Sobre Samurais e Shogunatos

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | História

O conceito de “ditadura militar” varia conforme com a historiografia. Entre nós, latino-americanos, dita denominação remete a generais fardados, sustentados nos topos dos poderes executivos pelas Forças Armadas. Mas poucas pessoas associam tal conceito aos shoguns e samurais, simbioticamente dependentes. Os samurais eram, no início de sua existência, pouco alfabetizados e imbuídos da rude tarefa de coleta de tributos, tendo existido entre 930 d.C. e o final da década de 1870. E, naqueles quase mil anos, foram, para o bem e para o mal, os responsáveis pela sustentação dos shoguns (ditadores militares) das três dinastias, que, animosamente, se sucederam no Japão: os shogunatos Kamakura, Ashikaga e Tokugawa.

No século XII, o Japão estava sob um regime feudal (semelhante ao encontrado no Sacro Império Romano-Germânico, então existente na Europa). Os daimyo eram os senhores feudais japoneses, proprietários de grandes extensões de terra, protegidos por seus pequenos exércitos de samurais, devedores estes de obediência irrestrita. E essa proteção era necessária, pois muitos daimyo a utilizavam os seus, também, samurais para saquear e ocupar as terras alheias. O Imperador, detentor dos poderes de Direito, não conseguia impor ordem numa nação que, embora pequena territorialmente, não se restava unificada, e e cuja maior parte a sua autoridade não se fazia presente (ou seja, a falta de comunicações era abravada pela impossibilidade de onipresença).

Numa atmosfera tensa e emergente de conflitos de interesses, ao final do mesmo século XII o Imperador perde o poder, de facto, ao primeiro shogun, integrante da Dinastia Kamakura (isso ocorreu em 1185 ou 1192, a depender da avaliação do intérprete sobre a instituição oficial do shogunato). Naquele período, a capital era a comunidade de mesmo nome, e de onde os shoguns governavam: Kamakura. Os samurais dos shoguns Kamakura a eles juraram a maior de todas as lealdades. Como os shoguns também eram daimyo, tal combinação foi letal, já que os conflitos por terra subsistiram, não só entre os shoguns e os daimyo não governantes, mas entre esses últimos em si. O sistema não se sustentou diante da situação, razão pela qual o shogunato Kamakura caiu em 1333, perante a emergência da Restauração Kenmu, objetivada pelo Imperador Go-Daigo, que queria retomar o poder perdido por seu distante ancestral de 1185 (ou 1192).

Fracassou, e, em 1336, a dinastia Ashikaga fez subir à condição de shogun seu primeiro representante, que passou a governar de Kioto, feita capital. Durante o shogunato Ashikaga, não foi apenas a questão da terra que pesou aos shoguns, mas a insatisfação dos samurais com a falta de compensações devidas pelas lutas contra os mongóis, que haviam invadido o Japão. Embora a soma das referidas questões fosse mais grave que as enfrentadas pelo shogunato Kamakura, os shoguns Ashikaga conseguiram mantiveram seu regime por mais tempo, até 1573, embora sem o apoio da totalidade dos samurais e descendentes que, inicialmente, detinha. Naquele ano, houve a questão de Azuchi-Monoyama (recebedora deste nome em razão de dois grandes e belíssimos castelos no Japão localizados), sobre a sucessão e que envolvia facções do norte e do sul, tendo ao final da contenda assumido a administração um shogun da Dinastia Tokugawa.

Os shoguns Tokugawa governaram de formas distintas de seus antecessores. Unificaram definitivamente o Japão, que entrou numa nova fase de paz e prosperidade. Cicatrizaram-se as feridas dos séculos anteriores, e foram mantidas as facetas mais enigmáticas do arquipélago: o constante fechamento às relações exteriores, não só por uma razão econômica, mas em consequência da não aceitação de missionários cristãos, com a reafirmação das tradições xintoístas e budistas da população. Houve uma “era de ouro”, cujas feições mais visíveis foram o renascimento das artes, e das culturas do teatro (dos quais, diga-se, por um período só poderiam atuar homens) e do chá. Algo semelhante às Renascenças Italiana e Carolíngia, também chamado “Período Edo” (antigo nome de Tóquio, e de onde, nominada mais nova capital, governavam os shoguns Tokugawa).

Mas o isolamento não duraria para sempre. Em 1853, chegaram ao Japão quatro belonaves, comandadas pelo experiente Comodoro Estadunidense Matthew Perry (que participou de vários conflitos travados pelos EUA, como as Guerras Berberes, contra o que hoje são a Turquia, a Líbia, a Argélia, a Tunísia e o Marrocos, no início do século XIX), que exigiu a abertura dos portos japoneses a países estrangeiros. Houve um inédito debate interno no Japão sobre as ameaças daquela e outras potências estrangeiras, como o Reino Unido, a França e a Alemanha, que queriam fazer do Japão seu entreposto comercial. No final, prevaleceu a vontade do Comodoro, ajudando a desestabilizar e cair o mais posterior e último shogun Tokugawa, e fazendo restar a conseguinte Restauração Meiji, em que o Imperador Matsuhito retomou o poder de facto, que seus mais remotos antepassados tinham perdido (ou repassado) ao antigo shogunato Kamakura.

O Japão mergulhou num novo tempo de incertezas. E é a ousadia diante das incertezas que faz a história e seus protagonistas, dos quais o nobre povo japonês é dos principais atores, sendo o seu percurso, desde a Antiguidade, um dos mais fascinantes e envolventes de toda a civilização.