Reformadores do Hinduísmo

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | História

A religião é uma das forças motrizes da humanidade. Junto à ideologia, caracterizada pela determinação da titularidade dos meios de produção e-ou consequente administração da entidade, privada ou pública, captadora da unidade facilitadora de troca, torna-se o maior dos propulsores do movimento humano. E assim era com a civilização védica.

Surgida há dezenas de séculos (a data exata é alvo de diversas controvérsias) no subcontinente indiano, suas escrituras sagradas eram, e ainda são, os vedas. Estes, somados às literaturas próprias, como o poema épico "Mahabharata" (que possui cerca de 250 mil versos, estando, nele, inserido o "Bhagavad Gita") e o "Ramáiana", tornaram a civilização védica ainda mais misteriosa aos seus próprios integrantes, vez que a interpretação da palavra sagrada, pelos sacerdotes, depende de qual parte do cânon fora internalizada pelos intérpretes. Afinal, tão vasta obra intelectual, narrada, em grande parte, como expressão de diálogos sagrados ou contos de batalhas entre principados, soma centenas de deuses e demais entidades metafísicas ao respectivo panteão, num padrão que mescla a própria civilização védica com os dezesseis grandes reinos da Índia, passando pelo sistema de castas e alcançando, até mesmo, a Civilização Máuria, numa complexa teia social cuja primeira influência externa somente se deu, provavelmente, com o Imperador Aquemênida Dario I, bem antes de Cristo.

Tendo em vista tão complexa filosofia, geradora de ramos num todo genericamente nomeado, pelos ocidentais, de “hinduísmo”, no século VIII se dedicou à compilação dos seus ensinamentos, culminante em uma interpretação única, o grande reformador hindu Shankara (cujo nome, na sua mais edificante morfologia, significa “impressão mental”, não devendo o leitor confundi-lo com Thomas Sankara, líder de Burkina Fasso ascendido ao poder em 1983, e, posteriormente, morto a mando da França em 1987).

Já no século XIX, surgiu na Índia outro reformador, Saraswati, que, independentemente da obra de Sankhara, promoveu um fortalecimento dos vedas, individualmente considerados se confrontados à genérica literatura hindu, em simultâneo à rejeição de quaisquer idolatrias, e ao sistema de castas, tendo sido bastante entusiástico a uma maior participação das mulheres na vida social. 

Por fim, culmina-se, no século XX, com o aparecimento de Mohandas Gandhi, líder da resistência pacífica da Índia contra a administração colonial britânica, e assassinado por um nacionalista no final da década de 1940.

A história é economia. A história é política. A história é religião. A história é filosofia, e, infelizmente, também violência. Por isso, convido-vos, todos, a ela enxergar com um misto de interesse, compreensão e resignada fascinação.