“A vertente realista, tão forte na literatura brasileira, passa a adotar, na década de 80, outros modelos literários”. Essa afirmação está contida no ensaio “Ficção 80- Dobradiças e Vitrines” da obra “Papeis Colados”, de Flora Sussekind.

A partir dessa premissa, Sussekind apresenta importantes questões que diferenciam as obras literárias da década de 1980 das obras que as antecederam. Para a ensaísta, na década de 1970, predominava o romance- reportagem, o qual ela define como literatura engajada e de cunho jornalístico. Na década de 80, no entanto, ocorre uma certa descontinuidade desse ideário, já que os escritos ficcionais desse período aproximam- se do ensaio, descartando a imitação da reportagem das décadas anteriores.

A prosa de ficção brasileira recente, de modo geral, ocupa-se e dialoga diretamente com o universo da Mídia (cinema, TV, rádio, jornal, vídeo game, câmeras e fotos), servindo de cenário para personagens anônimas e sem privacidade,  expor- se, observar e serem observadas, seja através das paredes de vidro, janelas e vitrines, ou através das telas dos meios de comunicação, onde movem-se na busca pelo prazer. Sussekind conclui, então, que a prosa literária brasileira da década de 80 é a prosa da subjetividade, marcada pela busca de prazer e desejos, registrando, desse modo, a espetacularização da sociedade brasileira das últimas décadas do século XX.

Sussekind toma como exemplo da prosa de ficção brasileira da década de 80, a obra de João Gilberto Noll, Silviano Santiago e Sérgio Sant'Anna. No conto “Marilyn no inferno”, Noll ocupa- se diretamente do cinema. O protagonista da narrativa é um ator figurante que sonha com o estrelato, mas não consegue nenhum flash sobre si. O desfecho é, ao mesmi tempo, trágico e surpreendente, pois o protagonista morre vitimado pelo seu próprio sonho. Em “Bandoleiros”, Noll explora o universo da subjetividade e do privado, marcado pela exposição e a intimidade através das paredes de vidros, janelas e vitrines. Silviano Santiago, no final de “Stella Manhattan” narra o olhar de uma vizinha que, por trás de uma janela, observa e condena o protagonista, como se este existisse apenas para ser visto. Em “Amazona”, de Sérgio Sant’Anna, a personagem Moreira, um bancário, defronta-se com a imagem da esposa exibida em uma revista numa banca de jornal. Diante da imagem, o marido desmaia. Por fim Sussekind conclui: E é neste lugar especial entre o segredo e a exposição, é nesta vitrine que parece se mover a prosa literária brasileira nesta década de 80.

Para compreendermos como se deu a representação da realidade em nossos escritos, faz- se necessário um passeio pela nossa literatura, pois, desde Gregório de Matos, houve uma grande preocupação com a representação da realidade da sociedade brasileira, bem como de seus valores. Esse, por sua vez, retratou, em seus poemas, as contradições da sociedade baiana do século XVII; a Plêiade Mineira, no século XVIII, tentou falar da natureza brasileira, a qual não conhecia, por meio de um sentimento nativista; no século XIX, com o advento do Romantismo e da Independência política do Brasil, acentuou o sentimento nacionalista. Coube, então, aos romancistas, desse período, descobrir e idealizar a natureza e a nação recém- independente. Daí por diante, a preocupação em retratar a realidade brasileira passa por diversas transformações e ressignificações, com as escrituras ficcionais de Aluísio de Azevedo, Lima Barreto, Domingos Olímpio, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Érico Veríssimo, João Guimarães Rosa, dentre outros,  até alcançar a década de 80, sob um novo ideal, como afirma Sussekind.

Como podemos observar, a vertente realista, a partir da década de 80 é apresentada sob novas roupagens, de modo a atender aos anseios do homem do final do século XX, diante de uma nova realidade. Sendo assim, é prudente lançarmos um olhar sobre o contexto socio- cultural que envolve essa literatura, pois é esse contexto que lhe confere contorno e especificidade. Ou seja, importa estabelecermos relações entre literatura, cultura e sociedade e, desse modo, verificarmos como na Pós- Modernidade, as determinações do sistema capitalista contemporâneo, dentre elas a globalização, trouxeram várias transformações sociais e culturais, muitas vezes favorecidas pelo desenvolvimento vertiginoso das novas  tecnologias, dos meios de  informação, bem como dos sistemas virtuais de comunicação, que afetam diariamente e diretamente nossas vidas, de modo a operacionalizar e controlar a vida produtiva, social e privada do indivíduo.

Esse novo ideal promoveu o consumismo, o individualismo e a busca incessante pela satisfação de prazeres imediatos e efêmeros, diante dos quais, o sujeito  é seduzido por uma visão de mundo de aparência desejável, que o convida a experimentar todas as sensações externas, que passam a dominar seus interesses pessoais, sociais e culturais, seus vínculos afetivos e sobretudo, limita sua capacidade de pensar criticamente sobre si e o meio circundante. Diante dessa nova realidade, o sujeito tem a oportunidade de criar própria identidade, na qual tudo é inventado, fluido e descartável e, muitas vezes, mediado pelas telas do computador e outros meios de comunicação. Desse modo, a existência do sujeito contemporâneo ganha um novo sentido, ao ser moldada pela cultura e valores na qual está mergulhada e, ao ser atravessada por valores narciso- individualistas, sob a égide da perversão e do prazer imediato.

Diante dessa breve reflexão sobre a literatura contemporânea, notamos que a análise desses escritos, no entanto, não deve ser limitada à crítica aos valores capitalistas e às novas tecnologias da comunicação, pois é uma literatura que aborda uma amplitude de problemáticas, como por exemolo, o comportamento humano e suas inquietações, o valor das relações humanas, bem como o sentido da vida e da morte face às possibilidades e facilidades proporcionadas pelo desenvolvimento tecnológico, acompanhado pelas mudanças políticas e sociais que estão ocorrendo.

 

Referência Bibliográfica

SÜSSEKIND, Flora. Papéis colados. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003.