Pela Conceitualização da Filosofia como Patrimônio Imaterial da Humanidade

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 28/06/2026 | História

No estudo da história, percebe-se que muitas de suas nuances materiais, hoje sobreviventes dum mundo conturbado por guerras, se tornaram patrimônio da humanidade. Mas também nos é revelado não possuírem várias e grandes criações, fundamentais ao florescimento da civilização, o status de patrimônio imaterial. E uma delas é a filosofia. 

Após a Guerra do Peloponeso, a pólis ateniense vivia um período de grande efusividade intelectual. A ágora, palco dos maiores debates políticos da Antiguidade, lotada se via por intelectuais que, sim, tinham poderes de persuasão e convencimento sobre os demais cidadãos, mas que por isso cobravam e não lhes estimulava o pensamento independentes e autônomo. Esses ensinadores eram os chamados "sofistas". Só que, naquele caldeirão de ideias, surgiu um homem que, por seus ensinamentos orais, não cobrados e inovador método de aquisição do conhecimento, viria e ser o intelectual que, mais de dois mil anos após, seria considerado o maior de todos os ocidentais: Sócrates.

De todos os seus ensinamentos, o âmago da doutrina é a célebre frase "só sei que nada sei". Por meio da mesma, Sócrates exteriorizou sua famosa Dialética, em que instava passantes da ágora a uma formulação dos próprios conceitos, que eram a ele expostos e, por ele, refutados (revelando e, assim, uma anterior e impensada pré-conceitualização), em favor da imediata caracterização de uma nova definição, mais consciente e compatível à realidade objetiva. Esse método era denominado "Maiêutica". Desta forma, Sócrates suplantou os sofistas.

Sócrates, como expresso no segundo parágrafo, expunha seus ensinamentos oralmente. Nada (ou quase nada) escrevia, incluindo-se o conhecimento transmitido ao mais famoso de seus discípulos: Platão, fundador da Academia (a primeira universidade do Ocidente). No alvorecer, e após a fundação da Academia, Platão expôs de forma escrita o conhecimento transmitido por Sócrates (bem como, obviamente, o saber por si próprio absorvido). Portanto, o que sabemos a respeito de Sócrates nos é legado por Platão.

Logicamente, seria improvável que tais escritos sobrevivessem a muitas gerações posteriores imediatas, devido à volatilidade do contexto geopolítico da Antiguidade, especialmente quando as cidades-estado gregas caíram sob o domínio da República Romana, em 146 a.C. Mas sobreviveram, tanto que a mencionada conquista não impediu a disseminação da doutrina socrático-platônica, embora a estrutura física da Academia tivesse sido destruída cerca de um século após a conversão da República Romana em Império (que ocorrera em 27 a.C.).

Por questões de cunho administrativo, em 395 d.C. o Império Romano se dividiu em Império Romano do Ocidente e Império Romano do Oriente, numa repartição consolidada após a morte do Imperador Teodósio I (ficando as antigas cidades-estado gregas dentro dos limites deste último). A capital do Império Romano do Oriente (também alcunhado de "Império Bizantino") era a antiga colônia grega de Bizâncio, depois rebatizada como "Constantinopla" e da qual governavam os Imperadores Romanos do Oriente. Ditos dirigentes, a exemplo dos Reis e Senhores Feudais no antigo território ocidental, almejavam impôr a ferro e fogo a oficial religião cristã sobre sua população. Especialmente o  mais famoso deles, Justiniano.

Justiniano deixou-nos várias obras memoráveis e de esplendorosa beleza bizantina, não apenas em Constantinola (como a Basílica de Santa Sofia), mas também noutra localidade de renome, a italiana Ravena. A Basílica de Santa Sofia, como muitas de suas demais realizações, é considerada patrimônio material da humanidade. Do mesmo modo, a codificação de leis romanas, por ele realizada, é um patrimônio imaterial. Mas, como dito, Justiniano perseguiu os não cristãos, proibindo doutrinas consideradas heréticas, como a filosofia socrático-platônica, por ele banida em 529 d.C. 

Apenas por conta do católico Concílio de Florença, no final da década de 1430, o Ocidente voltou a ter contato com Platão (e, por consequência, Sócrates), quando lá os disseminou o intelectual bizantino Giorgio Pletone. As cópias transportadas foram, a pedido do líder florentino Cosmo de Médici, traduzidas do grego ao latim pelo filósofo Marsílio Ficino. A tradução completa se findou ao crepúsculo daquele século XV.

Posteriormente, inobstante sua eclética produção, o filósofo romano-germânico Georg Hegel (influenciado pela "Maiêutica" de Sócrates, a si transmitida por Platão) elaborou sua própria Dialética, composta por tese, antítese e síntese. Todos já ouvimos sobre a Dialética de Hegel, mas poucos a conectam aos ensinamentos de Sócrates. De idêntica forma, os maiores filósofos germânicos Pós-Hegel, como Nietzsche, Heidegger e Schopenhauer (independentemente do seu empírico pessimismo), tinham Sócrates como uma de suas referências.

Por fim, serve o presente para refirmar a convicção deste autor de que um amplo e iluminador campo do conhecimento, a filosofia (aqui entendida como grega, germânica ou greco-germânica), não deve ser legado a um plano secundário das humanas considerações. Ao revés. Conceitos que sobreviveram a milênios de intempéries, caracterizados por mudanças geopolíticas, guerras, governos opressores e possíveis catástrofes naturais, e que, por ocasião e posteriormente às suas redescobertas, influenciaram sobremaneira nossos sistemas políticos e sociais, moldando o Ocidente como o conhecemos, devem ser tidos por inalienáveis e determinantes às presentes e futuras gerações. Que sejam imortais. Que seja a filosofia, definitivamente, o maior dos patrimônios imateriais da humanidade.