Sobre Tocqueville
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | HistóriaA análise dos séculos de História Moderna nos faz crer que seus protagonistas o são a partir das próprias pátrias. Mas há as nobres exceções. No decorrer do século XIX, um homem que teve parte da família dizimada na guilhotina de Robespierre, e tampouco apoiou a monarquia francesa, restaurada com a autoproclamação de Napoleão Bonaparte como imperador, em 1804, exarou suas ideias no outro lado do Canal da Mancha, em Londres. Alexis de Tocqueville mandava suas mensagens aos ouvidos do velho mundo continental.
Tocqueville tinha todos os motivos para odiar a Revolução Francesa, pois, como referido, vários de seus ascendentes foram injustamente mortos, enquanto outros, geralmente culpados, eram lançados às luzes da liberdade. Isso o levou a refletir sobre o real significado da democracia (se há o popular apoio a um movimento com o intuito de estabelecê-la, e, ao fim, a mesma se concretiza na tirania de Robespierre, havia a transmutação àquilo denominado, por Tocqueville, como "ditadura da maioria", apoiadora dos demandos do chefe do “governo do terror”).
Tocqueville concluiu, após muito meditar, e especialmente por meio das palavras do antigo filósofo francês Saint-Simon, que não entendia quantos homens, quantas cidades, quantas nações se sentiam coagidas a seguir ordens de um só homem, que não poderia fazer-lhes mal algum senão enquanto aceitariam suportá-lo. Com isso, deduziu que a França, com a Revolução de 1789, tinha se tornado o que temia e criticava, a expressa ditadura da maioria, pois o poder de Robespierre (como qualquer forma autocrática de comando) não subsistia sem uma rede de apoio, este da população.
Assim, lançou as bases para a rejeição da ortodoxia nas representações nacionais, visando a limitar tal fenômeno à expressão individual de cada qual na sua essência, de modo que o discurso de antes da revolução, por parte de Robespierre, sobre a inclusão de minorias sociais no espectro político, com ideias antagônicas (mas, nem por isso, errôneas), foi estimulado pelo grande Tocqueville. Só por meio dos pesos e contrapesos, a exemplo do que ocorria nos EUA, havaria barreiras a uma indesejada homogeneidade, coatora dos desiguais na sua desigualdade, e, portanto, individualidade, que é o âmago da democracia. Não nos esqueçamos, caros, que, em 1932, os nazistas pregavam tanta e tanta homogeneidade, que acabaram obtendo a maior parte das cadeiras do Reichstag. Com isso, um psicopata foi indicado ao cargo de chanceler federal.
De volta à França, Tocqueville tentou se tornar deputado na década de 1830. Fracassou na primeira tentativa, mas, após, logrou êxito, tendo sido destituído pelo golpe havido na metade daquele século. Mas não importa a quem cassem, decapitem, doutrinem ou ensinem, errônea e forçosamente: sempre haverá heróis como Tocqueville, Voltaire, John Locke e outros, que quebrarão os paradigmas e nos darão, literalmente, shows de iluminismo, irradiado de suas mentes brilhantes, que fizeram e farão com que muitas nações sejam verdadeiros bastiões da democracia e da esperança.