Sobre Voltaire

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | História

A análise dos filósofos iluministas nos transporta ao final do século XVIII, tendo ali sido a consolidação de suas grandes ideias, irradiadas no que foi o tempo de sua materialização, em acontecimentos de grande vulto, como as Revoluções Francesa e Estadunidense. E um deles foi, certamente, François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (um de suas dezenas de pseudônimos)

Voltaire nasceu no final do século XVII, e foi muito influenciado pela obra liberalista de John Locke, defensora da democracia representativa em quaisquer formas de governo (seja monárquica ou republicana) e de uma economia capitalista, pois só a ausência de letargia na sociedade, em que vigorem o livre mercado e a livre concorrência, poderia garantir o crescimento e consequente prosperidade. Para Locke, quem trabalha transformando matéria no seu produto final seria o seu legítimo dono, e dele poderia dispor como quisesse (ao contrário de um trecho do hino socialista "A Internacional", que canta "todo o produto de quem sua, a corja rica o recolheu, queremos que nos restitua, o povo quer só o que é seu": se o povo transformou a matéria com suas próprias mãos, numa interpretação nua e crua, do próprio John Locke, poderia se apropriar do produto final, destroçando a teoria da mais-valia, e, paradoxalmente, materializar-se-ia o capitalismo...bem, mas aí, é assunto para outro artigo, que não vou discutir aqui).

Voltaire verificava que o liberalismo de Locke havia dado certo na Inglaterra, ao revés de sua pátria natal, a França, ainda num regime absolutista, bem à moda de Thomas Hobbes, e economicamente não industrializado e pobre. Por isso, teve altos contatos com gente que, saberia, tinha potencial de mudar os rumos do país, a despeito de um jovem Maximilien de Robespierre, que tentou, em vão, dar um fim àquele estado de coisas por métodos não próprios, eis que o fez pela tirania, traindo os ideais de Locke e sendo enviado à guilhotina no dia seguinte à sua prisão. Na cela, nada deve ter lhe aliviado tanto da incerteza a respeito do pós-morte como a convicção de Voltaire de que “se Deus não existisse, teria que ser inventado”.

O fato de a França mudar os rumos de sua política e economia subsistiu em Voltaire até que desaparecessem, de seu país, a certeza de que Locke, bem como, também, Adam Smith (incluída a sua "mão invisível" que controle o mercado) e seu fiel amigo David Ricardo, estivessem certos. Afinal, os séculos de evolução, desde a defesa de Hobbes acerca do absolutismo, lhe deram uma convicção: “Toda verdade começa como heresia e termina como ortodoxia” (o que ele jamais veria, eis que as consequências da inevitável jornada da França rumo ao desenvolvimento inglês se deram no decorrer do século XIX, impulsionadas pelas revoluções industriais daquelas terras).

Além disso, numa talvez conversa fictícia com Hobbes, cravou que "discordo do que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”. Especialmente em relação à política, poderia, se vivo estivesse, lançar tal máxima ao próprio Napoleão Bonaparte, que se se autoproclamou imperador em 1804. E, no tocante à economia, a um filósofo de outrora, Saint-Simon, para quem a "propriedade privada é um roubo", num vertiginoso grito de socialismo utópico.

A história é uma ciência que explica todo o mundo ao nosso redor, já que feita de seres destacados, bem como de anônimos, cujos nomes, infelizmente, não constarão de seus livros. Triste, pois seu esforço individualizado não foi, é e será reconhecido. Mas, por mais que haja injustiça na distribuição dos créditos históricos, feliz ou infelizmente são os cabeças a serem, enfim, laureados. E Voltaire foi um dos cabeças mais brilhantes do solo que, anos depois, seria o da Revolução de 1789.