Parecer Geográfico

 SÃO DIMAS: O bairro operário que se elitizou em Piracicaba-SP

 

*Ivan Santiago

 

              O tradicional bairro do São Dimas em Piracicaba-SP pode ser um objeto de estudo geográfico interessante, pois é um fragmento do espaço do interior paulista que nos conta a história da cidade e também do Estado de São Paulo.

              Quem percorre o ainda horizontal bairro com alguns prédios, observa um processo de verticalização com foco nas classes econômicas B e A, mas nem sempre foi assim. O São Dimas era um bairro operário, formado por famílias de descendentes de imigrantes europeus que viviam em casas pequenas, com pouca ou sem nenhuma estrutura em ruas de terra, sem asfalto.

              O marco histórico é a denominada Vila Boyes, colônia da tecelagem de mesmo nome que existia nas margens do Rio Piracicaba. Os moradores eram os operários e as casas propriedade da empresa. Ali viviam famílias numerosas, que ainda hoje, apesar de não serem tombadas, conservam parte da arquitetura original.

              Do ponto de vista geográfico, ocorreu algo inusitado no São Dimas: o bairro operário estava cercado pela classe de alta renda, pela classe intelectualizada e pelo centro da cidade. O bairro nobre da classe alta era a Cidade Jardim (e o Jardim Europa) de um lado e o Clube de Campo do outro; a intelectualidade ficava por conta dos docentes da Universidade de São Paulo - USP, instalados no belo campus da Esalq e que moravam ou no São Dimas ou na Cidade Jardim. E o centro fecha o quadrilátero que isola o São Dimas 

              Nas demais partes do bairro existiam outras fábricas, que produziam refrigerantes, vassouras e afins e foram desativadas no decorrer do tempo. Surgiu o Carmelo (ou a Igreja da Ordem dos Carmelitas) e também uma igreja para sediar a paróquia católica do bairro. Um dia, até o bispo católico da região de Piracicaba mudou-se para o bairro. Surgiu a “sedinha”, centro social de propriedade da tecelagem, onde ocorriam os eventos para os moradores (e que originaram alguns casamentos) e outros eventos marcantes pelas ruas do bairro, como uma corrida de carros vindos do centro da cidade.

              Por ser um bairro de operários de famílias grandes, existiam muitas crianças, o que fez que com o passar das décadas ficassem apenas os aposentados da tecelagem e gerasse uma verdadeira “diáspora” pela cidade de pessoas que viveram neste local. E de certa forma, estas crianças geraram memórias afetivas positivas deste tempo e espaço, principalmente as que viveram nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Estas crianças estudavam nas duas escolas estaduais do bairro.

              A partir dos anos 1990, iniciou-se no São Dimas um processo de valorização comercial, com instalação de novos comércios, construção de prédios, escolas particulares e algumas das crianças, agora adultos, retornaram ao bairro. Isto gerou a alta demanda pelos metros quadrados do São Dimas e sua consequente valorização. Outros piracicabanos observaram as vantagens e também se mudaram para lá.

              Na última década, empreendimentos de alto padrão imprimem uma nova imagem ao espaço geográfico do São Dimas, com prédios altos voltados para a classe A. A tendência é de uma verticalização cada vez mais acentuada nos próximos anos e que ocorra uma sucessão de classe social neste local, como correu nas últimas quatro décadas. Piracicaba passou de cidade pequena à região metropolitana em 2021, a Esalq/USP permanece como a principal instituição acadêmica da nova metrópole, o Clube de Campo permanece como centro histórico da classe média alta e o nobre bairro da Cidade Jardim/Jardim Europa permite pouca expansão comercial em função de normas municipais.

              Desta forma cabe ao São Dimas melhorar, crescer, gerar novos prédios e verticalizar-se. São Dimas, a história do bairro operário que gerou uma memória afetiva tão forte e que até a elite econômica da cidade foi morar. No mínimo, um estudo de caso interessante.

 

IVAN SANTIAGO – geógrafo e gestor imobiliário na cidade de Piracicaba-SP