Emanuel Isaque Cordeiro da Silva 
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Resolução das questões: Cultura: Temas Contemporâneos da Antropologia 


1) Escreva sobre a crítica da autoridade etnográfica segundo os autores pós-modernos em Antropologia.


Resposta: Para os pós-modernos, a produção do texto antropológico envolve sempre uma descrição e uma narração sobre o Outro que, em geral, não dá voz a ele. É o antropólogo que fala por ele. Esse processo é visto como autoritário pelos pós-modernos, pois não permite contestação e é feito nos termos do antropólogo e não nos termos do Outro. Isso resulta no que os pós-modernos chamam de “autoridade etnográfica”.


2) Qual a discussão das antropólogas feministas sobre a noção de gênero?


Resposta: A noção de gênero aparece para superar as dificuldades que a naturalização da diferença entre homem e mulher (em termos biológicos) impõe. Gênero é definido socialmente de formas variadas em sociedades diferentes. O que é o homem e o que deve fazer um homem varia de sociedade para sociedade, assim como o que é a mulher e outras categorias de gênero (homossexuais, travestis, transgêneros, etc.). Se os papéis de homens e mulheres variam, não há uma relação entre sexo e gênero que seja natural. Gênero é sempre algo construído e pode, portanto, ser alterado, reformulando-se os papéis atribuídos.


3) Por que a contribuição de Marshall Sahlins é relevante para pensar a História?


Resposta: Os antropólogos culturalistas estadunidenses desenvolveram o conceito de cultura, mas não levaram esse desenvolvimento para a noção de história. Continuavam a pensar que o tempo passa e é visto e sentido da mesma forma em todos os lugares (como se fosse universal). Sahlins demonstra que a percepção do tempo e a forma de pensar a história também são condicionados culturalmente, e variam bastante. Ou seja, cada cultura se apropria do tempo à sua maneira e o antropólogo deve sempre levar isso em consideração.


4) Qual a contribuição de Roy Wagner para a Antropologia contemporânea?


Resposta: Roy Wagner desenvolveu a ideia de “invenção da cultura” que, à sua maneira, lida com a questão da autoridade etnográfica levantada pelos pós-modernos. Para Wagner, a cultura é um processo de invenção (no sentido de criação) constante de todas as pessoas, o que produz um fluxo de transformações e estabilizações temporárias. Tanto o antropólogo como o nativo inventam cultura. Desse modo, o encontro etnográfico só pode ser pensado como uma invenção particular decorrente da vontade de conhecer mais a vida do nativo. Esse encontro deve colocar os conceitos nativos no mesmo patamar dos conceitos do antropólogo. Isso possibilita entender a invenção e evitar a supressão da voz do nativo, o que ocorre quando o antropólogo escreve e usa apenas seus conceitos para descrevê-lo.


5) Quais as implicações da crítica ao dualismo natureza/cultura?


Resposta: A crítica desse dualismo, feita por Latour, Strathern, Descola e outros, implica em pensar que nem todas as sociedades dividem o mundo em uma parte humana (cultura) e outra parte exterior (natureza). Isso permite tanto um olhar crítico para a ciência, baseada nesses princípios, como entender outras formas de pensar o mundo sem reduzi-las à distinção natureza/cultura. Permite entender, por exemplo, que os indígenas da Amazônia têm uma visão de mundo oposta àquela que ensinava a velha Antropologia: para eles, todos os seres têm cultura, mas naturezas diferentes.


6) Considere os trechos das canções a seguir. (Tempo perdido de Renato Russo e Oração ao tempo de Caetano Veloso). (BAIXE O PDF PARA VISUALIZAR AS LETRAS DAS CANÇÕES).


As duas canções falam do tempo, mas de diferentes pontos de vista. Compare esses pontos de vista com base no que vimos neste capítulo.


Resposta: A letra da canção da Legião Urbana enfatiza a ideia de um tempo linear, que pode ser perdido, deixado para trás. Não se tem mais o tempo que passou. Porém, em outro momento afirma que “temos nosso próprio tempo”, indicando que talvez essa noção de tempo seja diferente da dos demais, aqui falando especialmente do tempo segundo a percepção da juventude (afinal, “somos tão jovens”). Já para Caetano Veloso, na Oração ao tempo, ele “parece contínuo”. É possível, entretanto, sair “do teu “círculo”. Ou seja, escapar do tempo, que parece contínuo e se reencontrar com ele “num outro nível de vínculo”. As duas canções revelam uma percepção de tempo linear, própria da sociedade capitalista, mas também levantam uma suspeita sobre essa linearidade: Caetano Veloso vê o tempo como um círculo; a Legião Urbana, como um tempo próprio e diferente para a juventude. Podemos relacionar essas reflexões com a discussão de Sahlins sobre a variação da percepção da história conforme as culturas. Sahlins imagina diferentes percepções do tempo e essas canções parecem conver-gir para a mesma conclusão.


7) Observe este cartum, de 2007, criado pelo norte-americano Scott Hilburn: (BAIXE O PDF PARA VISUALIZAR O CARTUM).


Essa imagem pode ser relacionada às discussões contemporâneas de uma Antropologia “pós-social”, “reversa” ou “simétrica”. Explique essa relação.


Resposta: Nesse cartum de Scott Hilburn vemos uma alternância radical de pontos de vista: o urso se senta diante do balcão como um humano e, como um humano, usa um chapéu com um traseiro animal. Só que o traseiro animal usado pelo urso é um traseiro humano! Ou seja, temos aqui uma inversão radical de perspectivas. A imagem sugere uma ruptura com nossas divisões entre natureza e cultura ao produzir essa estranha associação. Podemos relacioná-la, assim, às críticas aos “grandes divisores”, produzidas pela Antropologia contemporânea. Nesse caso, a imagem é especialmente relacionável às etnografias sobre os ameríndios amazônicos, analisados por Eduardo Viveiros de Castro, pois representa uma inversão de perspectivas: o urso aparece como humano e o chapéu do urso é como o chapéu de traseiros de raposa dos humanos, mas é feito de um traseiro humano.


8) Considere este poema do paranaense Paulo Leminski (1944-1989): (BAIXE O PDF PARA VISUALIZAR O POEMA).


Relacione esse poema com os textos sobre a Antropologia contemporânea discutidos nos itens 4 e 5 deste capítulo.


Resposta: Podemos pensar o encontro etnográfico (a experiência do trabalho de campo) como uma experiência semelhante ao poema de Paulo Leminski. O poeta evoca a ambiguidade da viagem e a transformação que ela causa tanto na ida como na volta. A essa ambiguidade podemos relacionar a ideia de “invenção” de Roy Wagner, segundo a qual o encontro etnográfico produz outra realidade, que altera a perspectiva do antropólogo (ou deveria alterar).

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Emanuel Isaque Cordeiro da Silva

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