Os Revolucionários Mexicanos
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | HistóriaNa frase inicial do seu “Manifesto Comunista”, de 1848, Karl Marx e Frederich Engels expressam a seguinte frase: “Um fantasma ronda a Europa: o fantasma do comunismo”.
Embora eu não vá, aqui, fazer uma real diferenciação entre anarquismo, socialismo e comunismo (que foi a única das três vertentes, até hoje, não concretizada), cumpre salientar o fato de que, a partir da Revolução Industrial, no século XVIII, os então trabalhadores britânicos lutaram pela gama de direitos que hoje chamaríamos de trabalhistas, especialmente em oposição à absolutamente desumana jornada de trabalho, que, em muitos casos, chegava a vinte horas diárias, inclusive para crianças (uma das táticas de pressão sobre os patrões foi o emperro de máquinas por nelas serem postos tamancos chamados “sabots”, daí se originando o vocábulo “sabotagem”).
E, embora Marx e Engels dissessem, no mesmo documento ideológico, que a própria burguesia era a responsável pela construção e dinamismo dos meios de produção, lá incitam as massas a tomarem sua propriedade por meio da revolução proletária. Como é lógico, isso era o que os burgueses queriam, a qualquer custo, evitar.
Por isso, no final do século XIX e início do século XX, foi proposta uma série de pactos nacionais europeus em que os trabalhadores, em troca de direitos positivamente regulados, além de assistência médica a si e aos seus, além de educação para os filhos, renunciariam à revolução, permitindo a continuidade do sistema capitalista em prol de um concomitante Estado de bem-estar social. O primeiro país a concretizar esse pacto foi a Dinamarca (não é, portanto, sem razão mais próspera que várias potências continentais de maior porte).
Só que esse pacto, como dito, era europeu, e não latino-americano. Tanto que, desde 1876, governava o México o ditador Porfírio Díaz, impositor de uma injusta ordem social, com a superexploração dos camponeses sem terra, cujo fim era manter os privilégios dos fazendeiros, sustentadores de seu governo. E, em face disso, forças políticas foram se compondo, a fim de remover o tirano, pois o México, até aquele momento, não tivera um idêntico pacto de bem-estar. E, se não o obteve, teria de consegui-lo pela revolução (que não seria marxista, dentro do sistema e em favor dos direitos indígenas e dos camponeses).
A sublevação ocorreu a partir de 1910, sob a liderança de Emiliano Zapata Salazar. Zapata, cuja família era rural, mas identificada com a classe média, sempre sentiu as dores dos mais despossuídos, principalmente os indígenas cativos das escravidões por dívidas. Usando seu carisma (uma das características da liderança, na teoria que, em 1920, viria a ser desenvolvida pelo sociólogo alemão Max Weber) se faz general do Exército Libertador do Sul. Este, sendo a principal, mas não a única das forças a contrapor Porfírio Díaz, fez, junto àquelas, com que em 1911 fosse derrubado e substituído por Francisco Madero, que havia prometido aos insurgentes a aplicação da "Declaração de Ayala", que previa, dentre outros pontos, a expropriação de 1/3 das terras agricultáveis para a posterior distribuição aos camponeses.
Mas, uma vez no poder, Madero sentiu a pressão de não ser o líder formal o governante de fato, mas a estrutura econômica que o cerca. Emiliano Zapata, por óbvio, não concordou e, assim, reorganizou o seu Exército de Libertação do Sul, desta vez junto a Pancho Villa, líder do Exército de Libertação do Norte, e a uma fração que se denominava constitucionalista. Madero acabou, como Porfírio, por ser derrubado em 1914, fazendo com que subisse ao cargo máximo o general constitucionalista Valenciano Huerta.
Logo após, houve uma série de embates (inclusive, com a derrubada do próprio Huerta), mas, por além, foi promulgada a Constituição Mexicana de 1917, a primeira no mundo a dispor de cláusulas de Direito do Trabalho. Graças à Revolução de Emiliano Zapata e Pancho Villa, iniciada em 1910, embora a pretendida reforma agrária só viesse a ser realizada pelo Presidente Lázaro Cárdenas em 1934 (muito após, portanto, os assassinatos de Emiliano Zapata, em 1919, e de Pancho Villa, em 1923, em dois episódios vergonhosos, que mostram como a burguesia, não somente em outras partes, mas, sobretudo, na América Latina pode ser cruel, covarde e vil).
Ambos continuam, até hoje, a ser reverenciados pelo povo mexicano. Pancho Villa, ao contrário de Emiliano Zapata, era um homem vindo das camadas mais baixas, extratos esses que defendia. Já Emiliano Zapata era um altruísta, que sacrificou a vida (como o próprio Pancho) para vivê-la nos seus mais nobres valores, além de grande frasista. E uma delas diz tudo: “Prefiro ser escravo dos meus princípios, do que escravo dos homens” (algo que se aplicou a ele, a Villa e a todos os que lutaram por um México no rol das maiores nações do mundo).