangência do conceito frente a evolução das mudanças sociais, econômicas, industriais e científicas da atualidade.

I)    Tecnologia como ciência, teoria, estudo, discussão da técnica que abrange a arte de fazer, habilidades e tantos modos de produção.

II)   Tecnologia equivalente à técnica, como algo concreto, produto da teoria e da produção.

III) Conjunto de várias técnicas, desenvolvidas num determinado espaço geográfico, grupo social e tempo. É através dessa concepção de tecnologia que se costuma fazer a comparação do grau de avanço e desenvolvimento entre os grupamentos sociais, nações e sociedades.

IV) Tecnologia enquanto a “ideologia da técnica”. Aquilo que é determinado como bom ou ruim numa sociedade de acordo com uma ideologia dominante. Os gostos e modo de viver dos indivíduos estão relacionados a uma ideologia, os valores e significados que se escondem por trás do conceito de tecnologia e técnicas.

Vimos que os primeiros homens se maravilhavam e ficavam amedrontados com os fenômenos da natureza, até desenvolverem técnicas que passaram a dominá-los criando novas dinâmicas e relações sociais. O indivíduo da contemporaneidade vive numa sociedade tecnologizada, ora o deixa maravilhado pelo fetiche dos artefatos, ora amedrontado por não conseguir dominá-los. Essa necessidade de dominar essas técnicas afeta todos de forma direta e indireta, obrigando-o ao enquadramento no ritmo frenético da sociedade atual.

Frente a essas necessidades a educação aparece como elemento fundamental para esse processo de capacitação técnica para o manuseio desses complexos sistemas de produção, balizados pela tecnologia. A educação deverá direcionar-se para o desenvolvimento do indivíduo capaz de se relacionar com essas técnicas, mas também que permita uma consciência crítica sobre o impacto dessas técnicas no contexto social.

3.     SUPERVISÃO ESCOLAR: UMA DISCUSSÃO CONCEITUAL

A organização escolar não seria uma coisa totalmente objetiva e funcional, um elemento neutro a ser observado, mas uma construção social levada a efeito pelos professores, alunos, pais e integrantes da comunidade próxima.”( LIBÂNEO,2001)

Até chegarmos ao conceito de Supervisão Escolar o qual utilizamos atualmente na educação, percorremos um longo caminho e verificamos através de pesquisas de estudiosos que debruçam sobre o assunto que temos muito que caminhar na direção de consolidar uma supervisão escolar num enfoque crítico que possa considerar o caráter científico racional do processo, mas também abarcar uma dimensão crítica de cunho político e social dos fenômenos que se evidenciam  cotidianamente no interior das unidades escolares.(LIBÂNEO,2001)

Os estudos que envolvem a organização do trabalho nas U.E. têm a sua gênese no surgimento da educação nova, na década de 30 com os “pioneiros da educação”: Fernando Azevedo, Anísio Teixeira, Afrânio Peixoto, Cecília Meireles, Roquete Pinto e outros. Até aquele momento a educação era estritamente balizada pelos princípios da Administração científica de Taylor, que influenciou e continua se manifestando em muitas gestões escolares, administradores, políticas públicas voltadas para a educação, considerando a mesma como uma empresa.

Voltando ao enfoque científico – racional e crítico da supervisão escolar, Libâneo ressalta a importância de consolidar esses dois   conceitos a fim de que o olhar e as reflexões sobre o processo de organização e supervisão escolar possa ser problematizados. No arco científico- racional a supervisão é vista como objetiva, funcional, os processos são pré-definidos e funcionam racionalmente e é articulada para que os resultados sejam obtidos a todo custo, levando em consideração apenas a eficiência e eficácia.  Nessa supervisão as atenções são direcionadas prioritariamente aos organogramas, cronogramas, hierarquia de funções, o gerenciamento de informações está centralizado na figura do gestor, pouca participação da comunidade escolar nas decisões e as regras são impostas de cima para baixo. Essas características se aproximam bastante do taylorismo que preconizava uma produção organizada, especializada nas fábricas (XIX), voltada para a administração das empresas visando lucro e a apropriação da mão de obra do trabalhador. É comum verificarmos esse modelo de supervisão escolar nas U.E (LIBÂNEO, 2001).

O segundo enfoque que estrutura a supervisão escolar no arco da criticidade, talvez seja o mais adequado, porém menos privilegiado nas U.E. A supervisão crítica é um sistema onde a participação de todos é um princípio importante a ser considerado para a sua efetiva consolidação. As relações sociais, as discussões e a cooperação mútua entre os atores são primordiais para uma supervisão escolar que pretende estabelecer a construção social e política dos indivíduos. Esse movimento deverá afastá-la do conceito de empresa e aproximá-la do seu caráter fundamental de reconstruir o conhecimento e desenvolver os indivíduos na sua totalidade, tanto no que se refere aos conteúdos quanto o exercício da leitura crítica do mundo e sujeitos da sua história.

Libâneo estabelece três concepções de supervisão escolar que vem permeando pelos estudos no Brasil são eles: técnico científica, auto gestionária e democrática-participativa.

A concepção Técnico Científica se estrutura na hierarquia dos cargos objetivando uma racionalização das tarefas. Aproxima-se da teoria da administração científica (Taylor). São características desse modelo e supervisão: relações de subordinação, regras e normas impostas de cima para baixo, caráter quantitativo em detrimento do qualitativo na execução das tarefas.

Na concepção Auto Gestionária a responsabilidade recai sobre todos os atores, direção descentralizada e participação efetiva de toda a comunidade escolar. Ficam evidentes neste processo: decisão coletiva, eliminação das relações de poder de um grupo sobre o outro, eleições com a participação de todos. A auto supervisão e a participação coletiva do processo nega o poder instituído de caráter impositivo e autoritário.

Na Democrática, – Participativa todas as decisões relacionadas à supervisão escolar é de caráter coletivo e com a participação de todos os atores envolvidos, privilegiando uma relação orgânica entre gestor e toda a comunidade escolar. A decisão coletiva na organização do trabalho abre precedentes para que todos assumam o seu papel dentro do processo, inclusive na avaliação sistemática do gerenciamento e organização dos trabalhos. São características desse modelo de supervisão: articulação efetiva entre o caráter político, social, administrativo e pedagógico da U.E., além da supervisão participativa deverá ser considerado também a supervisão da participação, qualificação profissional, um processo onde todos avaliam e são avalizados e todos dirigem e são dirigidos.

As concepções anteriormente descritas refletem a posição política e a ideologia que se estrutura uma supervisão escolar na relação entre os atores. Essas relações e posições diante desses enfoques, estabelecem o caráter tradicional ou transformador de uma U.E. Uma concepção técnica científica   prioriza a subordinação e a valorização do trabalho em detrimento do indivíduo. A auto gestionária e a democrática participativa se direcionam para um trabalho coletivo com a participação de todos.

Para Libâneo:

“Embora ambas tenham entendimentos  das relações de poder  dentro da escola, concebem a participação de todos nas decisões como importante ingrediente para a criação e desenvolvimento das relações democráticas e solidárias”. (LIBÂNEO, 2001)

Para fins de esclarecimentos para os leitores que não convivem com a dinâmica da organização de uma U.E. utilizaremos a estrutura básica de uma U.E. proposta por Libâneo: Conselho de escola, direção, setor técnico, administração, setor pedagógico, instituições auxiliares, corpo docente e discente.

Outro aporte teórico que problematiza a administração empresarial na educação é Miguel Henrique Russo, que avança nesta discussão acerca da mudança que vem acontecendo a partir da década de 80 distanciando-se de uma supervisão burocrática da escola em direção a uma supervisão construída no processo pedagógico da escola.

Ainda que persista o caráter técnico científico na supervisão escolar de muitas  U.E é possível vislumbrar no horizonte a utopia, conceito aportado  em Thomas Morus na sua obra “utopia” que critica de forma violenta a sociedade inglesa do  século XVI.  “Utopia” é uma ilha do novo mundo, do lugar nenhum, na qual a justiça, verdade e igualdade pudessem prevalecer, ou seja, uma sociedade ideal. Marx vai apropriar do conceito no século XIX e trazê-lo para a luz da discussão no que se refere às relações de poder e luta de classes na sociedade. Para Marx utopia é a negação dessa sociedade capitalista, de ideologia dominante perversa, desigualdades sociais e luta de classes com forças desiguais.

Dentro desse processo de mudança, o desafio é grande e a sociedade deverá abraçar essa responsabilidade, observar criticamente o processo, refletir acerca de projetos e ações de intervenções para os entraves que surgem a partir de uma educação estritamente burocrática. A utopia para as mudanças transformadoras a favor de uma supervisão crítica e participativa encontra obstáculos na organização tradicional do sistema educacional além da hegemonia da classe dominante legitimar o processo. Nesse contexto o grande desafio é articular uma supervisão escolar que se coloque a favor da classe dos trabalhadores e das camadas populares da sociedade a tempos subjugados por uma classe dominante que estabelece suas regras e ideologias a seu favor. (RUSSO,2004)

A escola pública só cumprirá o seu papel político e social efetivamente a partir do momento que:

“...definitivamente se abrir  à  participação da comunidade, identificar-se com os interesses e necessidades da classe trabalhadora, construir sua autonomia em relação aos interesses políticos econômicos e encontrar formas de organização de trabalho adequados à natureza do processo pedagógico.” (RUSSO, 2004)

Uma supervisão escolar que pretenda privilegiar uma administração pedagógica escolar, tem que estar para além das abordagens teóricas, necessita considerar os fenômenos concretos e conflitos que emergem no cotidiano escolar, desde os pequenos problemas até os mais complexos.  A teoria e prática deverão estar indissociáveis no contexto local da U.E., afastando-se de uma relação mecânica e burocrática da supervisão escolar. Faz-se emergencial uma supervisão escolar que desenvolva estratégias e possibilidades na direção de uma educação de caráter político e social, preocupada com a formação dos indivíduos sujeitos da sua história e consciente do seu papel na sociedade.

3.1  Supervisão Escolar Tecnológica

“O envolvimento dos gestores escolares na articulação dos diferentes segmentos da comunidade escolar, na liderança do processo de inserção das TIC na escola em seus âmbitos administrativo e pedagógico e, ainda, na criação de condições para a formação continuada e em serviço dos seus profissionais, pode contribuir significativamente para os processos de transformação da escola em um espaço articulador e produtor de conhecimentos compartilhados.” (RUBIM  E ALMEIDA,2004)

Como vimos no capítulo anterior “Conceito de Tecnologia’, percebemos de acordo com a teoria de Vieira Pinto que o conceito é múltiplo e sugere quatro concepções distintas: tecnologia como ciência, artefato, instrumento de diferenciação entre grupos sociais, sobrepondo sobre as outras, aquele que detém maior número de técnicas e por último e mais complexa a tecnologia enquanto ideologia, determinada como boa ou ruim de acordo com as regras de uma classe dominante. Nesse  contexto as TICs atravessaram os muros da escola com a pretensão de revolucionar o cotidiano escolar (MORAN,2000), favorecendo novos olhares sobre a prática educativa, o gerenciamento de informações, novas conquistas e libertação, mas também na contra mão desse  movimento poderá emergir o aprisionamento pelas novas técnicas, na medida em que as TICs muitas vezes  é estabelecida como a redentora de todos os males do processo de ensino e aprendizagem e da organização das informações da U.E, além da exclusão daqueles que não detém o conhecimento para o manuseio dos artefatos.

Ao entrar na escola as TICs no seu primeiro momento ganhou ênfase com a sua implementação a favor da organização de informações das U.Es, no que se refere às tarefas administrativas e burocráticas das secretarias, aos poucos ganhou status de ferramenta pedagógica contribuindo para o processo de ensino e aprendizagem.  Percorremos um longo caminho para que as novas técnicas possam interferir na formação dos indivíduos favorecendo ambientes de aprendizagem mais abertos, cooperativos e flexíveis coerentes com a realidade e necessidades dos atores envolvidos. Assim novos caminhos se revelam para toda a comunidade escolar e o gestor escolar nesse contexto necessita resignificar a sua atuação frente às TICs no cotidiano escolar, desenvolvendo habilidades e competências no entendimento e leitura crítica da temática, levando em consideração os benefícios das novas técnicas nas U.Es, mas também as ideologias construídas por uma classe dominante que transitam por essa temática. As TICs deverão ser discutidas e implementadas no contexto da U.E. conforme sua necessidade, interesse dos atores envolvidos, capacitação dos profissionais, tanto pedagógico quanto administrativo. (ALMEIDA,2005).

Segundo ALMEIDA,

“O gestor... ele busca criar condições para a utilização de tecnologia nas práticas escolares de forma a redimensionar  seus espaços, tempos e modos de aprender, ensinar, dialogar e lidar com o conhecimento. Ele procura identificar as potencialidades dos recursos disponíveis para proporcionar a abertura da escola à comunidade, integrá-la aos distintos espaços de produção do saber, fazer da escola um local de produção e socialização de conhecimento para a melhoria da vida de sua comunidade, para a resolução  de suas problemáticas, para a transformação de seu contexto e das pessoas que nele atuam.” (ALMEIDA,2005)

O gestor escolar tecnológico necessita compreender que as TICs podem revolucionar o cotidiano escolar trazendo profundas transformações na maneira de ensinar, aprender e organizar as informações, mas esse movimento transformador não se consolidará se o processo de consciência crítica acerca dessa implementação das TICs na educação não se colocar para além do domínio dos artefatos, mas sim entendê-las e resignificar suas potencialidades e refletir sobre o seu impacto na sociedade e nos indivíduos. Discutir sobre supervisão escolar tecnológica é trazer para o debate a supervisão das tecnologias nas U.E.s que abarquem práticas inovadoras, políticas públicas de inclusão, relações dinâmicas entre os atores e seus pares.

A articulação das TICs na U.E. proporciona o acesso a uma gama de informações atualizadas além de contribuir para a implementação de um processo que privilegie o caráter colaborativo e cooperativo da reconstrução do conhecimento, a comunicação, a formação continuada dos atores e a sintonia entre os aspectos administrativos, pedagógicos e tecnológicos. O acesso à internet na U.E. descortina várias possibilidades de comunicação compartilhada entre vários indivíduos de lugares distintos para além dos muros da escola. A supervisão escolar poderá promover transformações importantes otimizando o processo de ensino e aprendizagem, a dinâmica administrativa da U.E. e a implementação de uma supervisão participativa com os setores externos e internos da comunidade escolar.

Segundo Almeida e Rubim,

“A transformação da escola está acontecendo com maior freqüência em situações nas quais diretores e comunidade escolar (funcionários, professores, alunos, pais e comunidade) se envolvem e diretamente no trabalho realizado  seu interior.” (ALMEIDA E RUBIM, 2004).

Uma supervisão escolar tecnológica aliada às TICs poderá desenvolver uma comunicação entre comunidade escolar com outras organizações, promovendo a troca de experiências e encurtando as distâncias, através de ferramentas como e-mails, blogs, facebook e outras. Expor de forma criativa através das redes sociais, projetos, encontros, fotos, prestação de contas, problemas e etc., abre precedentes para que todos possam acompanhar o cotidiano escolar, contribuindo para o enfrentamento dos entraves e sugestão de ações transformadoras a fim de minimizá-los.

O supervisor escolar que se proponha a articular as TICs no cotidiano escolar em parceria com toda a comunidade escolar, dando ênfase numa formação continuada para os atores envolvidos poderão contribuir de maneira relevante para uma revolução de cunho tecnológico na U.E. (MORAN,2000), transformando-a num espaço de reconstrução do conhecimento coletivo.

Diante da realidade da inserção das TICs no interior das U.E.s, tanto no âmbito de um processo de ensino e aprendizagem eficaz e o gerenciamento e produção de informações, torna-se inevitável o envolvimento dos supervisores escolares nessa dinâmica, afinal as TICs por si só não causarão efeito algum em direção a uma transformação ou superação de paradigmas e as atividades que envolvem as novas técnicas continuarão restritas às pequenas iniciativas isoladas de alguns educadores e educadoras. Os esforços deverão ser direcionados para a tomada de consciência da importância do supervisor nessa dinâmica, da responsabilidade de promover a assimilação e consolidação das TICs no cotidiano escolar, levando em consideração de que uma supervisão das TICs implica numa supervisão pedagógica e administrativa das novas técnicas e do sistema informacional oriundos dessa relação. (ALMEIDA E RUBIM, 2004).

O fio condutor para uma supervisão escolar tecnológica deverá estar alinhado com a participação de toda a comunidade escolar na tomada das decisões e dos processos de intervenção garantindo a criação de possibilidades para experimentar as vantagens das TICs a favor das redes colaborativas na reconstrução do conhecimento, gerenciamento e produção de informações, tendo como aportes as redes sociais e a web, buscando alternativas e novos caminhos, a fim de minimizar o desencanto tão real dos atores na dinâmica escolar, considerando as necessidades e interesses dos indivíduos além dos fatores sociais, políticos e econômicos que transitam pela comunidade na qual estão inseridos.

TAJRA é outro aporte teórico que caminha nessa avenida envolvendo a informática e educação, que através das suas reflexões nos indica que as mudanças necessárias para o desencanto que transita pelo cotidiano escolar tanto por parte dos educadores, gestores, setor técnico administrativo e  educandos, uma possibilidade  de mudança pode ser as TICs associada ao processo de ensinar e aprender, gerenciar  e produzir informações, além de perceber nessa relação uma transformação tanto na estrutura da U.E. quanto nos atores envolvidos.

Para a autora os usuários das TICs na educação se dividem em dois grupos distintos: integrados e apocalípticos. Os integrados acreditam que a inserção das novas técnicas na U.E. por si só já é um avanço, uma inovação e as caracterizam enquanto neutras, objetivas e científicas, defendendo a ideologia de que a utilização das mesmas significa progresso e o seu desenvolvimento está sempre associado ao avanço da ciência. Os apocalípticos não consideram as TICs como neutra, lançam um olhar mais crítico e pessimista sobre o seu impacto na sociedade, visto que o desenvolvimento das técnicas tende a diminuir o conhecimento das técnicas tendem a diminuir o conhecimento para manuseá-las, transformando o conhecimento especializado para poucos, relegando aos indivíduos à baixa qualidade do conhecimento.

Com a inserção das TICs no contexto da educação torna-se importante um diálogo constante com os educadores sobre os impactos das TICs na sua prática. Os educandos deverão participar desse debate, a fim de que eles possam refletir criticamente sobre o conceito de tecnologia que está para além do artefato tecnológico e que sugere outras três concepções como: tecnologia como ciência, ideologia e instrumento de diferenciação entre grupos sociais, sendo que aqueles que detém o maior número de técnicas se sobrepõem sobre aqueles com menor quantidade. (VIEIRA PINTO,2005).

O computador como ferramenta pedagógica deverá ser percebido não enquanto um fim, mas um meio de otimizar o processo de ensino e aprendizagem, além do gerenciamento e produção de informações e que deve variar de acordo com o objetivo que deseja alcançar, os atores envolvidos, suas necessidades e interesses. Não existe uma fórmula correta para a sua utilização, mas sim várias possibilidades para a sua aplicabilidade. Nesse contexto, nos planos de aulas as TICs devem ser vistas como ferramentas pedagógicas auxiliares, que por si só não farão a diferença, mas poderão causar uma revolução caso utilizadas de forma consciente e crítica. A supervisão escolar se estabelece como elemento articulador e aglutinador da equipe, pois deverá implementar encontros, reuniões, planos de supervisão, parceria junto às empresas locais, manter um bom trânsito nas secretarias de educação e outros órgãos que compõem o seu arco de abrangência. Todas essas estratégias aliadas a um plano de supervisão eficiente que privilegiem essa temática, devem abrir precedentes para o debate coletivo sobre os acertos e dificuldades da consolidação efetiva de um processo de ensino, aprendizagem e gerenciamento das informações balizados pelas TICs.

4.    GESTOR ESCOLAR: INTELECTUAL ORGÂNICO DA  ESCOLA

“Cada grupo social ,nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica,cria para si,ao mesmo tempo,de um modo orgânico ,uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e no politico..” (GRAMSCI,1989)

Neste capítulo pretendemos aproximar o papel do supervisor escolar ao conceito de intelectual orgânico de Antônio Gramsci, intelectual coroado do século XX, que defende a tese da existência de duas dimensões de intelectuais na sociedade: o tradicional e o orgânico. Associando ao objeto de estudo dessa pesquisa, o supervisor escolar enquanto intelectual tradicional seria aquele que estaria preocupado apenas em estabelecer o status quo de líder dissociando a sua supervisão dos problemas sociais e histórico da sua comunidade escolar, não percebendo que a sociedade está num constante movimento de se fazer e refazer a todo momento e que o contexto social do passado é diferente do presente necessitando de uma nova releitura da sua prática.

O intelectual orgânico defendido por Gramsci é aquele criado por cada grupo social, a fim de conceder ao grupo no qual está inserido a homogeneidade e consciência crítica no âmbito social, econômico e político dos atores que compõem esse agrupamento social.

Intelectual orgânico é aquele que tem a responsabilidade com a classe que o criou e se propõe a ser o organizador da sociedade, a fim de proporcionar uma melhoria para a expansão e reconhecimento da sua classe. Aproximando esse conceito gramsciano da educação podemos arriscar numa afirmação de que a escola necessita de um supervisor escolar orgânico que tenha a capacidade de organizar a classe social que o forjou independente da estrutura física na qual estão inseridos, das teorias ou materiais pedagógicos. A Unidade Escolar está para além da estrutura se formata através da comunidade escolar, que possa articular uma educação voltada para a hegemonia da classe trabalhadora da educação, caracterizando-se numa contra hegemonia da ideologia da classe dominante. (GRAMSCI, 1989)

Ao supervisor escolar enquanto intelectual orgânico cabe a responsabilidade de organizar em cooperação com o grupo sob sua liderança uma cultura escolar para que os atores envolvidos possam compreender a realidade e os novos desafios que o presente impõe para as relações interpessoais no cotidiano escolar. Diferentemente do intelectual tradicional, o orgânico está intimamente associado ao momento histórico comprometido com a sua classe social e o seu envolvimento com a mesma.

Buscando uma relação do objeto dessa pesquisa, o supervisor escolar, com o conceito de intelectual orgânico gramsciano é possível perceber a necessidade da junção dos dois conceitos, a fim de colocar o primeiro comprometido com a classe social que o legitimou, trazendo para si o comprometimento com a transformação da Unidade Escolar numa instituição pedagógica capaz de construir a hegemonia da sua classe se contrapondo à hegemonia de uma classe dominante.

 

A filosofia da práxis não tende a resolver pacificamente as contradições existentes na história e na sociedade, mas é a própria história de tais contradições; não é o governo de grupos dominantes para ter o consenso e exercer a hegemonia sobre as classes subalternas; mas é a expressão destas classes que querem educar a si mesmas para a arte do governo e têm interesse em conhecer todas as verdades, também as desagradáveis, e evitar os enganos (impossíveis) da classe superior e até de si mesma. (Gramsci, 1989)

 

A emergência dessa nova classe de intelectuais orgânicos, os supervisores escolares devem direcionar seus esforços na construção de uma Unidade Escolar que se preocupa também com a comunidade na qual está inserido, afinal a comunidade escolar é constituída pelos profissionais que compõem a estrutura da U.E., mas também com a comunidade local.

O supervisor escolar ao personificar o conceito gramsciano de intelectual orgânico é capaz de descortinar e estabelecer a hegemonia da sua classe, negando a ideologia da classe dominante que detém as regras sociais e que as impõem, estabelecendo o seu poder garantindo os seus interesses. O supervisor escolar orgânico é o intelectual que poderá ver através dos conteúdos escolares e das relações sociais estabelecidas na U.E., indissociado da comunidade escolar a possibilidade de transformação a favor da classe trabalhadora e dos menos favorecidos.

No contexto educacional o supervisor escolar orgânico deverá se aproximar daquele intelectual comprometido com a hegemonia da sua classe social, distanciando-se do intelectual tradicional que atua independente da sua classe, interessado apenas no status quo de líder dissociando os fenômenos históricos dos problemas sociais e educacionais que transitam pelo cotidiano escolar.

O supervisor escolar orgânico necessita perceber que a sociedade sofreu e sofre alterações a todo instante, tornando emergencial desenvolver uma nova postura frente aos problemas antigos e os novos que surgiram com a contemporaneidade. A comunidade local e nesse contexto a figura e presença de pais, responsáveis e alunos ganham relevância, na medida em que o supervisor escolar orgânico deverá articular esses atores com a sua gestão educacional a favor da hegemonia da classe dominada e a favor do desenvolvimento de uma consciência crítica dos atores. O conceito de hegemonia mantém uma estreita relação com o processo educacional que esteja a serviço do povo, empenhada na transformação das estruturas e numa possível mudança de paradigmas. (GRAMSCI, 1989)

As Unidades Escolares necessitam de supervisores que possam organizá-las administrativamente, pedagogicamente e tecnologicamente de forma orgânica que balize os seus trabalhos de acordo com a realidade da sua comunidade escolar. O supervisor escolar orgânico torna-se articulador de um agrupamento social que se forma na U.E. exercendo o controle das fases que envolvem o cotidiano escolar que poderá auxiliar no processo educacional.Gerindo a sua U.E. sob o viés da contra hegemonia da classe dominante, o supervisor escolar orgânico poderá oferecer aos educandos, além daquilo que determina o Estado, o desenvolvimento de uma cultura na comunidade escolar que privilegie uma gestão participativa, na qual toda a comunidade escolar possa participar da dinâmica escolar dentro das suas competências, garantindo a melhoria da U.E. e dos atores envolvidos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao expor o problema da inserção das TICs no cotidiano escolar bem como as suas potencialidades, principalmente no que se refere à otimização do processo de ensino e aprendizagem e gerenciamento das informações, a U.E. descortina novas possibilidades na reconstrução do conhecimento e processo administrativo de caráter compartilhado e cooperativo entre os atores e seus pares.

Nesse contexto o supervisor escolar de caráter orgânico (GRAMSCI), torna-se figura importante na articulação de diferentes espaços na U.E e fora dela que poderá provocar mudanças relevantes no seu interior, ou seja, a revolução preconizada por MORAN, na qual o ensino e a aprendizagem, os setores administrativos poderão se desenvolver num processo cooperativo entre setores internos e externos da U.E.

As TICs não serão as redentoras de todos os males da educação, principalmente se articuladas individualmente no cotidiano escolar. Faz-se necessário uma formação continuada dos profissionais, a fim de que sejam habilitados a reconhecer a sua importância e manuseio das novas técnicas a favor do processo de ensino e aprendizagem e gerenciamento das informações. Essa formação dos atores fortalece a figura do supervisor escolar orgânico na direção e implementação das TICs na busca de soluções que possam articular os setores administrativo, pedagógico e tecnológico na supervisão da U.E.

REFERÊNCIAS

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ALMEIDA, M. E. B. de. RUBIM, Lígia Cristina. O papel do gestor escolar na incorporação das TIC na escola: experiências em construção e redes colaborativas de aprendizagem. (s/d) São Paulo: PUC-SP, 2004. Disponível em:  http://www.eadconsultoria.com.br/matapoio/biblioteca/textos_pdf/texto04.pdf Acesso em: 09 jan.2018.

 

ALMEIDA, M. E. B. Integração das Tecnologias na Educação. In: Moran, J.M. e Almeida, M.E.B de, (Orgs). Salto para o Futuro. Brasília. SEED ‐ MEC, 2005, p. 38 - 45.

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MORAN, José Manuel; MASETTO, Marcos T.; BEHRENS, Marilda Aparecida. Novas tecnologias e mediação pedagógica. Campinas: Papirus, 2000. Disponível em:  www.adidatica.com.br/arquivos/MORAN.doc. Acesso em: 10 jan. 2018.

 

PEIXOTO, José Antônio Assunção. Educação Tecnológica/ José Antônio Assunção Peixoto, Leydervan de Souza Xavier, Lilian Martins da Motta Dias. Rio de Janeiro: CEFET/RJ, 2009. MóduloI.

 

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Revisado por Editor do Webartigos.com