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Reescrevendo a História da Maconha

INTRODUÇÃO: 

" O proibicionismo no Brasil levou ao apagamento histórico" 

Mariana German 

"Maconha em pito faz negro sem vergonha" 

Dito comum no Brasil, em 1830 

" A erva - conhecida por nós como Cannabis sativa ou Maconha - tem hoje seu cultivo e consumo Proibidos no Brasil. Sua legalização, em um momento singular de nossa história recente, vem sendo discutida em diversos meios de comunicação, entre juristas e médicos, políticos e eleitores, usuários, pacientes de câncer e outras doenças que se beneficiam das qualidades da planta, entre outros. É um tema, enfim, que está presente e cuja discussão é importante e extremamente relevante para todos" 

Jorge Emanuel Luz de Souza (1) 

 

Trata-se de revisão bibliográfica, sobre publicações lançadas em território nacional. Partindo da fala da Mariana, é preciso reescrever a história da Maconha. Reconhecendo seu nome, sua importância e colocá-la como protagonista de sua própria história. Baseada em fatos, de forma a desmistificar e mostrar o outro lado desta planta considerada proscrita, tida como a raiz de todos os males.  Do surgimento da espécie, seu percorrer pelo mundo, chegada ao Brasil. Criminalização. 

DESENVOLVIMENTO: 

A maconha é uma planta milenar. Há cerca de 27.000 a.C. encontrou-se indícios de utilização na região onde se encontra o Afeganistão.  

Foi uma das primeiras plantas que o homem domesticou. Sua evolução conta com 60 milhões de anos. Foram feitos testes genéticos em comparação com grupos relacionados de plantas como a Moraceae, a família das amoreiras. Devido a sua rusticidade e capacidade de adaptação, foi plantada pelo homem e pássaros ajudavam na dispersão das sementes, e nas migrações a espalhavam por países diversos.   

Conforme Chris Bennet (3) em seu artigo escrito no 'O Livro da Maconha', a Cannabis teve papel múltiplo no mundo antigo. As pessoas usavam-na como alimento, como fibra para tecelagem, remédio e como sacramento religioso, por possuir poderes mágicos. As primeiras evidências do uso sacramental da maconha foram apontadas por Anfrew Sherrat, arqueólogo da Universidade de Oxford, em formato de incensos, em um túmulo de um grupo conhecido como Proto-Indo-Europeus, os Kurgan, que ocuparam a Romênia há 5000 anos. A raiz da palavra Cannabis aparece na língua Indo-Européia, e com semelhanças nas línguas inglesa, alemã, latina, grega, persa e sânscrita.    

Na Índia, foi utilizada como medicamento na medicina ayuruvédica e em rituais espirituais. Contam que o Deus Shiva apreciava uma bebida feita com Cannabis, e seus seguidores tomavam essa mesma bebida (bhang) de forma a ficarem próximas a esse Deus. O Hinduísmo, diz que a Cannabis é mais que uma religião. Ela diz respeito a todo um universo cultural, também chamado de Sanatana Dharma, expressão em sânscrito que quer dizer a 'Lei Perpétua'. É considerada uma das cinco plantas sagradas - Atharva Veda - semeadas diretamente do céu para a terra. Reconhecida como uma fonte de felicidade, alegria, regozijo, libertação para que as pessoas possam se deleitar e acabar com os medos que as afrontam na vida. Tradição do hinduísmo, conhecida como fita quente, ter o hábito sagrado de oferecer uma tigela cheia de maconha para os adeptos da religião durante o festival Durga Puja (O festival Durga Puja marca a vitória da deusa Durga sobre o búfalo-demónio Mahishasura. Simbolizando a vitória do bem sobre o mal). O uso da maconha tinha ampla gama terapêutica, desde o tratamento de dor de cabeça, caspa, manias, insônia, enfermidades venéreas e tuberculose. Em 700 a. C. os Brâmanes utilizavam a maconha para meditação e concentração nos textos sagrados (RG Veda, Atharva Veda). 

Na China, há 4000 anos, foram encontrados manuscritos e relatos em livros de medicina tradicional chinesa o uso da Cannabis como remédio. A China antiga se referia ao seu país como a 'terra da amoreira e do cânhamo'. De acordo com pesquisas fitoterápicas, envolvendo genética e botânica, o primeiro registro do cultivo em solo chinês, data de 2800a.C, de acordo com um cesto de madeira a conter 789 gramas da erva junto à sepultura do xamã pertencente a cultura Gushi (Tumbas de Yanghai - próximo a Zurpan/China). Os primeiros registros sobre o uso da maconha com fins medicinais são atribuídos ao Imperador Shen-Neng, que prescrevia o chá de maconha para o tratamento da gota, reumatismo, malária e para memória fraca (2737 a.C.) no compêndio médico de Pen Ts'ao. Este imperador foi o responsável por determinar que a planta do sexo feminino, fonte rica em Yin, o remédio mais potente, e receitou chu-ma (canhamo feminino, em oposição a ma-canhamo - canhamo masculino, produtor de fibra). Shen-Nung, conhecido como o pai da medicina tradicional chinesa, ficou tão impressionado com os poderes da chu-ma, que a considerava como um dos Elixires  Superiores à Imortalidade. Os chineses continuaram a fazer uso da maconha e que em 200d.C. o cirurgião Hua T´o, que realizava operações complexas, como ressecção de intestinos, laparatomias e toractomias. Ele usava a maconha misturada com vinho e produzia um anestésico usado em seus pacientes.  Os antigos xamãs chineses esculpiam serpentes nos talos de cânhamo e produziam varinhas mágicas, usadas em cerimônias religiosas. Os Taoístas usavam a maconha misturada com o ginseng, e que monges necromantes conseguiam prever o futuro. 

O uso do cânhamo na fabricação de papel e tecido, também foi usado na construção civil. As velas e cordames dos imensos navios chineses, descritos por Gavin Menzies (2), em seu livro '1421 - O ano que a China descobriu o mundo' cujos 13 mastros mediam 55 metros de altura por 146 metros de comprimento. As naus gigantescas faziam as caravelas europeias parecer com casca de nozes.     

Por meio das rotas de comércio, a planta de alastrou por toda região da Mezo Europa, Oriente Médio e Norte da África. Ela circulou pelas rotas do bronze e rota da seda. Tradicionalmente a maconha foi plantada para produção de cânhamo (Cannabis de fibra), porém notou-se que algumas plantas produziam uma resina (psicoativa/medicinal/terapêutica). No Oriente Médio, acredita-se que chegou trazida por tribos caucasianas, oriundas do que hoje são as fronteiras da Rússia e China. Essas tribos, chamadas de Citas, que eram exímios cavaleiros, e que por essa característica se tornaram os maiores disseminadores dos conhecimentos sobre a Cannabis no mundo antigo. Eles a usavam na ritualística fúnebre, que foram descritas por Heródoto, onde após a morte de um rei, foram montadas várias tendas, cobertas por tapetes, onde se entrava para inalar a fumaça das sementes da maconha que eram lançadas sobre pedras quentes. Heródoto descreveu que os Citas chegavam a’ uivar de tanto prazer’. Em 1929, descobriu-se um túmulo Cita e no local haviam incensários usados para vaporizar a matéria vegetal da Cannabis sobre pedras aquecidas, semelhante ao narrado por Heródoto. 

Na Mesopotâmia, era usada com fins medicinais, óleos e incenso, pois o aroma agradava os Deuses. Faziam também loções tópicas. Uma tábua médica assiria da coleção do Louvre foi traduzida: 'Para que o Deus do homem e o homem estejam em bom relacionamento: - com heléboros, cannabis e lupino, você vai esfregá-lo 'e citado por Ethan RUSSO(4), em seu artigo publicado em 2007. Ele ainda relata que receitas de incenso muito antigas, foram encontradas na biblioteca cuneiforme do lendário Rei assírio Assurbanipal e registros que no tempo do pai, o rei Esarhaddon, refere-se a maconha como 'qunubu', um dos principais ingredientes dos ritos sagrados. A planta em óleo era usada para ungir o inchaço e também usada como unguento e no tratamento da 'doença da mão de Deus' (epilepsia), doenças do pulmão, problemas estomacais e de pele, para piolho e articulações inchadas.  

No Egito antigo, cultuava-se Seshat, deusa do conhecimento, que tem uma folha de maconha em cima da sua cabeça. Conhecida como ‘aquela que escreve’ protegia as bibliotecas, protetora dos livros e dos conhecimentos. Existem indícios de sua existência na Primeira Dinastia (2900 a. C.). Ela preside a “Casa da Vida’ onde todos os conhecimentos ancestrais egípcios eram guardados. Considerada patrona da arquitetura, é citada nos ‘Textos das Pirâmides’. A palavra ‘Shemshemet’ aparece nos papiros fazendo alusão a maconha, a medicina, ao uso medicinal. Os egípcios possuíam uma medicina muito avançada, porém acreditavam que as doenças eram causadas por forças malignas que entravam no corpo e que substâncias vegetais e animais as expulsavam. Existem relatos, no Papiro Ramesseum III (1750 a.C.) onde diversas patologias foram tratadas, tais como: glaucoma, doenças infantis, queimaduras causadas por vulcões e ajudando no parto. No Papiro Eber (1600a.C.), cita a ‘Shemshemet’ seja macerada com mel e usada para inflamações femininas. Também usado para combater inflamações de feridas abertas e unhas encravadas. Nos ritos fúnebres, a maconha também estava presente. Foram descobertos pólen de Cannabis na múmia de Ramsés, o Grande, que foi Faraó em 1213 a.C. Em outras múmias menos famosas, resquícios de THC foram encontrados nos pulmões, indicando a inalação da Cannabis ainda em vida. 

Há mais de um século, diversos pesquisadores citam a presença da Cannabis nas escrituras hebraicas. Exemplos são o 'favo de mel' mencionado no Cântico dos Cânticos de Salomão 5:1 e o 'melífero' em Samuel I 14:25-45. A pesquisadora em etimologia polonesa Sara Benetowa (5) afirmou, em 1975, que no texto encontram-se referencias ao canhamo, tanto como incenso, quanto como uma substância intoxicante. Fez um estudo comparativo com a tradução em aramaico. Relata que o cânhamo é referido como q'neh bosm (traduzido como keneh bosem, kaneh bosem) e a tradução em hebraico foi kannabos ou kannabus. A raiz kan significa cama ou cânhamo, enquanto bosm significa aromático, perfumado. Em Isaias, 43:24 - 'Não me compraste por dinheiro a doce cana,nem com a gordura dos teus pecados, e me cansaste com as tuas iniquidades'. Jeremias cita: ' em que sentido vem a mim incenso de Sabá e da doce cana de um país distante? Os teus holocaustos não são aceitáveis, nem os teus sacrifícios são doces pra mim (6:20). A unção de objetos sagrados era uma tradição muito antiga em Israel. Em Êxodo 30:22-25 Moisés foi instruído por Deus a ungir a Tenda do Encontro. Essa unção separou as coisas sagradas das coisas seculares. Todos os sacerdotes e reis hebreus foram ungidos com esse óleo, e que quando usado tornava essa pessoa 'escolhida', tal como o Messias. Essa prática foi banida na Idade das Trevas, com a ascenção do Catolicismo. Pesquisadores de etimologia da Universidade Hebraica de Jerusalém confirmaram que a tradução estava errada, e que a palavra cannabis é mencionada na Bíblia, pelo nome de kineboisin em uma lista para um óleo, um composto para uma pomada, e que a versão foi mal traduzida (6) como cálamo. Chris Bennet ainda relata que acompanhou a história do óleo sagrado da unção no início do Cristianismo, especificamente entre as seitas cristãs gnósticas heréticas, que com os cultos pagãos, 'foram brutalmente banidas no início da Idade das Trevas e ascensão do Catolicismo'. Nas escrituras cristãs, Jesus não batiza nenhum de seus discípulos, mas os envia para curar com o óleo da unção. Em Marcos 6:13 'Eles expulsaram muitos demônios e ungiram com óleo muitos doentes e curados'. Após a morte de Jesus, Tiago 5:14 diz 'Algum de vocês está doente? Ele deveria chamar os anciãos da igreja para orar sobre ele e ungi-lo com óleo, em nome do Senhor'. No Livro de Tomas, pertencente aos manuscritos do mar morto (Nag Hammadi) o óleo curava os aleijados 'Óleo santo dado a nós para santificação... tu és o alisador dos membros tortos'. Refere-se ao uso da pomada como sendo especificamente derivados de certa planta: 'Óleo sagrado, dado para santificação, mistério oculto em que a cruz nos foi mostrada, você é o desdobramento das partes ocultas. Você é o que humilha as ações teimosas. Você é a planta da bondade. Deixe seu poder vir por esta (unção)'. 

No Xintoísmo, religião japonesa, usava-se a cannabis para espantar maus espíritos e trazer mais proteção para a vida das pessoas. Pesquisadores dizem que noivas usavam feixos de cannabis nos casamentos, por que a planta demonstrava pureza. No Budismo, conta-se uma história onde Sidarta Gautama, antes de atingir a iluminação e se tornar Buda, passou cinco dias meditando e sua única alimentação foram sementes de cannabis. A planta era usada para melhorar a consciência em cerimônias e deixar as pessoas mais sensíveis. No Taoísmo, a utilização da cannabis destinava-se a proporcionar maior equilíbrio entre todas as coisas presentes no universo, conhecido pelo símbolo Yin e Yang . No Rastafári, segundo o pesquisador Wagner Alves (7) em seu artigo 'Rastas, ganja e resistência na Jamaica’ que mostra resultados da pesquisa realizada, onde a maconha tem um papel agregador entre os Rastafáris. Que a religião é um misto de tradições africanas, ritos hindus e protestantes e também o judaísmo. A cannabis aumenta a consciência, proporcionando maior prazer e bem estar, além de eliminar as energias negativas e enfrentar os problemas do dia-a-dia. Aproxima o homem de Jah e é uma forma de iluminar a mente para compreender as profundezas da vida. Santa Maria surgiu na década de setenta. Maria Rosa surgiu na América, no início do século XX, era fumada em rituais sagrados pelas tribos Mexicanas - Tepehua. A Rosa Maria era usada pelos Otomis orientais de Hidalgo e os tepecanos do nordeste do México. Era usada em rituais, substituindo o peiote. Edward Mac Era (7) cita em seu artigo 'Cannabis, Racismo e Espiritualidade, que o Toloache era utilizado em rituais, porém, os efeitos eram muito fortes, e por causa disso adotaram a cannabis em substituição. Os indígenas Tepehuas também a utilizavam em seus rituais. Adotaram o mesmo nome, Santa Rosa, e também substituíram o toloache porque ele era muito intoxicante. Ainda hoje é encontrada nas terras altas de Tulancingo. Grupos indígenas do Panamá e México a consideram 'intercessora junto à Virgem'. A pesquisadora Lourdes Baez Cubero (7) relata em seu artigo ' A "Santa Rosa" e o "dom de ver" entre os otomis, orientais de Hidalgo relata que os evangelizadores encaravam esses rituais como conversas com o demônio e que muitos pereceram no Tribunal da Santa Inquisição. Destino semelhante às mulheres curandeiras européias que sabiam do potencial da maconha e por fazer uso na cura de doentes, foram condenadas a fogueira. Esse medo fez com que os indígenas fizessem seus rituais escondidos, resguardando também as plantas que usavam nos transes. A pesquisadora relata que a cannabis foi introduzida pelos colonizadores. A planta era nomeada como 'a flor das almas dos ancestrais'. Os xamãs a mastigavam e desse jeito a divindade entrava no corpo. Os otomis a consideravam homem e mulher, assim como as outras entidades extra-humanas do panteão nativo. Entre as suas virtudes, está o seu poder prodigioso de dar visões aos homens de conhecimento, fazendo-os “ver” e ensinando-os a “verdade”. Essa planta sagrada, além de se fazer presente quando ingerida, surge também nos sonhos dos badi, para anunciar algo importante ou instruí-los sobre o que devem fazer. Cabe ressaltar que o uso da Santa Maria era restrito aos Xamãs que dominavam a prática, se tornando uma prática restrita, pois encaravam isso como 'dom'. Esse “dom de ver” não só se referem a um conhecimento do “outro” mundo, como também ao modo de interagir com as entidades que lá habitam, de modo a lidar com os desequilíbrios que afetam homens e que são resultado de suas vidas nesse mundo. Os rituais eram feitos para chamar chuva, para curar enfermos, e estando em posse do 'advogado que cura' esse ancestral assume o papel de dirigente no ritual acessando eventos do passado ou do futuro. Relata que não existe um modelo de transe. Após a incorporação o ancestral guia o xamã nos rituais de limpeza e cura. A Santa Maria é o elo entre o terreno e o espiritual. Os xamãs podem comunicar-se com os mortos e engajar comunicação com os parentes vivos.  

A Cannabis também é usada nos Catimbós (religião que mescla o culto africano e religiões indígenas praticada no Brasil) Os indígenas usam a jurema e os africanos usam a cannabis. A utilização da erva também foi presente nos rituais de 'dirijo'. Após a proibição da cannabis, os indígenas passaram a fazer uso de cachaça neste ritual, e isso causou a degeneração de muitas aldeias. 

Sergio Augusto Domingues (7) relata que visitou os krahô desde o início dos anos 1980, quando trabalhou como indigenista e antropólogo, objetivando pesquisar sobre ‘a filosofia do viver' desta etnia. E que eles faziam uso do 'cigarro do segredo', que nada mais era do que a maconha. Que a etnia plantava a cannabis e a usava para fins medicamentosos, recreação e ritos religiosos. 

No Brasil, segundo Elisaldo Carlini (8) em seu artigo diz que a maconha não é uma planta originária. Foi trazida pelos escravos africanos, daí o nome de 'Fumo de Angola'. Mas a relação com o Brasil antecede a isso, pois as velas, os cordames e as roupas dos marinheiros das caravelas portuguesas eram feitos de cânhamo. Os portugueses chamavam a maconha pelo nome de bangue. Sabiam que os escravos portavam sementes dentro de bonecas feitas de tecido, que amarravam em suas roupas. A Coroa Portuguesa não se importava com isso, muito pelo contrário. No século XVIII incentivaram a cultura da Cannabis (almejando lucros com a produção do cânhamo), chegando inclusive a implantar em 1783, a Real Feitoria do Linho Cânhamo no Rio Grande do Sul. Esta feitoria chegou a contar com 1300 escravos. O investimento foi muito alto, e a  Coroa financiou não só a introdução, mas também a adaptação climática da espécie em Hortos de estados como o Pará, Amazônia, Maranhão, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Bahia (9).   

Segundo Gilberto Freire, em seu livro 'Casa Grande e Senzala', o tabaco era usado pela aristocracia, e a Cannabis pelos escravos. Eles possuíam uma visão tolerante e aceitavam o uso pelos cativos. “Falavam que era ‘Fumo de negro”. Segundo ele, era muito comum encontrar manchas escuras de tabaco ou maconha entre o verde-claro dos canaviais. Do Brasil surge a primeira restrição do uso da maconha, em 1830, penalizando quem vendia o 'pito de pango', quem comprava e quem usava, com multa e detenção. Vem daí o dito: 'maconha em pito faz negro sem vergonha'.  

Jorge Emanuel Luz de Souza (1) em sua tese aponta: "A criminalização no Brasil, iniciada em 1921 com o Decreto n.˚ 4.294, que se ocupou apenas da cocaína, do ópio e da morfina, tem seu desdobramento mais amplo em 1938, com o Decreto-Lei n.˚ 891, intitulado Lei de Fiscalização de Entorpecentes. Seu raio de ação foi estendido a dezenove substâncias, entre elas a maconha, que já havia sido inserida na lista oficial proibitiva do Decreto n.˚ 20.930 em 1932. A transformação da maconha em “problema público” foi precedida da sua transformação em “problema médico”. Mas quase duas décadas separaram uma e outra forma de construção do “problema”. Ele ainda aponta as legislações que foram publicadas com o decorrer dos anos, como o Decreto n.˚ 4.294 de 6 de julho de 1921. Este definia as drogas como “substâncias venenosas”, a mesma nomenclatura empregada pelo Código Penal de 1890. A partir de então, a cocaína, o ópio e um dos seus derivados, a morfina, só poderiam ser vendidos, expostos ou ministrados com “legítima autorização” de acordo com as “formalidades prescritas nos regulamentos sanitários”.  

Com isso se buscava controlar pela via jurídica e médica a circulação e o consumo dessas substâncias. A partir de então se criava um novo tipo de crime, o “uso ilícito” das drogas. Criava-se também um novo tipo de criminoso: o indivíduo que vendesse, guardasse ou usasse as “substâncias venenosas” sem autorização médica. Esse último era reconhecido pelo termo “intoxicado”, um misto de doente e criminoso, sendo o equivalente jurídico do “toxicômano” dos médicos. 

Entretanto, mesmo tendo sido a maconha um dos primeiros objetos da investida médica contra as drogas ambos os Decretos não dispõem sobre ela, apenas sobre o ópio, a morfina e a cocaína. Essas eram, em geral, as drogas das elites, consumidas em meetings, bailes, cabarés e cafés por intelectuais, moços e moças abastados e artistas, constituindo-se em parte fundamental de um modo de vida inspirado nas metrópoles europeias, sobretudo Paris. Eram vendidas livremente nas farmácias, com propagandas s em jornais e receitadas por médicos aos seus pacientes. 

A Era Vargas, conduziu novos grupos sociais ao poder, dotados de novos interesses, objetivos e projetos para a nação. Mas isso não mudou a questão proibicionista em relação à Cannabis. 

Em relação às mulheres, o autor pontua que estas se usavam a maconha nos quartos de bordéis, e que através dela, os moços elegantes acabariam levando o vício da diamba para suas residências, ‘contaminando’ suas famílias. No início da República, essas moças eram associadas com a boemia e sexo desviante, tornando-se alvo de intervenções do poder público. Porém, por outro lado, eram desejadas e procuradas, se tornando parte fundamental de ‘um estilo de vida burguês e nos ritos de iniciação sexual dos rapazes’. 

Conforme a pesquisa de Luisa Saad(10), antes da proibição pouco se falava da maconha. Após a proibição, fontes numerosas surgiram. A erva era consumida e isso não afetava a sociedade como um todo. Relata que a repetição exaustiva da origem africana da planta, e o consumo sempre associado aos negros e seus descendentes, representavam atraso e degeneração. Sempre voltado ao grupo e não a substância em si. O medo que a maconha atingisse as outras camadas da sociedade tornava o consumo livre ameaçador. Aliado a isso, estudos proibitivos de Rodrigues Dória, que enxergava os negros com racismo, os considerando seres inferiores, e ele usou esses mesmos textos para os debates que levaram a proibição da maconha. A referencia no uso da maconha nas 'festas africanas' era constante nos textos dos que faziam campanha contra a erva. Utilizada em rituais sagrados desde tempos remotos no continente africano, em regiões que abasteceram o tráfico de escravos ao Brasil, a planta não perdeu o caráter ritualístico, porém a sociedade buscava a todo custo associá-la ao Candomblé e proibir os dois de uma vez, pois a planta e a religião andavam juntas no cenário de condenação ao curandeirismo, a feitiçaria, a bruxaria e a magia negra. Curandeiros ameaçavam os médicos oficialmente diplomados e a maconha era uma afronta para os remédios farmacologicamente aprovados.  Fora isso, existia a idéia que a capital brasileira tinha que servir de modelo, e desta forma a população pobre que vivia nos centros urbanos passaram e ser perseguidas, tiveram suas casas e cortiços destruídos, passaram assim dos centros para as margens da cidade, formando as primeiras favelas. Em 1924, o Brasil contribuiu negativamente ao afirmar na Liga das Nações, que a maconha matava mais que o ópio.  

No mundo, a partir de 1909 diversas convenções foram feitas objetivando a restrição/proibição de substâncias tidas como 'drogas'. Em Xangai, neste mesmo ano, discutiu-se a proibição do Ópio. Outras se seguiram em 1961(que reconheceu a toxicomia com um grande mal para o individuo e um perigo social e econômico para a sociedade) 1971 (que reconheceu o uso de substâncias psicotrópicas para fins médicos e científicos, estabelecendo que a Organização Mundial de Saúde é responsável quanto aos aspectos que justificariam colocá-la sob controle internacional) e em 1988 (que regulou a politica global sobre a magnitude e crescente expansão da produção, da demanda, do tráfico e de atividades criminosas transacionais). Essas Convenções tem força de lei dentro do território nacional, em decorrência da promulgação de decreto presidencial. A lei atual é de 2006. Nela constam proibições. Define o que são drogas. Prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social dos usuários e dependentes de drogas. Estabele normas para repreensão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas e define crimes. A lei é falha. Não foram concretizadas as diretrizes relacionadas às questões relacionadas às políticas públicas, principalmente em relação à saúde. Chegando ao absurdo de internações compulsórias, e apesar de ter despenalizado o usuário, o que acontece na realidade é muito diferente do preceituado. A visão preconceituosa, seletiva e muitos acabam sendo condenados por tráfico, mesmo não sendo traficantes. Novamente, os discursos de hegemonia branca, pós-abolição se tornam comuns, onde os pobres, pretos e desvalidos são traficantes, enquanto os 'outros' são considerados usuários. E a fala da Mariana German, que abre esse artigo, volta com força. "A guerra às drogas, na verdade é uma guerra contra determinado tipo de pessoas". E essas pessoas são as mesmas, desde a pós-abolição.  

4– CONSIDERAÇÕES FINAIS: 

Maconha, Cannabis, Fumo de Angola, Cânhamo, Ganja, Marijuana, Liamba, Diamba, Pito-do-Pango, Erva-da-boa, Hemp. Muitos nomes para designar a planta. Dez mil anos de parceria. A planta existia antes de nós e vai sobreviver depois de nós. A valorização científica, a qualidade melhorada de vida dos enfermos que a utilizam, a melhora das condições de vida onde o plantio é legal, os impostos recolhidos, a quantidade de pessoas que não vão mais perecer nessa guerra sem fim.  Dar liberdade de escolha, do paciente poder escolher qual remédio tomar, das pessoas não precisarem partir para a desobediência civil. Reescrever a história da maconha é necessário e um exercício a ser feito de tempos em tempos. Colocá-la como protagonista, saindo da obscuridade, levar essa história para conhecimento das pessoas, que ainda a tem como a raiz de todos os males, é essencial. 

5 - BIBLIOGRAFIA: 

(1)SOUZA, J.E.L.S.Sonhos da diamba, controles do cotidiano: uma história da criminalização da maconha no Brasil republicano. Salvador: EDUFBA: CETAD/UFBA 263p. 

(2)MENZIES, G. 1421 - O ano que a China descobriu o mundo. São Paulo: Bertrand Brasil: Record. Tradução Ruy Jungman. 5ª edição. 552p. 

(3)HOLLAND, J. O Livro da Maconha. O guia completo sobre a Cannabis. Seu papel na medicina, política e cultura. Editora Vista Chinesa. Tradução Éder Bernardo e Silvana Moreira. 1ª edição. 880p.  

(4)RUSSO,E.Clinical Cannabis in Ancient Mesopotamia: A Historical Survey with Supporting Scientic Evidence. Cannabis Culture. 2007 

(5)BENETOWA,S. Early Difusions and Folks Uses of Hemp. In Cannabis and Culture. The Hague: Mountan,1975. 

(6)LATIMER,S. 1988. Citado em: www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(88)91815-6/fulltext 

(7)RAE,E.M. e Alves, W.C, Fumo de Angola: Cannabis, racismo, resistência cultural e espiritualidade. Salvador: EDUFBA: CETAD/UFBA 564p, 2016 

(8)CARLINI, E. A História da Maconha no Brasil. https://doi.org/10.1590/S0047 

(9) citado em: https://psicodelia.org/noticias/a-historia-da-maconha-a-droga-mais-polemica-do-mundo/ 

(10)SAAD,L. Fumo de Negro: A Criminalização da Maconha no Pós Abolição. Salvador: EDUFBA: CETAD/UFBA 160p. 

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