Sobre Kafka
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | HistóriaMuitos dos maiores eruditos da história tiveram vida curta. Talvez pela melancolia, expressa nas suas obras, tenham ido cedo demais. Deste destino não escaparam, por exemplo, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. E do mesmo não se alforriou, embora fosse menos poeta que romancista, Franz Kafka.
Nascido em 1883 na belíssima Praga, então cidade do Império Austro-Húngaro, Franz Kafka cresceu como judeu ashkenaki. Tal identidade religiosa, étnica, e, portanto, pessoal, fez com que fosse mais adepto ao convívio de seus iguais fluentes em tcheco e alemão (Kafka, também, era esplêndido em ambas as línguas), na repetição de um padrão comportamental típico dos indivíduos portadores daquela mesma cultura, que, no intuito de se autoafirmarem, mantinham contatos restritamente idênticos, e dentro dos círculos linguísticos. Podemos crer, e ainda sabendo ser uma das mais marcantes características do Império Austro-Húngaro a sua enorme diversidade, ser referido comportamento uma forma de dificultar os constantes pogroms, por meio de um paradoxal poliglotismo, destinado a confundir potenciais e eventuais captores.
O acima descrito pode ser uma das pistas a entendermos o aspecto sombrio de dois de seus maiores livros, que, anteriormente ao seu precoce ocaso, em 1924, não concluiu, mas um grande amigo felizmente publicou: “A Metamorfose” e “O Processo”. É óbvio que a obra de Kafka não aí se esgota, mas esses são os principais romances reveladores de um íntimo e assustador universo, decorrente do mundo opressor com o qual sempre coexistiu. Kafka foi obrigado a suportar o flagelo da discriminação na sua própria sociedade, com o qual ele e seus iguais tiveram de interagir. E, no fundo, os livros a que me refiro refletem dita angústia.
Em “A Metamorfose”, o pacato Gregor Samsa se vê, subitamente, transformado em um inseto. O livro é uma verdadeira metáfora sobre o estigma ao qual todos os, realmente, rejeitados socialmente (como o eram Kafka e a minoria religiosa e étnica a que pertencia) têm de carregar, com ênfase numa indesejada mudança de comportamento, a fim de evitar a obliteração total. Com narrativa forte e um suspense diabólico, reflete o que sente, em um nível bem maior de incerteza a despeito do porvir, o outrora homem comum, lidando com a mais repulsiva de todas as (im)possibilidades, que é a sua repentina degradação física, e, por conseguinte, moral, consistente na própria privação do que o escritor franco-argelino Albert Camus chamou de “o absurdo da condição humana” (ou seja, nada mais que o chamado, pela cultura japonesa, de “fragilidade da vida”, pois, na situação de Gregor Samsa, pode-se dizer, devido à mutação, que é “o absurdo da condição inumana”, fazendo-nos concluir, como homens e mulheres, não ser necessária uma “condição inumana”, como a de Samsa, para nos levar ao mais iníquo de todos os destinos, mormente as minorias, mas, infelizmente, apenas atos “puramente humanos”, já que nossa natureza é, como dizia Maquiavel, cruel e maléfica).
E é sobre um Estado totalitário que discorre a leitura de “O Processo”. O volume narra a saga de Joseph K. Nada mais é que a descrição dos sacrifícios, meandros e torturas burocráticas que a figura central deve percorrer para se defender de uma infração de cuja tipificação, sequer, tem noção. Angustiante. Absolutamente, de prender a respiração. Como são angustiantes e de prender a respiração os dramas de Gregor Samsa, e, no péssimo sentido, das minorias que devem enfrentar processos forjados por Estados criminosos, simplesmente por serem quem são.
Kafka era um gênio. Um verdadeiro conhecedor da infame personalidade humana.