Ao longo de muitos séculos, o sal funcionou como moeda de troca, isto é, de pagamento de bens e serviços, qual valor precioso que comandava as relações comerciais entre pessoas, porque já então se lhe reconhecia, também, uma caraterística muito importante e indispensável, para o tempero das refeições (também designado por cloreto de sódio).

«O sal era, até ao início do século XX, um importante conservante alimentar. A tal ponto chegava a sua importância, que foi até mesmo usado como forma de pagamento no período romano, sendo esta a origem da palavra "salário". Por este motivo as explorações de sal chegaram a ter valor estratégico, inclusive tendo sido criadas vilas fortificadas para defender as salinas.

Historicamente a exploração de sal se realizava em salinas das zonas costeiras e dos mananciais de água salgada (que atravessam depósitos de sal no subsolo). Mais modernamente, os depósitos subterrâneos passaram a ser explorados através de minas, com isto as salinas de manancial foram perdendo importância e sendo abandonadas durante o século XX.» (in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sal_de_cozinha#Hist%C3%B3ria )

O Sal continua, nestes tempos modernos a desempenhar um papel importantíssimo nos “temperos”, porém, em quantidades moderadas, sob pena de prejudicar a saúde individual e, por efeitos da cultura nacional, também a da população, de resto, sabe-se que em Portugal, se abusa deste sal.

Mas o SAL, a que o título desta reflexão se refere, e que está codificado numa sigla é, também, essencial à vida, porque sem a aplicação dos ingredientes que contém, a felicidade fica bem longe de cada pessoa, a relação entre os seres humanos depende, quase que exclusivamente, da combinação dos elementos que compõem este SAL maravilhoso.

A sociedade: cada vez mais consumista, (para quem pode, obviamente); mais materialista; nem sempre dá importância a certos constituintes que enriquecem a relação humana; que consolidam valores essenciais à vida da pessoa verdadeiramente afável, que contribuem decisivamente para a felicidade, qualquer que seja o conceito deste supremo valor, pelo qual se luta incansavelmente.

O SAL, que aqui é trazido à reflexão, tal como outros elementos das diversas dimensões humanas, é um conjunto de valores, diga-se que, um primeiro tripé que, a par de outros: ajuda à realização axiológica da pessoa profundamente sensível; à relação sadia, alegre e assertiva de cada um em particular e de todos os seres humanos em geral, de tal forma que, no conjunto, se alcança a dignidade da pessoa.

É impossível conseguir qualquer forma de satisfação, ao nível da realização humana mais elevada, sem que estejam devidamente assumidos, praticados e consolidados os ingredientes deste SAL da vida, porque se trata de um SAL muito especial: que não está à venda em nenhum estabelecimento comercial; que não se negoceia e que, pelo contrário: ou se luta por ele e se aprimora e se entrega ao outro, nosso semelhante; ou nunca o viremos a possuir e a gozar dele.

O SAL a que se refere esta breve reflexão é composto por três elementos essenciais, insubstituíveis, invendíveis, para quem se quer muito bem, para quem deseja lutar por uma vida muito mais feliz, mais digna, mais elevada. Este SAL é a sigla de: “S” de Solidariedade; “A” de Amizade e “L” de Lealdade. Repare-se que a Amizade fica protegida, justamente no meio, dos outros dois grandes valores – Solidariedade e Lealdade -, que só no ser humano se concretizam (ou não) conscientemente.

É já um lugar-comum, porém, infelizmente, com uma grande dose de verdade, dizer-se que se vive uma crise de valores, mais acentuada do que qualquer outra crise económica e/ou financeira ou, ainda, de outra natureza. Muitas pessoas estão subalternizando valores próprios da dignidade humana, do relacionamento puro entre elas, colocando, em primeiro lugar, outros interesses, situações e objetivos.

Este SAL da vida digna, próprio de quem se deseja ser pessoa de bem, começa a ser trocado, traído, ridicularizado, fortemente desvalorizado, para se atingirem fins menos consentâneos com a dignidade da pessoa virtuosa.

Por vezes, entregamos: com entusiasmo, com sinceridade e esperança, os ingredientes deste maravilhoso SAL, a pessoas em quem confiamos, a quem desejamos o melhor do mundo, mas nem sempre somos reconhecidos e, muito menos ainda, retribuídos por tais pessoas, porque estas, entretanto, optaram por outros valores, por outras pessoas, com atitudes e comportamentos casuísticos que, materialmente, até lhes são úteis, num dado período das suas vidas.

É bem provável que tais pessoas, que traíram aqueles que tudo lhes confiaram, um dia se sintam arrependidas (o que é um bom sentimento), que se autocondenem pela deslealdade que assumiram, pela negação da solidariedade a que, em boa consciência, e como pessoas de bem, estariam moral e eticamente, obrigadas, ou, pelo menos, gratas.

Por outro lado, a infelicidade, mais tarde ou mais cedo, poderá bater-lhes à “porta” e, aquelas pessoas a quem se tenham aliado, por meros interesses materialistas e casuísticos, já não estejam disponíveis para continuarem a ajudar, até porque, entretanto, aperceberam-se do oportunismo e do calculismo que comandou a aproximação daquelas, as atitudes e comportamentos “afáveis”.

As máscaras vão caindo, os vernizes estalando, e, no final, vão estar aquelas pessoas que ofereceram, justamente, o SAL da vida digna, com solidariedade, amizade e lealdade. Temos de preservar este SAL, de quem é verdadeiramente nossa/o amiga/o e a estas pessoas não temos o direito de as enganar, porque de contrário, nem de nós próprios seremos dignos e perderemos todo o respeito, toda a nobreza que nos é devida, enquanto pessoas verdadeiramente humanas, de sentimentos puros, inegociáveis, intocáveis, supremos.

 

Venade/Caminha – Portugal, 2020

 

Com o protesto da minha perene GRATIDÃO

 

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

 

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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