Pequeno Histórico do uso de ADMs (Armas de Destruição em Massa) na América Latina

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 25/09/2026 | História

No mundo, gerações se passam, e muitos dos que observaram fatos ocorridos em terras distantes não imaginam, sequer, que uma falsa justificativa, utilizada como falácia para a dominação diante de uma crise internacional, pode ter tido seu âmago material ocorrido, realmente e sem nenhum alarde, nos seus próprios territórios.

Como resposta aos Atentados de 11 de Setembro de 2001, o governo dos EUA acusou o Iraque de possuir vínculos com a dita monstruosidade e de possuir ADMs (armas de destruição em massa, aí incluídas as químicas, biológicas e nucleares), que poderiam ser contra o Ocidente usadas em escalas muito superiores à tragédia de Nova York. Os EUA invadiram aquele país e nada foi provado. Os próprios EUA, diga-se, algumas décadas antes haviam utilizado napalm (um corrosivo inflamável causador de lentas queimaduras, e que persistiriam até o óbito, aproximando-se do conceito de arma química) no Vietnã do Norte. É óbvio que, por ocasião da crise no Iraque, não relembraram tais crimes, mas tornaram a cometê-lo, desta vez em 2004, com o uso de fósforo branco na cidade iraquiana de Fallujah.

E cá, na América Latina, também não lembramos, especialmente no México e no Brasil.

Desde 1875, o México era ferozmente governado pelo general Porfírio Díaz. Era um homem extremamente conservador que, não obstante ter levado o país a um cenário de modernismo, desconsiderou totalmente as classes mais populares. Como resposta ao seu autoritarismo e seletividade social, em 1910 irrompeu a mais famosa das revoluções mexicanas, liderada por Emiliano Zapata e Pancho Villa, que conduziram o povo à derrubada de Zapata, formalmente consubstanciada em 1911. Mas o cenário de guerra continuou ao longo daquela década, durante a qual o Exército Federal Mexicano lançou napalm sobre os exércitos populares de Zapata e Villa, queimando milhares. Um horror completo, mas cujo desfecho foi um posterior pacto nacional, com o estabelecimento de uma democrática Constituição em 1917, a primeira no mundo a estabelecer normas de Direito do Trabalho. Depois, houve a ocupação, da Chefia do Poder Executivo, por contínuos políticos do PRI (Partido Revolucionário Institucional), que monopolizaram a Presidência por décadas, em eleições formais, mas fraudadas (a "ditadura perfeita", como disse o Nobel de Literatura peruano Mário Vargas Llosa).

Talvez não seja coincidência que, em 1967, tenha sido o México o país fiador do tratado que proibiu o uso de Armas Nucleares (e não químicas e biológicas) na América Latina, de modo que seu incentivador, o diplomata Alfonso Robles, recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 1982.

Em 1967, o Brasil estava sob ditadura militar. Até 1970, as rebeliões contra o governo tomaram as formas de muitos e diferentes grupos, dentre eles a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária, liderada pelo capitão desertor da força terrestre, Carlos Lamarca). Numa incursão da VPR no interior do Estado de São Paulo, jatos de combate da FAB (Força Aérea Brasileira) lançaram napalm sobre seus integrantes. Lamarca não morreu naquele episódio, sendo posteriormente assassinado a tiros. Num contínuo cenário, ocorrido em 1974, nas divisas de Goiás (hoje Tocantins) e Pará, a FAB também usou napalm sobre os membros da Guerrilha do Araguaia, num dos episódios de violação de direitos humanos mais chocantes de nossa história recente: não apenas os guerrilheiros foram atingidos, mas também ribeirinhos e moradores locais, que nada tinham a ver com o confronto.

Por fim, no resto da região, só há evidências de que a Dina (Direção de Inteligência Nacional), polícia política do general Augusto Pinochet, o tenha produzido e estocado no Chile, mas não, efetivamente, utilizado.

Todas as nações, neste mundo, têm seu "livro negro". Não são só os EUA. Não é somente a América Latina. É a natureza belicosa dos seres humanos, cuja cegueira às próprias normas corrói nosso mundo. Se se age assim, lamento dizer que não vivemos sob a força do Direito, mas infelizmente condenados ao direito da força.