Sobre Pétain
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | HistóriaNa história da humanidade, há párias que se convertem em mitos. Mas, uma coisa é imutável: por mais que um homem tenha feito por seu país, se ele, posteriormente, se torna uma figura controversa, o lado negativo prevalece. E um dos maiores exemplos é o militar francês Philippe Pétain.
Profissional brilhante nos campos de batalha, entrou para a história ao, na Primeira Guerra Mundial, conseguir a rendição do Império alemão após a Batalha de Verdun. Por esta ocasião, foi cognominado marechal da França, independentemente das ideologias que carregava, e de ter apoiado a repressão aos elementos que considerava nocivos, como esquerdistas, sindicalistas, integrantes de forças progressistas e todos aqueles que pugnavam pelo fim do império colonial francês, que só se daria, ao fim e ao cabo, a partir do final da Segunda Guerra Mundial, sekadora do destino de Pétain.
No período entre guerras, Pétain desfrutava, na França, de uma popularidade que o levou à condição de guru acima da lei, tanto que, por conta da Guerra Civil Espanhola, se encontrou com o generalíssimo Francisco Franco, a fim de tratarem suas afinidades, num momento em que o mundo estava fadado à Segunda Guerra Mundial. A conversa direta com Franco criou em Pétain um sentimento de que a extrema direita lhe pertencia, bem como, por conseguinte, a própria França, a ser por ele moldada. Nazismo na Alemanha, em plena agitação na década de 1920, bem como e no poder em 1933, e Guerra Civil Espanhola, de 1936 a 1939, eram elementos que mudariam, para sempre, a personalidade do outrora sábio de Verdun.
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nazista, em sua Blitzkrieg, tomou de assalto quase todos os países vizinhos, e não vizinhos, das Europas Ocidental, Oriental e Central, com exceção das nações declarantes de neutralidade (como Suíça, Portugal e a própria Espanha). Quanto à França, muitos de seus leais cidadãos formaram a resistência francesa, e os futuros soldados que se aglutinariam, de fato, às forças aliadas quando do ainda não planejado desembarque do “Dia D” na Normandia, mais de quatro anos depois. Mas, em tal ponto inicial do conflito, as elites francesas capitularam diante de uma Alemanha nazista militarmente superior. Como resultado, formou-se um governo subserviente, ou, melhor dizendo, colaboracionista na cidade termal de Vichy, sob a presidência do Marechal Philippe Pétain. Este governo seria posteriormente acusado, ao lado dos nazistas, de crimes contra a humanidade, como a deportação de judeus franceses para os campos de concentração, a partir da decisão da “solução final” adotada por Hitler. O mais odiado por primeiros-ministros de Philippe Pétain foi Pierre Laval, que acabou por ser fuzilado aos sessenta e dois anos de idade.
Durante a guerra, Pétain apareceu, na Paris ocupada, em grandes palanques a prometer o fim do conflito. Só que ele era colaboracionista, e quem estava, de fato, organizando, de seu exílio, em Londres, a retomada do país sob as forças da França livre, num plano em conjunto com Winston Churchill e o Comandante Supremo das Forças Aliadas na Europa, general Dwight Eisenhower, era Charles de Gaulle, que rejeitava e não respondia, solenemente, às cartas de Pétain.
O plano de retomada pelas praias da Normandia (como eu disse, nominado “Dia D") foi executado em 06-06-1944. Dele tomou conhecimento a Alemanha nazista, por meios de seus serviços de inteligência. E, para lá, Hitler deslocaria um dos seus mais experientes militares de alta patente, o marechal Erwin Rommel, conhecido como “a raposa do deserto” por comandar a força expedicionária alemã Afrika Korps nos desertos do norte africano, a fim de conter movimentos de libertação de colônias italianas como a Líbia, para a felicidade de Mussolini.
Rommel era astuto, mas não fanático. Tanto que no “Dia D” a ele se juntaram voluntários, na sua maioria africanos, asiáticos e transcaucásios, que julgavam seus regimes, ou as administrações coloniais em que viviam, mais totalitários que o próprio nazismo. Rommel não era um autêntico nazista, pois não tinha conhecimento do holocausto, do contrário desertaria (como desertou Claus von Stauffenberg, que tentou matar Hitler, e, por isso, foi fuzilado).
Com a vitória das forças aliadas na Europa, a partir do “Dia D”, e da contraofensiva vinda do leste, ambas a prensar Berlim, o nazismo felizmente caiu. E, em consequência, também caiu o governo colaboracionista e fantoche do marechal Pétain. Pierre Laval, como dito, foi condenado à norte. Já, apesar do apelo de grande parte da população francesa, que ainda o idolatrava sob os argumentos de “o que ele representou” e “evitou um banho de sangue maior”, Pétain foi condenado à prisão perpétua, onde faleceu aos noventa e cinco anos de idade.