Sobre Papadópoulos

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | História

Os conceitos vocabulares, adaptáveis a questões políticas e históricas, variam conforme as circunstâncias relativas aos personagens protagonistas dos fatos. Por exemplo, não se deve entender a democracia contemporânea, nos seus aspectos marginais (como o modo de tomada das decisões, mais antigamente entendido como “democracia direta”, fundada por Clístenes) como a condição predominante nos dias mais recentes (até mesmo por questões como o atual tamanho das populações). E tal deve ter servido como o perfeito pretexto a passar nos pensamentos do coronel grego Geórgios Papadópoulos.

Conspirador nato, e chefe da Junta Militar Grega que derrubou a Monarquia em 1967, estabeleceu o chamado Regime dos Coronéis, que viria a dominar a política grega até 1974. Até lá, muitos acontecimentos se sucederam: tendo por mote o apoio irrestrito a qualquer organização que se opusesse a um suposto avanço marxista nos Balcãs, Papadópoulos a elas prestou apoio, bem como reprimiu, forte e diretamente, quaisquer movimentos oposicionistas que se insurgissem contra seu regime, que se valeu dos modernos conceitos vocabulares de democracia, em especial de democracia relativa, para sujar a própria essência da herança de Clístenes (ainda que os destituídos da chefia do Estado fossem monárquicos, que, como constituintes de uma forma de governo concessora de privilégios, são e seriam, sempre, diametralmente opostos ao marxismo).

Um ditador de vertente pessoal age em nome próprio para se manter no poder. Ditadores puramente ideológicos reprimem e matam em nome de suas doutrinas. Já homens como Papadópoulos, oriundos de países que se tornaram, merecidamente, os faróis da Civilização Ocidental, são movidos por ambas as razões, mas são invocam a segunda. Se, por um lado, usam a repressão a uma ideologia por eles considerada maléfica, justificando, assim, toda a perseguição aos que discordam de seus desígnios, por outro a própria derrubada da Monarquia traduz e delata seus mais pérfidos objetivos, pois, como dito, movimentos subversivos poderiam ser eliminados na sua raiz, já que o Rei Constantino II seria o mais interessado na não socialização, dado o caráter elitista constituinte de qualquer Monarquia.

Como se não bastasse a repressão em si, bem como o patrocínio estatal a organizações de extrema direita, Papadópoulos entrou em conflito contra a Turquia pela questão cipriota, num dos pontos mais relevantes da sua derrubada por  ntigos colaboradores, em 1974. Como dizia Maquiavel, “algumas pessoas odeiam a tirania porque não podem estabelecer a sua própria” e "a inteligência de um governante é medida pela escolha dos homens de que se cerca". Papadopoulos foi traído pelos antigos sustentadores da Junta, os “amigos” de sempre.

Papadópoulos, ao menos, era coerente e digno de assumir as consequências pessoais de suas atitudes. Recusou todas as espécies de anistia, graça ou indulto que lhe foram oferecidas, em troca da delação de demais que haviam concorrido nos mesmos crimes, e morreu esquecido na prisão no início da década de 1980. Era um golpista, um ditador, mas preferiu sofrer os desdobramentos. Diferentemente de outros, que num obscuro país sul-americano mostram seu lado covarde ao pedirem clemência.