Sobre Sócrates, Platão, Aristóteles e Alexandre, o Grande
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | HistóriaA transmissão de valores, da mais alta simplicidade ou dos mais grandiosos pensamentos, é feita de geração em geração, ou de mestre a pupilo, tendo, nos dois casos, o escopo maior de amplificar as virtudes do ensinando. E assim foi, relativamente, a Sócrates e muitos de seus pupilos, mas, em especial, Platão.
Sócrates, por mais incrível que pareça e até prova em contrário, não nos regalou sua filosofia escrita, cuja complexidade e contemporânea simplicidade objetivava, de forma direta e genérica, atingir os mais profundos conceitos dos piupilos. Por exemplo, “conhece-te a ti mesmo”. Tal conceito nos mostra que a influência da personalidade já era dominada pelo grande mestre (muitos e muitos séculos antes de Lacan, Freud e Jung), estabelecendo, no livre-arbítrio, o grande catalisador das obras humanas, nas suas glórias e infortúnios, e consequente geração da felicidade ou revés, com os inevitáveis seguimentos sofridos, respectivamente, por quem conhece, ou não, a si mesmo. O próprio Sócrates, infelizmente, sofreu o infortúnio de sua sentença capital por eventual infração de corrupção da juventude, cominada à tentativa de câmbio dos deuses protetores da pólis, paradoxalmente anunciada contra quem conhecia a si mesmo, mas dada por um sistema que, como todos os outros, poderia ser um farol de antecipado iluminismo. Ocorre que o poder sentenciador também era não isento dos erros de quem, comandando-o, não conhecia a genialidade de alguns de seus filhos. E Sócrates se suicidou com cicuta (ele, que se conhecia, não poderia jamais prolongar a angústia decorrente de uma sentença capital).
Platão, ao contrário de seu mestre, deixava expressa toda a sua obra. Seus escritos abrangiam não apenas filosofia, mas história, matemática e um sem-número de ciências, destacando-se, ao fim e ao cabo, como o maior intelectual da Antiguidade. No meu entender, sua obra mais promissora é “A República”, em que o autor deixou clara a sua ideal sociedade humana (não esquecendo-nos, obviamente, que, para suas ideias, ele levava em conta os contextos e os conceitos apreendidos de sua época e localização geográfica). Em “A República”, temos uma proposta de contrato social feita por Platão, em que ele oferecia aos seus iguais e contemporâneos uma espécie de utopia (bem antes da autointitulada e própria “A Utopia”, de Thomas Moore, que seria publicada no ocaso da Idade Média e alvorecer da Idade Moderna) como principal via de acesso à felicidade. Parafraseando o antecessor Sócrates, dita publicação proporcionava o conhecimento dos cidadãos sobre si próprios, à medida que, implícito era o respeito ao patrimônio público exercido por zelosos guardiões, daí a felicidade subjacente. Outras profundas obras de Platão, além de seus numerosos escritos esporádicos, era, também, “O Mito da Caverna”, além de ter ele próprio fundado a Academia, primeira universidade de todo o Ocidente. Além disso, foi doutrinador de Aristóteles.
Seguidor fiel das ideias de Platão, e, desta forma, também de Sócrates, Aristóteles, como um autêntico polímata da Antiguidade, exalava conhecimento sobre as mesmas. No mais, criou o Liceu, outra das universidades que viriam a ser um dos referenciais no mundo ocidental. Defensor da escravidão num mundo sem paradigmas que ensinassem a repudiá-la, também rejeitava os trabalhos manuais, que seriam deixados aos medíocres, ao revés dos intelectuais, cuja prova e atrubutos já lhe bastavam para serem infinitamente mais considerados. E que, como ele, se revestiam das condições de filósofos, historiadores, matemáticos, cientistas. Só que ele também foi conselheiro de Alexandre, o Grande, nas suas conquistas do oriente e extremo oriente.
Alexandre, que era macedônio, não hesitou na observação de suas orientações, em especial na difusão do helenismo, tendo iniciado o primeiro processo de globalização em grande escala (com a universalização, no máximo de territórios conquistados, da língua e moeda gregas, bem como do dodecateísmo, a religião grega que cultuava os doze deuses, e pela qual o próprio Platão tinha enorme reverência, tanto que propôs que cada mês do ano fosse consagrado, em específico, a um).
Sequências de gênios. Versatilidade. Concatenação de ideias, ainda que nem com todas concordemos. Isto era a Grécia. Isto era a grande civilização helênica.