Sobre Laval
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | HistóriaO conceito de honra varia de acordo com a formação de cada indivíduo. Mas, segundo muitos, pode ser enquadrado, nas hipóteses circunstanciais, em situações específicas que não ultrapassem os limites de valores dos próprios sistemas em que se insere. E este pode ter sido o caso do jurista e político francês Pierre Laval.
Quando a Segunda Guerra Mundial se iniciou, na Europa a Alemanha nazista atacou e ocupou a maior parte dos países do velho continente, sem declarar-lhes guerra formal. Eram ocupações de facto. No entanto, ao entrarem diretamente na guerra, os EUA foram confrontados com a primeira e única declaração de guerra, em si, feita por Hitler. Os EUA foram o único país fora do contexto Europa-Ásia a determinar o destino da Alemanha no pós-guerra, com a ocupação de parte do seu território. Os outros foram a URSS, o Reino Unido e a França.
Cabe afirmar que os ataques iniciais das Forças Armadas nazistas foram realizados por meio da blitzkrieg ("guerra-relâmpago"), uma espécie de organizada tática militar, em que o tempo dispendido para a ocupação do território alvejado, o volume de recursos perdidos e as baixas da potência ocupante eram mínimos. Por isso, a maior parte das nações que caíram sob o jugo de Hitler logo se rendeu, depois de uma parca resistência inicial. E a França não escapou a esse destino. Ali, foi instalado um governo colaboracionista na cidade termal de Vichy, sob o comando formal do marechal Philippe Pétain. Já a chamada "França livre", liderada pelo então general e futuro presidente, Charles de Gaulle, era o canal oficial da resistência desde suas bases, no Reino Unido.
Durante o governo colaboracionista, a França não abdicou da sua condição de república parlamentarista, cujo cargo de primeiro-ministro, por mais tempo e oportunidades, foi ocupado por Pierre Laval. Laval, desde o início do século XX, havia se mostrado notoriamente esquerdista, proclamando-se socialista pelos anos em que atuou como grande advogado, em causas envolvendo sindicatos. Mas, como os conceitos (e, decorrentemente, as ideologias) se amoldam às situações críticas em que se inserem, Laval tornou-se uma mutação política, sem abandonar as teses centrais que seguia e defendia, dentro da vasta amplitude que é o esquerdismo e dando vazão, por vezes, aos seus arroubos autoritários.
Laval era, assim, a presa fácil que a Alemanha nazista (ou "nacional-socialista") precisava para o cargo de primeiro-ministro, numa entidade política subserviente. Afinal, os alemães eram a potência ocupante (isto é, um país que adaptou os conceitos socialistas às suas supostas necessidades nacionais, e, portanto e no seu ver, às dos países-satélites conquistados) e induziriam, nos valores de Laval, a sua própria definição de socialismo, em tese de esquerda, embora, hoje, quase todos concordemos que o nazismo era, e é, uma ideologia direitista. Vale lembrar que Laval ainda desconhecia a existência do holocausto, e havia sido acusado de poucas deportações, sem noção de sua real dimensão.
Após o fim do governo colaboracionista, Laval foi julgado, junto a muitos de seus pares. Durante uma das falas da acusação, foi chamado de "corrupto", e por isso agrediu fisicamente um dos acusadores, afirmando que admitia ser chamado de traidor, de colaboracionista, de nazista e outros deploráveis impropérios, mas jamais de corrupto.
Vejam, aqui, como o conceito de honra se adaptou e subsistiu, embora enquadrado num sistema execrável como o nazismo (ou "nacional-socialismo"), pois Laval julgava, diante das circunstâncias, que as democracias ocidentais eram nocivas, de modo que a ele aderir apresentava-se como uma solução menos pior, sendo tal escolha por convicção íntima e nunca por corrupção, o que, no seu entender, a valoraria.
Foi executado, por fuzilamento, aos sessenta e dois anos de idade.