Sagas e Baladas do Medievo

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | História

A arte é uma de nossas maiores companheiras. Quando é historicamente titulada, ganha contornos verdadeiramente místicos. E disso não escapam as sagas e baladas.

As sagas eram verdadeiras jornadas, impressas no papel por todo o imaginário de gerações nascidas na Islândia. Surgindo com o intelecto dos primeiros colonizadores da ilha nórdica, lá foram levadas, por eles, quando de sua conquista, estimulada pelo voluntário advento do cristianismo islandês, por volta do ano 870 d.C. Sempre escritas em prosa (não obstante haver poemas intercalados), as sagas configuraram a verdadeira literatura medieval islandesa, narrando heróis nos mais diversos caldeirões e contextos da realidade objetiva, imaginária, religião e mitologia.

Expressas no antigo idioma nórdico, podiam ser relativas a reis, importantes famílias islandesas (que são chamadas “sagas de islandeses”), santos e bispos (muito provavelmente da Baixa Idade Média, eis que o cristianismo, como dito, por lá chegou em cerca de 870 d.C., pouco mais de cem anos antes do Alto Medievo), bem como outras personagens. Naqueles documentos, produzidos por centenas de anos, verifica-se uma linguagem impessoal e sacrificante, probatório dos sentidos de seus autores, e, assim, das condições climáticas extremas em que se encontrava, ao menos, aquela ilha no alvorecer do último milênio. Não é sem razão, portanto, que na linguagem ocidental moderna o vocábulo “saga” tenha uma conotação de extremo sacrifício,documentalmente exposto pelos islandeses nas entrelinhas. Prosa medieval, algo que deveria ser, absolutamente, mais difundido.

Já por volta dos séculos XI e XIII tivemos, na Europa continental, mais especificamente na França, as baladas. Podendo ser comparadas aos atuais concertos, eram, em grande parte, composições declamadas por um dentre três indivíduos, que tinha a incumbência de cantarolar o seu conteúdo. Tivemos em Guillaume de Machault o mais extraordinário exemplo, de baladeiro, da Alta Idade Média. Como, naquele período, a arte clerical era o mais robusto elemento a ser divino, nas notórias catedrais com coloridos vitrais denotadores da presença de Deus (especialmente aos servos, comerciantes, e, também, fugitivos do próprio sistema feudal, em cujos territórios, ironicamente, se encontravam), pode-se afirmar que as baladas poderiam, na sua sonoridade, rivalizar aos gênios arquitetônicos religiosos, na imaginação coletiva popularizadora dum mundo ideal, e, assim, inexistente. É a isto que as baladas levavam seus ouvintes, ao revés das sagas, intrínsecas na sua melancolia de heróis e mitos, mas não por isso menos expositivas e belas. Não é sem razão e desta forma, que pessoas como Frédéric Chopin, Franz Liszt e outros viessem, posteriormente, a dar contornos de medievalismo baladeiros às suas carreiras, com a inserção de ritmos igualmente acústicos.

Arte é vida. História é vida. É esta a impressão que desejo, sincera e cordialmente, a vós sempre transmitir.