O Sacro Império Romano-Germânico e a Formação do Estado-Nação Alemão

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | História

Muitos já ouviram sobre Carlos Magno, mas não sabem ter sido ele o maior conquistador da Europa Ocidental. Suas terras iam até a Península Ibérica, contendo, na zona central, pequenas sociedades feudais, na sua maior parte maioria germânicas e existentes desde a Queda da Império Romano do Ocidente, em 476 d.C.

Naquela descentralização de poder, os senhores feudais suseranos (que podiam ou não ser reis ou príncipes, bem como duques, condes, marqueses, barões e outros, com ou sem títulos de nobreza) concediam, por meio da cerimônia de investitura, terras aos vassalos, que as ocupavam para fazer valer suas necessidades, a exemplo das alimentares e militares, bem como, se solicitados, dos próprios suseranos (eis que, no dito sistema, obtinham mais prestígio que poder e se criava uma rede de relações que sustentava o sistema). Todos deviam obediência a Carlos Magno e ao papa.

E não foi ao acaso que, em 25 de dezembro de 800 d.C., o Papa Leão III coroou Carlos Magno como Sacro Imperador Romano-Germânico. Há historiadores que afirmam ter sido Otto I o pioneiro  a ostentá-lo, em razão de controvérsias sobre heranças, até hoje não pacificadas (antes, durante e após a época carolíngia, senhores feudais poderiam ser vassalos de outros senhores, e cuja produção agrícola, impulsionada por escravos e servos, era armazenada nos seus enormes castelos, seja para a devida proteção contra as perecíveis temperaturas e pragas, seja como reserva para as guerras).

Esse sistema foi o feudalismo.

O Sacro Império Romano-Germânico era uma monarquia eletiva. Os príncipes eleitores se reuniam, creio que em Aachen, capital de jure (a capital de fato era Roma) e elegiam o sacro imperador, posteriormente referendado pelo papa. O ramo religioso oficial era o católico romano, sendo que o Grande Cisma do Oriente, em 1054, e o consequente fato de o leste do Antigo Império Romano ter se tornado sede da Igreja Católica Ortodoxa Grega, em Bizâncio, fez com que tal fato tenha se constituído no único Cisma não absorvido pelo Sacro Império (os outros, absorvidos, seriam a Reforma Protestante e o advento do calvinismo, mais abaixo tratados), pois ainda havia um sem número de arianos e pagãos no seu território, cuja conversão se julgava preciso, se necessário, à força.

Um dos fatos que mais chamou à atenção para o papel da religião ocorreu em 1095, quando o Para Urbano II convocou todos os que se consideravam cristãos a idas a Jerusalém, em busca da salvação, se a tomassem dos muçulmanos.

Passando por intermináveis guerras, religiosas e econômicas, entre os feudos (o que era agravado pelo fato de o Sacro Império ter dezenas de línguas, como alemão, francês, latim, iídiche, polonês, búlgaro e uma penca de outros idiomas germânicos e eslavos), num ambiente de tensão religiosa agravado pela Inquisição, observou-se um religioso, no que viria a ser a Alemanha, denunciando, dentro dos limites da doutrina cristã, condutas que não agradariam a Deus, como a imoral venda de indulgências pela Igreja Católica Romana, e pregando a obediência apenas à Bíblia, não ao papa e suas  encíclicas. Seu nome era Martinho Luthero, fundador do protestantismo, cujo posterior confronto de ideias com os católicos, por parte de seus seguidores, foi bastante sangrento.

Daí, para pôr um fim à carnificina foi proclamada a Paz de Augusburgo, em 1555, passando o Sacro Império a ter como oficiais dois ramos cristãos: o catolicismo e o protestantismo. O mesmo ocorreu quando se fala do suíço João Calvino, fundador do ramo calvinista, também gerador de discórdia, mas, de modo semelhante, aceito na Paz de Vestfália, em 1648. O Sacro Império, desta maneira, teve até seu fim, em 1806, com a Batalha de Austerlitz, travada entre Napoleão Bonaparte, e por ele vencida, contra austríacos e russos, três ramos religiosos oficiais (de 800 a 1555 apenas o catolicismo, de 1555 a 1648 o catolicismo e o protestantismo, e de 1648 até 1806 o catolicismo, o protestantismo e o calvinismo).

Em 1806, dava-se o fim do Sacro Império Romano-Germânico, constituinte do I Reich, e sua
substituição, decidida no Congresso de Viena,  pela Liga Renânia, que seria sucedida pela Confederação Germânica, sob influência direta da Áustria. A Prússia não aceitou a influência dos austríacos  e contra os mesmos travou guerras, fazendo com que surgisse a Confederação Norte-Germânica, em 1866, havendo s posterior unificação dos Estados germânicos, outrora divididos em feudos, no Império Alemão, em 1871, sob a chancelaria de Otto von Bismarck, o maior estadista tido pelo povo alemão, já que instituidor de leis trabalhistas e da previdência social, por exemplo. Dava-se o início do II Reich.

O Império Alemão durou até 1918, quando, capitaneado pelo Chanceler Maximilian de Baden, assinou sua rendição na Primeira Guerra Mundial, configurando-se, assim, o fim do II Reich, com a conseguinte promulgação da Constituição Democrática de Weimar, em 1919.

A República de Weimar não obteve êxito em recuperar a Alemanha das consequências da Primeira Guerra Mundial, incluindo a inflação avassaladora, abrindo caminho para a eleição de um parlamento dominado pelo Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, em 1932 e a seguinte ascenção de seu líder psicopata ao cargo de chanceler, em 1933, e iniciando-se o III Reich.

Após isso, todos sabem o que, de forma muito triste e repugnante, veio a ocorrer.