Atos dos Apóstolos 2,1-11; 1Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23

 

A celebração do Pentecostes convida-nos a algumas reflexões: sobre o Espírito Santo; sobre os dons do Espírito de Vida e sobre a Trindade Santa.

A respeito do Espírito Santo, temos que levar em conta: Primeiro que o Espírito é uma pessoa da Trindade Santa e não O podemos compreender fora dessa relação. O Espírito é espírito da Trindade e não uma espécie de deus ao lado de Deus, como, por vezes, alguns o tratam. Tentar isolá-lo ou supervalorizá-lo independente da relação com o Pai e o Filho, pode nos levar a uma numa heresia.

Em segundo lugar, os dons do Espírito, embora sejam inúmeros (costumamos elencar apenas sete) resumem-se, como Jesus o demonstrou, em Amar a Deus e amar aos irmãos (Nisso está toda lei e os profetas, ensinou Jesus). Negligenciar isso é negligenciar o próprio Espírito Santo. Por ser amor, por vezes, ao nos referirmos à terceira Pessoa da Trindade o chamamos de Espírito de Amor. Só que esse amor – aliás essa é a característica do amor – não se limita à afirmação: “eu te amo!”. O amor é, não só dinâmico, mas principalmente prestativo, solidário, proativo… Só tem razão de existir na relação com o outro. Caso contrário passa a ser egoísmo.

Em terceiro lugar, e este é um ponto muito controvertido, está o “dom das línguas”. Este também deve ser compreendido na mesma perspectiva: trata-se da linguagem do amor. Essa é universal! Um gesto amoroso é compreendido em qualquer canto do mundo independentemente da língua falada.

Assim, se o princípio maior é o amor; se Deus é amor; se Deus veio a nós porque nos ama, o dom das línguas pode, perfeitamente, ser compreendido como o dom de amor. E o amor se traduz em gestos, em atitudes...

E, evidentemente, não importa se falo usando a língua portuguesa ou alemã; se falo em russo ou francês… o que importa são as atitudes; se meus gestos e minhas atitudes forem amorosas e gerados pelo amor, sempre serei compreendido. Se minhas ações amorosas não forem assim compreendidas, podem estar ocorrendo duas coisas: ou não estou amando suficientemente ou quem recebe meus atos não é de Deus e, por isso, não consegue reconhecer gestos de amor…

Caso as minhas atitudes não estejam pautadas pelo amor, serão atitudes incompreensíveis, pois brotam do egoísmo, da soberba... E se aqueles que olham para meus atos são representantes do anticristo, sempre dirão que agi “com segundas intenções”; caso meus atos conduzam a vida (eu vim para que todos tenham vida em abundância, disse Jesus) podem ser reconhecidos como gestos de amor, que nascem do Deus Trino, iluminados pelo Espirito, como ensinou o Filho. Mas se meus atos, negligenciam a vida, não são amorosos ou, pelo contrário, escarneço a dor alheia, então meus atos nascem não do Deus de amor, mas daquele ser que se opõe a Deus e suas obras e seus obreiros.

Como sabemos, alguns até se apresentam como capazes de balbuciar palavras que ninguém entende, dizendo estar “falando em línguas”. Mas de que adiantam palavras incompreensíveis se as atitudes não transmitirem amor? Pior do que isso, infelizmente em alguns casos, alguns poucos emitem sons incompreensíveis não para comunicar a Deus, mas para falsamente dizer que estão em sintonia com o Espírito. E alguns destes, tentam tirar proveito das pessoas: querendo se sobrepor aos outros, querendo ser reconhecidos pelos demais membros da comunidade; e, o que é pior, querendo extorquir e enganar aqueles que se deixam manipular. Portanto, longe de querer minimizar os dons do Espírito, mas apenas como alerta: se não é uma linguagem compreensível, cuidado! Será que é manifestação divina?

Deus (o Pai, o Filho e o Espírito) é um Deus de puro amor e quer comunicar isso aos seres humanos. E deseja fazer isso para que aprendamos a amar. Portanto não depende de sons incompreensíveis, para se comunicar, pois quando quer usar as pessoas ou nosso processo de comunicação o faz com palavras claras e acessíveis a todos os ouvintes. O melhor e mais claro exemplo disso é a Palavra Santa nas Escrituras Sagradas: desde a narrativa da criação, a história do povo hebreu, os salmos, os profetas… em tudo Deus manifesta-se claramente. E, para ser ainda mais claro, falou-nos por seu Filho, como lemos em Hebreus, 1,1-2: “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho”.

Notemos que o livro do Gênesis é bastante claro: “Toda a terra tinha uma só linguagem e servia-se das mesmas palavras.” (Gn 11,1). Entretanto o que moveu os ancestrais não foi o amor que “servia-se das mesmas palavras”, mas o gesto oposto ao amor; a vontade de ser grande, famoso; o querer se igual a Deus. Por isso, movidos pela soberba e pelo ser que se opõe a Deus disseram: “façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja o céu. Assim, ficaremos famosos…” (Gn 11,4).

Exatamente o oposto do que ocorre na efusão do Espírito, narrada em Atos 2,1-11. Aqui o dom de Deus, mesmo num ambiente de medo permite que os ouvintes compreendam claramente a proposta de Deus. Por isso os ouvintes afirmam: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus” (At 2,11).

Esse é o ponto de partida para a afirmação de Paulo (1Cor 12,3-13). Numa afirmação trinitária, mostra os dons do Espírito “em vista do bem comum”. Diz o apóstolo: “Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor a não ser no Espírito Santo. Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum.” (1Cor 12,3-7).

O mesmo podemos dizer em relação a João (20,19-23) quando nos ensina que é a Trindade de Amor que oferece a paz; é a Trindade de Amor que envia em missão; é a Trindade de Amor que oferece o supremo gesto de amor que se manifesta na graça do perdão: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados” (Jo 20,22-23).

O dia de celebrarmos o Pentecostes, celebramos o Espírito do Deus Trindade. Celebramos o amor do Filho que nos amou ao extremo de nos oferecer sua vida e por isso nos deixou seu Espírito de Vida. No dia de Pentecostes, celebramos os dons do Espírito que se manifestam no supremo dom do amor.

 

Neri de Paula Carneiro

Mestre em Educação, filósofo, teólogo, historiador