PARÓQUIA NOSSA SENHORA DE FÁTIMA – NAVIRAÍ MS

MISSA DE QUARTA FEIRA DE CINZAS

PROF Ms. Ciro José Toaldo

 

Estimados irmãos – boa noite – estamos iniciando hoje um tempo muito especial – o tempo que deve nos preparar para a festa mais importante do ano litúrgico, a celebração do acontecimento central e máximo de toda a história da humanidade – A PÁSCOA. E porque a Páscoa é tão grande e solene, deve merecer uma preparação à altura. Essa preparação esta começando hoje com o cerimonial da colocação das cinza sobre a nossa cabeça, como sinal de penitência, isto é, como sinal de que estamos dispostos a nos alinharmos no caminho de Deus com seu projeto de justiça e paz para todos. Não podemos nos esquecer de que “somos pó, e ao pós voltaremos (Gn3,19) e é por isso que precisamos rever nossa vida passageira na terra e “Converter-se e crer no Evangelho de Jesus Cristo”(Mc 1,15).

Esse tempo especial de preparação e conversão, com 40 dias de duração se chama de QUARESMA – tempo em que nossa Igreja lança a CAMPANHA DA FRATERNIDADE, que este ano, à luz da Palavra de Deus, vai refletir a respeito do atual clima de violência que penetra por todos os lados de nossa sociedade, o tema, como já vimos  é: “Solidariedade e Paz” e o lema “Felizes os que promovem a paz”, extraído do Evangelho de Mateus, capítulo 5 – versículo 9.

A Quaresma e todo o seu ritual e simbolismo se traduz no apelo maior à oração integradora dos elementos das virtudes cristãs da esmola e do jejum.  Na verdade, esta integração é apontada pelo anúncio do Evangelho de Mateus que acabamos de ouvir que nos apresenta à abertura para Deus (oração) e para o próximo (esmola) com a superação de nós mesmos (jejum). É por isso, meus irmãos que pela Campanha da Fraternidade podemos concretizar essa tríplice proposta de Jesus, sobretudo no que se refere à nossa abertura para o próximo e o nosso compromisso social.

Nossa conversão não estará completa se a sociedade que fazemos parte também não se converter e, foi justamente por essa razão que nossa Igreja entendeu que através de uma grande Campanha poderíamos desenvolver essa dimensão social – não poderemos obter a paz no mundo, se em primeiro lugar “eu” não estiver em paz comigo mesmo – mas precisamos levar essa paz para os outros – não só católicos – por isso a Campanha da Fraternidade desse ano ecumênica contará com a participação de várias Igrejas cristãs. Portanto, essas duas modalidades de conversão – pessoal e social – demonstram que as mudanças dentro da sociedade não acontecem se  o coração do ser humano CONTINUAR LONGE DE DEUS. Nosso mundo não tem paz, porque não aceita Jesus, não têm Deus e sem Deus não há amor. Sem amor não há paz e só Jesus pode dizer “Dou-vos a minha paz”, pois ele viveu o mais alto grau de amor a Deus e aos seres humanos e seu amor sem limites gera a paz com Deus e com as pessoas.

O profeta Joel, bem nos lembra na Primeira Leitura que é preciso retornar a Deus através da penitência, da conversão e do jejum – não podemos esquecer que Deus é rico em misericórdia – somente Ele nos dará o verdadeiro perdão de nossos pecados. E o Apóstolo Paulo, na segunda leitura, também nos lembra que devemos nos reconciliar com Deus e o tempo favorável por excelência para a nossa salvação é hoje e agora. No Evangelho Jesus nos mostra que a recompensa divina não está na prática externa, mas sim na motivação interior que é a gratuidade do nosso coração.  Quem dá esmola que o faça em segredo - quem ora que se coloque em segredo - quem jejua que se envolva no segredo.  O segredo que Jesus nos coloca é para se opor ao reconhecimento dos homens e à recompensa que com isso oferecem.  Mais ainda: é a maneira que Jesus encontra para se contrapor à visão excessivamente legalista da Justiça antiga.  Por isso, dirá adiante: De graça recebestes, de graça dai (Mt 10,8).  Este princípio, que nos remete à experiência da gratuidade salvífica de Deus para conosco, faz-nos compreender o apelo de Jesus à gratuidade entre nós, reguladora da prática da nova Justiça (v.1), que excede a dos escribas e fariseus (5,20).

Por isso meus irmãos - precisamos sair dessa celebração convencidos de que nosso mundo pessoal e social clama por essa PAZ que tanto Jesus pregou e viveu. Vamos assumir esse tema da CF desse ano "Solidariedade e Paz", pois essa paz só pode ser firme se todos de fato se importarem com todos. "Felizes os que promovem a paz". É o próprio Jesus nos propõe a opção de escolhermos e, quem escolhe suas atitudes voltam-se para Deus, tem sempre a esperança de que escolhe o melhor e o que nos traz mais felicidade, não só na Vida Eterna, mas também ainda aqui neste mundo. Escolher a solidariedade como meio de promover a paz é escolher a vida. A violência é péssima para todo mundo. A nossa maior segurança é quando todos podem confiar em todos, podem contar com todos, ninguém sendo indiferente ao sofrimento de outra pessoa.

E, enquanto Igreja, precisamos refletir que também estamos falhando com o papel fundamental da construir a paz – muitas vezes somos omissos aos problemas socais – nos atacamos uns aos outros – em vez de acolhermos as pessoas – muitas vezes excluímos – trocamos o servir por poder – precisamos nos converter e assumir as palavras de Jesus Cristo “Nisso todos reconhecerão que sois meus discípulos: no amor que tiverdes uns para com os outros”(JO 13, 35).

Enquanto seres humanos que convivem em sociedade devemos refletir e ter a consciência que vivemos no tempo que estabelece o império dos objetos que produz seres humanos apequenado e ameaçado pelo marketing e do design ao serviço do mercado. A corrida pela posse das mercadorias se torna elemento de continua discórdia e de conflitos entre os seres humanos.

 É dentro desse contexto que a Igreja nos lembra que a tranqüilidade social só é paz quando se efetiva exigência  da justiça. A construção da paz na vida humana é exatamente o oposto ao apequenamento a que nossas sociedades nos estão conduzindo. Por isto, não se constrói a paz com uma postura apática ou neutra diante das inúmeras formas de violência que ameaçam a dignidade do ser humano. Somente uma sociedade construída sobre a lógica da solidariedade e não da obsessão pelo consumo pode garantir aos excluídos de todos os tipos a cidadania e as condições dignas de vida o que constitui o espaço em que pode crescer a paz entendida como a grande reconciliação entre os seres humanos, entre o humano e natureza e humanidade e divindade.

Portanto, devemos nos engajar mais nas brechas de paz que a sociedade nos apresenta – por exemplo - na campanha do desarmamento, pois bem sabemos que as arma em casa só causam tragédias. E, não podemos fechar os olhos para outra grande fonte de violência – que clama por paz – que é dentro dos lares - das famílias – na chamada violência doméstica – ali encontramos um fonte de guerra – contra a mulher, contra as  crianças, jovens e idosos – em nosso país ainda persiste a idéia de que apenas o homem deve sustentar a família – aliado a essa idéia – lembramos do álcool – do desemprego, da doença, da miséria, da migração, do abuso sexual e tantas outras desgraças que acabam fazendo milhões de lares brasileiros um campo minado de guerra e não de paz.

Não podemos ficar tranqüilos quando a imagem do Criador é diminuída em qualquer pessoa ultrajada/maltratada - A verdade só é conhecida e praticada quando se é justo e se afirma a dignidade de cada ser humano. A imagem de Deus, estampada na pessoa humana, é sempre única. Ter a imagem do Brasil preservada é ter o ser humano vivendo com dignidade, em paz, na diversidade cultural, na constante busca de ser feliz e livre.