O QUE É FILOSOFIA DA RECONSTRUÇÃO? UMA ANÁLISE HERMENÉUTICA DAS OBRAS DE MUANAMOSI MATUMONA [1].

Lic. Fil: António Teca Dicondele [2].

SUMÁRIO: Introdução; 1.1 Ponto de partida; 2. A filosofia como reconstrução; 2.1 Um projecto futurível: diálogo entre Ngoenha e Matumona; 2.2 O dado sistemático; 3 A oralidade; 3.1 O actual discurso filosófico africano; 3.1 Considerações finais; 3.2 Referências.

Resumo: Neste artigo, procuramos compreender o projecto filosófico do Pe. Muanamosi Matumona que é a filosofia da reconstrução, já avançada nas suas obras. O projecto está voltado à reconstrução do continente, como uma forma nova de pensar as instituições académicas, religiosas, etc. Assim sendo, reconstruir não significa desvalorizar a tradição, a cultura, ou mesmo partir do zero como se nada houvesse. Antes pelo contrário, o autor pretende fazer esta ligação de forma intermitente entre o passado, presente e futuro. Para concretizar tal desiderato, faremos a releitura dos seus textos.

Palavras-chave: Matumona, reconstrução, sistematização, futuro, filosofia.

Abstract: In this article, we seek to understand Fr. Muanamosi Matumona's philosophical project, which is the philosophy of reconstruction, already advanced in his works. The project is aimed at the reconstruction of the continent, as a new way of thinking about academic, religious institutions, etc. Therefore, rebuilding does not mean devaluing tradition, culture, or even starting from scratch as if there were nothing. On the contrary, the author intends to make this connection intermittently between the past, present and future. To achieve this goal, we will re-read your texts.
 
Keywords: Matumona, reconstruction, systematization, future, philosophy.

 



 

INTRODUÇÃO

 

 

[…] A regra da vida habituou-nos a insensatez: homenagear um «teólogo, filósofo» um […] «herói» … Justamente depois da morte […] [3]. Em cada um deles devemos estabelecer o centro em torno do qual gravitaram os interesses fundamentais do filósofo, e que é ao mesmo tempo o centro da sua personalidade de homem e de pensador [4].

 

 

O presente artigo é uma análise hermenêutica subordinado ao tema filosofia da reconstrução. A reconstrução como projecto filosófico é uma reflexão que em linhas gerais se abre proponentemente aos desafios actuais do passado, presente e futuro do continente. Embora o autor em destaque tivesse morrido prematuramente, nada nos tira o direito de homenageá-lo. Por isso, dizemos que, os mortos ainda permanecem vivos na memória de quem se lembra deles, “devemos fazer viver perante nós o filósofo na sua realidade de pessoa histórica se queremos compreender claramente, através da obscuridade dos séculos desmemorizados a sua palavra autêntica que pode ainda servir-nos de orientação e de guia” [5].

 

 

 

 

 

1.1 Ponto de Partida

 

 

A reconstrução como projecto filosófico tem fundamentos próprios que a definem, a partir do seu contexto. A deslocação conceptual que pretendemos efectuar é puramente filosófica e não teológica. O termo reconstrução portuguesmente falando é um substantivo, que se aproxima a ideia de reforma, ou seja, tornar de novo alguma coisa. Atentamente, olhando às obras do autor encontramos alguns rasgos que sem sombras de dúvidas aportam consigo este carácter de renovação onde assenta o sujeito e o objecto como elementos filosóficos.

A reconconstrução de África que, actualmente vive momentos conturbados [...] Que precisa de uma reabilitação à luz da mensagem cristã [...] Procurando responder às interrogações e inquietações dos fiéis e dos homens em geral sobre a reconstrução do continente, um projecto que se tornou agora objecto de estudo de muitas ciências sociais, surgindo na lista das principais preocupações de muitas instituições profanas [...] [6]. Certamente, é esta a ideia que nos interessa ver na filosofia, o caminho para conhecer verdades fundamentais relativas à existência do homem. Assim sendo, deixaremos de lado àqueles aspectos teológicos porque não são da nossa competência. Ainda assim, a igreja fala-nos egregiamente da mensagem cristã:

 

A igreja por sua vez, não pode deixar de apreciar o esforço da razão na consecução de objetivos que tornam cada vez mais digna a existência pessoal. Na verdade, ela vê na filosofia, o caminho para conhecer verdades fundamentais relativas à existência do homem. Ao mesmo tempo, considera a filosofia uma ajuda indispensável para aprofundar a compreensão da fé e comunicar a verdade do Evangelho a quantos não conhecem. [...] Ou ainda, a razão é valorizada, mas não superexaltada. O que alcança pode ser verdade, mas só adquire pleno significado se o seu conteúdo for situado num horizonte mais amplo, o da fé [7].

 

 

Contudo, a reconstrução filosófica africana é devedora de uma reflexão teológica de duas escolas, a camaronesa e a congolesa. “Nesta linha é de destacar o contributo do teólogo protestante Kä Mana, pois foi ele quem dinamizou a reflexão sobre a Teologia Africana da Reconstrução” [8].

Estes dados, ajudam-nos a entender de que não se trata de um projecto isolado, ou como defendem muitos intelectuais um projecto que pretenda partir do zero. Antes pelo contrário, a filosofia da reconstrução tem raízes próprias onde ela busca aquilo que lhe constitui, o seu contexto. Como defende Geofrey Parrinder que,

 

A infusão de novas ideias do exterior beneficiou todas as religiões, e um fator que indubitavelmente retardou a religião africana, é o fator que indubitavelmente retardou a religião do resto do mundo. Se o nacionalismo conduzir a um encerramento das fronteiras, isso resultará no empobrecimento [9].

 

 

Na expressão acima podemos também associar a pretensão de muitos, a de afunilarem o conhecimento. Isto seria um erro grave, pois a filosofia não se atola apenas a uma dimensão particular ou circunspecta, ela estende-se para-além fronteira. Tem razão Makumba que, às influências de novas ideias é inexorável, e a tentativa de isolar a África do resto do mundo por meio de um abraçar da africanidade, é uma tentativa de atrasar o desenvolvimento do pensamento. O resultado será apenas o empobrecimento intelectual. Nem o nacionalismo nem o pan-africanismo se podem orgulhar da promoção de uma filosofia isolacionista.

Desde que a humanidade se tornou em uma «aldeia global», qualquer tentativa de fechamento resultaria num fracasso. Hoje, somos condicionados nessa «aldeia global» nem o eremita, nem o selvagem se desprenderiam desta realidade. “A palavra globalização pode até nem ser muito elegante ou atrativa. Mas ninguém, absolutamente ninguém, que pretenda progredir neste final do século a pode ignorar” [10].

Os dados perfilados visam esclarecer que, nesta época da tecnologia qualquer informação atravessa sem pedir licenças as nossas fronteiras; e os mass-media em geral têm esta função de nos persuadirem, aceitando as maldades do mundo e acostumando-nos a elas. Porém, importa ressaltar que estar aberto ao mundo não significa desfazer-se completamente da tradição, antes pelo contrário, temos a missão de revitalizarmos a própria cultura sobretudo a académica.

 

 

A filosofia africana não pode fugir a este facto, pois ela descobre-se como fazendo parte da herança humana. A sede de uma visão africana do cosmo e da realidade deve permanecer ao ritmo e em continuidade, com a procura humana universal da correspondência do pensamento humano como a realidade e, em última análise deve estar em consonância com a genuína aspiração de qualquer filosofia merecedora de consideração [11]. Ou seja, para que, a filosofia africana saia desta moda da justificação é imprescindível a reinvenção para marchar de forma autêntica, ao compasso da modernidade. Ainda sobre esta perspectiva frisava Paulin Hountondji:

 

Não chegaremos nunca a criar uma autêntica filosofia africana, uma filosofia genuína, genuinamente africana (é isto que quero dizer com o termo «autêntico»), se evitarmos a tradição filosófica existente. Não é evitando, e ainda menos ignorando, a herança filosófica internacional, que realmente filosofaremos, mas absorvendo-a para transcender [12].

 

2. A Filosofia Como Reconstrução

 

 

Ao apresentar os elementos constitutivos da filosofia da reconstrução, Matumona enfatizava a relação existente entre fé e razão. Porém, essas duas dimensões seguem linhas opostas, mas para a vertente cristã, auxiliam-se mutuamente. A reconstrução como projecto filosófico é uma reflexão que em linhas gerais, se abre proponentemente, aos desafios actuais do passado, presente e futuro do continente. “É lógico que as ciências como a filosofia e a teologia intervenham no processo que não diz apenas respeito aos políticos. Por isso, a reconstrução de África também é um problema teológico e filosófico. E a filosofia pode «aprender» também com a teologia elaborada nas latitudes locais” [13]

Este diálogo reconstrutivo tem de ser uma análise criteriosa que se estenderá a partir da nossa herança cultural e académica. Por isso, a reconstrução não é meramente uma reabilitação arquitetónica, mas sim uma nova forma de pensar as instituições de ensino especialmente as que lecionam a filosofia.

Assim, com todos os elementos sublinhados é natural que a tecnologia questione, e provoque e interpele a filosofia. Este facto surge como um verdadeiro desafio que a mentalidade africana deve assumir questionar e responder a África adaptar-se às realidades novas e vai ao consenso da sua experiência no domínio das realidades como progresso investigação científica, industria, tecnologia, etc.

2.1 Um Projecto Futurível: Diálogo Entre Ngoenha e Matumona

 

Na obra das independências às liberdades de Severino Elias Ngoenha encontramos o seguinte convite: “a nova geração incumbe à árdua tarefa de participar na elaboração de um futuro diferente do presente que nos é dado viver e observar” [14]. Este projeto futurível é um processo que implica uma reinvenção da situação actual das nossas universidades. Segundo o autor, é legítimo nos interrogarmo-nos sobre o lugar da filosofia na problemática da construção do futuro. O futuro é o lugar de realizações de projetos não efetivados no presente. Porém, não devemos alocar tudo ao futuro sob pena de cairmos numa vã esperança.

Entretanto, devemos julgar que, o futuro que defendemos é certamente uma «heterotopia» [15]. Para as futuras gerações. “De qualquer maneira, a nossa missão é o futuro. É óbvio que, para que esse futuro melhor se realize, cada um deve dar o melhor de si, no lugar onde se encontra, a realização da missão-futuro passará, necessariamente, pela maneira como cada um de nós souber ocupar o próprio lugar” [16]. Nosso futuro não é um dado acomodatício ou um cancelamento de coisas, mas sim uma projecção do indivíduo na cena intelectual, como nos legou Jean Marc Ela:

 

Uma sociedade como a nossa que necessita de compreender e ser compreendida, e de se transformar em profundidade, deve, pois reconsiderar o papel das ciências sociais na formação dos actores dos programas de amanhã. Tudo está em jogo: a crise das estruturas e de sistemas de valores tradicionais, a entrada na modernidade, o processo de urbanização e as suas incidências, a irrupção de tecnologias e de racionalidade exógenas, a valorização dos recursos humanos, os problemas humanos de empreendimentos e a gestão dos poderes nos diferentes sistemas de organização, a amplitude dos desafios demográficos e os sistemas de saúde necessitam de uma atenção mais viva às ciências sociais [...] Para formar as especialidades, a África deve preparar as novas gerações a entrar bem na soceidade de amanhã. Para isso, é preciso desenvolver a capacidade de reflexão sobre os problemas internos ou também externos à luz da nossa vida. Ora, isto levanta o problema da criatividade [17].

 

 

Como sabemos, o futuro é sempre uma possibilidade, ou seja, é um vir a ser que se renova constantemente de acordo com a própria dinâmica da sociedade, embora com a sua função sempre imediata. Como asseverava Matumona, os trabalhos até aqui realizados abrem boas perspectivas para um futuro melhor, que apenas será possível caso os filósofos e investigadores africanos consigam assumir e responder aos desafios que lhes são impostos. Em vários aspectos Ngoenha, e Matumona coincidem. O primeiro insiste num projecto do futuro, enquanto o segundo pretende partir da reconstrução elevando-a também para outra morada que é também uma futurologia:

 

No entanto, uma cautela é sempre necessária: este projecto científico não pode ser, de modo algum, um sincretismo. A sua promoção não poderá certamente fazer-se num quadro ambíguo, racista e etnocêntrico. Deve antes propor uma orientação que permita a afirmação das ciências humanas, evitando a eventualidade de uma sociedade mecânica [18].

 

 

Na obra por uma dimensão moçambicana da consciência histórica, Ngoenha recomendava que o centro de interesses do africano, e consequentemente da sua filosofia, não é outro se não o futuro. Por outro lado, Matumona segue a mesma linhagem, neste argumento: “o pensamento africano, consciente do seu passado e do seu presente, deve nutrir a preocupação pelo futuro e ser portador de uma consciência madura, livre e responsável para libertar o pensamento do gueto africanista” [19].

Nosso esforço não consiste, portanto, numa mera extrapolação de factos com intuito de realizá-los num momento incerto. Trata-se na verdade, de uma tarefa em processamento. É, pois, neste clima e neste mundo que a Filosofia Africana da Reconstrução deve ser promovida, como uma das vias para a reabilitação do continente. Para garantir um futuro melhor, esta filosofia deve ser encarda como uma disciplina importante. Daí, a necessidade de uma intervenção pedagógica, para que a cadeira seja contemplada e reconhecida no contexto curricular, pois a filosofia africana tem implicações epistemológicas, pedagógicas e práticas, na medida em que é vista como uma ciência moderna.

Nós pensamos que, esta nossa visão periférica ajudar-nos-á a desconstruir as ideias pré-concebidas e pré-fabricadas nos círculos de debates dos nossos dias. Eles pretendem construir tudo a partir do teto, como se não houvesse uma filosofia pura e digna deste nome. Segundo Matumona e Ngoenha: o futuro é o conjunto de projectos, de possíveis, de esperanças, de liberdade, porque temos de escolher entre os diferentes possíveis ou criar outros. Se não formos capazes disto, o nosso futuro não será diferente do nosso passado.

Portanto, é importante analisar e rediscutir a nossa história para que se abra um novo futuro, que não seja, portanto, um simples prolongamento da história, para que possamos ser senhores do nosso destino e da nossa história [20].

Na visão de Ngoenha, a filosofia torna possível a vida do homem porque permite imaginar projectar o futuro e enfrentá-lo. Assim, nossa intenção é a de olhar de perto as seguintes interrogações: Qual é a maneira mais filosófica de pensar o futuro? Será certamente este futuro, um messianismo ou uma regra apenas acomodatícia? A filosofia é por excelência crítica assaz às instituições, ela entra na fileira do nosso destino, na teia das relações, acolhendo poucos amigos denunciando às inverdades já instituídas. Ela coxeia no ouvido de cada um de nós. Ora, uma filosofia do futuro que se preza nesses moldes, jamais será uma quimera:

 

A escolha do que deve ser e do que não deve ser não é função da técnica, mas das próprias sociedades, das quais os filósofos devem ser autênticos porta-vozes. À filosofia cabe, portanto a tarefa de dizer o que uma dada sociedade quer verdadeiramente, para orientar a técnica na escolha dos meios para realizar os fins definidos. Para que a futurologia enquanto ciência seja possível, ela necessita do trabalho preliminar da filosofia [21].

 

 

Na sua última exortação o autor conclui que, a perspectiva exige a participação de todos. É necessário que aqueles que viverão um determinado futuro participam na sua escolha e na sua construção. É, contudo necessário que nos interroguemos sobre o que queremos verdadeiramente, o que estamos radicalmente prontos recusar; e em nome de finalidades pessoais e comunitárias! Tudo depende de nós!

 

2.2 O Dado Sistemático

 

O grande obstáculo que muitos pesquisadores encontram ao investigarem temáticas relacionadas à filosofia africana incide sem sombras de dúvidas, no campo sistemático. Por exemplo, a escassa bibliografia em língua portuguesa, professores especializados em assuntos de filosofia africana, etc.,. porém, também sabemos que, a filosofia não é apenas aquilo que é grafado, existe também uma filosofia oral, mas para nós, a escrita é sempre uma marca indelével.

Tem razão Houtondji:

 

A filosofia africana é literatura filosófica africana. Resta saber se esta literatura deve ser entendida no sentido rigoroso da palavra ou se nela se deve incluir, para além do número de escritos, também a palavra não escrita. […] A tradição oral tem tendências a favorecer a consolidação do saber num sistema dogmático intangível; enquanto o registo através do arquivo tem a vantagem de possibilitar a transmissão de um indivíduo ao outro, de uma geração a outra a crítica do saber [22].

 

 

Aqui reside a problemática de forma concreta. Na verdade, as duas hipóteses equivalem-se, mas se olharmos de forma mais atenta vemos que, a escrita sempre sobrepuja a oralidade, a palavra «evapora» com tempo e, ainda que tenhamos a memória de elefante, um dado escrito é sempre vantajoso, pois somos seres finitos.

Segundo Elungu:

 

O que se chama, hoje, filosofia africana é, antes de mais, um conjunto de escritos, a maioria em línguas europeias, sobre os problemas gerais e fundamentais que se colocam ao homem africano na situação africana. A filosofia africana está em função da situação africana […] É esta situação que serve de objecto de análise e de reflexão […] Fazem também parte as restantes filosofias definidas principalmente como ideologias políticas [23].

 

 

Para que o dado sistemático ganhe espaço, é preciso flexionar a própria tradição. Neste sentido, a filosofia também já é africana, marca a ruptura com a sabedoria popular. Seguramente pode-se falar da filosofia africana, pois trata-se também de um conjunto de escritos de pensadores (africanos ou não) sobre as realidades africanas lidas e analisadas num prisma filosófico a partir da sua experiência sociocultural. Adere à epistemologia, cultivando e promovendo autores que filosofam, estruturando e sistematizando o seu pensamento [24]. Por meio da escrita, plasmamos aquilo que é abstracto e que se mantém apenas como um dado vir a ser. Ou seja, aquilo que está inacessível aos olhos, a palavra em si mesma. Como escreveu John Gray:

 

A escrita cria uma memória artificial, através da qual os seres humanos podem alargar a sua experiência para além dos limites de uma geração ou de um modo de vida. Ao mesmo tempo, permitiu-lhes inventar um mundo de entidades abstractas e tomá-las por reais. O desenvolvimento da escrita tornou-os capazes de construir filosofias, segundo as quais teriam já deixado de pertencer ao mundo natural [25].

 

 

3. A Oralidade

 

Na história da filosofia, Sócrates não deixou nenhum fragmento. O que sabemos sobre ele é um trabalho apurado dos seus discípulos. Segundo Sócrates, quando o ser humano escreve limita-se nas suas abordagens, limita-se no seu pensamento e só o diálogo era única via. Mas se não existisse Platão, naquela sua mestria, naquela sua habilidade de dialética, o teríamos conhecido?

Por isso,

Em filosofia, a consideração histórica é, ao invés, fundamental; uma filosofia do passado, se foi verdadeiramente uma filosofia, não é um erro abandonado e morto, mas uma fonte de ensinamento e de vida. Nele se encarnou e exprimiu a pessoa do filósofo, não apenas no que tinha de mais seu, na singularidade da sua experiência de pensamento e de vida, mas ainda nas suas relações com os outros e com o mundo em que viveu. É a pessoa devemos volver se redescobrir o sentido vital de qualquer doutrina [26].

 

Concomitante, os conceitos só são entendidos por intermédio dos termos. Porém, o que nos interessa realmente, não é a capacidade de como manipulamos a linguagem, mas sim a cristalização da linguagem na escrita. 

Vejamos o enfoque:

 

Desde os seus humildes primórdios, como meio de fazer inventários e de registar dívidas, a escrita deu aos seres humanos o poder de preservarem os seus pensamentos e experiências. Nas culturas orais, tentou-se fazer a mesma coisa recorrendo à memória, mas, com a invenção da escrita, a experiência humana podia ser preservada para quando dela já não houvesse qualquer memória. A Ilíada deve ter sido transmitida como um canto ao longo de muitas gerações, mas, sem a escrita, não teríamos a imagem de um mundo arcaico a que ela hoje nos permite aceder [27].

 

 

Alguns filósofos africanos defendem que, a filosofia africana ou a filosofia em geral, não é apenas um empreendimento escrito. Contudo, esta postura justificativa não nos conforta e aliás, só nos coloca à margem da sistematização. O que nos interessa realmente é o seguinte: “a filosofia africana não deve contentar-se em afirmar a sua tradição oral. Chegou o tempo de corroborar decididamente tais afirmações com uma literatura escrita […]” [28]

Há de facto, vozes discordantes sobre este assunto, mas isto não nos desanima, pois uma filosofia autêntica não é um rio calmo. Por exemplo, Oruka, em sage philosophy (filosofia sábia) dizia que, “a filosofia não é apenas um empreendimento escrito” [29]. A mesma ideia é acolhida por Omoregbe, só que com algumas saliências. “O facto de as reflexões filosóficas dos pensadores africanos do passado não terem sido preservados ou transmitidas por escrito, corresponda ao facto de estes filósofos nos permanecerem desconhecidos. Mas isso não significa que não tenham existido” [30].

 

 

3.1 O Actual Discurso Filosófico Africano

 

No actual discurso africano, ainda existe uma tradição que se entrecruza com a palavra, o provérbio, rito de iniciação, a arte, a educação, etc. esses elementos são um modo de vida do africano, eles se renovam a partir da realidade concreta do africano. Mas, a reflexão filosófica é mais exigente e supõe uma rutura com a tradição.

H. Maurier, na sua obra philosophie de l´afrique noire, efantizava:

 

A especulação da filosofia africana visa extrair do concreto africano, de uma maneira de ser homem, de uma realização particular da humanidade, os factos fundamentais e universais referentes ao mesmo homem; características que se manifestam sem dúvida por todas as partes, mas com particular intensidade na África. Esta reflexão deve expor e criticar, porque o homem não pode nunca ser compreendido como uma coisa fechada em si e sobre si; o homem está sempre mais além das suas determinações; não pode repousar no que é dado [31].

 

 

Nesta ordem de ideias, interessa-nos responder a seguinte questão: em que medida esta exigência reflexiva da filosofia se realiza na África de hoje? A primeira tentativa, visa responder o dado da justificação. Mas tal busca é desnecessária, pois demodo rigoroso, a existência ou não existência da filosofia africana é um falso problema, e nem precisamos atrelar-nos pela sua existência, pois é um facto. A segunda tentativa reside nos textos escritos, o que há de filosófico. A terceira tentativa é uma síntese sobre as exigências da produção literária, que Makumba frisava já na sua obra: A cientificidade, a elaboração da filosofia africana em especial da filosofia formal.

No mesmo itinerário, Matumona sublinha:

 

[…] A necessidade de um novo paradigma de filosofia, que pode ser uma Filosofia Africana da Reconstrução. Tendo um valor epistemológico, deve ser leccionada como uma disciplina autónoma, nos estabelecimentos de ensino, obedecendo aos princípios pedagógicos, de modo que os africanos reconheçam a sua dignidade e a sua missão neste século XXI. Por isso, é de admitir que a África não pode ser condenada à morte. A pressão do afropessimismo deve ser questionada, ou até refutada com objectividade [32].

 

 

Ao Analisarmos todas estas tentativas, a reflexão filosófica é exercida aqui no sentido de a clarear tudo aquilo que nos é familiar. Aquilo que ainda nos parece visível. A exigência reflexiva impõe uma crítica sobre o edifício civilizador das sociedades africanas, constituídas num estilo unamista onde a questão primordial é a de integra-se numa totalidade para sobreviver.

O segredo do saber é necessário para salvaguardar um sistema de controlo que se pretende sem fissuras. A filosofia é outra coisa: é essencialmente remissão à causa da discussão permanente, sempre que tenha a liberdade de ser exercida sem cair em extremos que representam o hermetismo ou a ideologia [33]. De acordo M. Henry, a exaltação incondicional e acrítica das ideias correntes não constitui filosofia, o papel de uma filosofia africana que assuma coerentemente a exigência de racionalidade e de crítica epistemológica deve se enraizar epistemologicamente no valor do conhecimento tradicional, fundamentar suas afirmações, regular seu discurso tanto a nível dialético como no da experiência.

Assim sendo, o cumprimento desta tarefa dependerá muito deste olhar intermitente, denunciando os pseudointelectuais, as ideias dominantes, àquelas atitudes antifilosóficas amplamente difundias como se fossem o fundamento de uma reflexão exigente;

Por isso, a filosofia africana tem uma tarefa espinhosa a realizar no sentido do bem e da promoção da sociedade. Atendendo ao quadro actual, deve desempenhar um papel preponderante face aos actuais desafios. Se no princípio a filosofia africana lutou para traçar linhas capazes de levar os estados africanos às independências, actualmente os desafios são outros. A sua tarefa, entre várias, é criar a unidade e a harmonia, recompondo e recuperando o que foi adulterado pelo colonialismo e pela má gestão dos seus governantes. Isto associa-se ao processo da libertação, do progresso e do desenvolvimento, que não é apenas uma emancipação, mas sim uma reabilitação, um reencontro da própria dignidade do homem africano, que eleva o nível da sua civilização [34].

 

 

Concomitantemente, é possível definir como segue as grandes linhas hermenêuticas:

  1. A exigência de modernidade (racionalidade, cientificidade, libertação político-social) dirige forçadamente o nível crítico ao que o dado tradicional deve ser levado;
  2. A exigência racional enquanto existencial obriga a considerar o dado tradicional naquilo que tem de mais quotidiano, socialmente fundamental e habitual;
  3. A reflexão filosófica africana deve enraizar-se fundamentando os dados mais observáveis e evitar querer explicar obscurum per obscurius, reconhecendo que se as superestruturas intelectuais se reduzem às infraestruturas, devem ser independentes e não aventurar-se a dissertar sobre o improvável;

4. O filósofo deve estar consciente de suas coordenadas intelectuais, políticas e religiosas;

5. A tarefa do filósofo consiste em tornar explícito aquilo que está implícito. Isto não deverá ser entendido como se o africano não tivesse já claro tudo o que necessita para viver sua existência de homem. Contudo, Não se trata de acomodar à experiência vivida, com ideias não pertinentes a seu domínio, embora seja necessário completá-las.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Nas páginas precedentes, demostramos o que é a filosofia da reconstrução no seu sentido mais filosófico. A reconstrução é uma proposta filosófica que pretende descer as raízes do pensamento africano. Partindo sempre do dado tradicional, para lançar-se ao futuro. Todavia, ele não é um projecto acabado, na medida em que reconhece que existem várias perspectivas e correntes filosóficas preocupadas com o desenvolvimento do continente.

Reconhecendo essa diversidade de opiniões cremos que, é no meio dela, que a filosofia da reconstrução levantará o voo sem descurar certamente o seu contexto que lhe pode servir de orientação e guia. Se entendermos que, a filosofia está sempre no mundo, não como uma «monada» sob pena de fazer-se instituição. Mas, sim como um modo de vida. Nesta linhagem, a filosofia da reconstrução é também um problema filosófico.

 


 

                                                            REFERÊNCIAS

 

Obras do Autor

MATUMONA, MUANAMOSI. Filosofia africana, implicações epistemológicas pedagógicas e práticas de uma ciência moderna. Editora, Esfera do Caos: 2010.

­­­____________. Os Media na era da globalização: para uma sociologia do jornalismo angolano. Uíje, Edições Sedipu: 2009.

____________. Cristianismo e mutações sociais, elementos para uma teologia africana da reconstrução. Uíje, Edição do Sedipu: 2005.

 

ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Trad. António Borges Coelho. [at al.] Vol. 1 7ª Edição. Lisboa: Presença, 2006.

BUCKINGHAM, Will. [at al]. O livro de filosofia. Trad. Douglas Kim. São Paulo, Edição. Globo Livros. 2012.

GRAY, John. Sobre humanos e outros animais. 2ª Edição. Trad. Miguel Serras Pereira. Córdova. Editora, Lua de Papel: 2008.

JOÃO, Paulo II. Fides et Ratio, nº 5- 20.

MAKUMBA, M. Maurice. Introdução à filosofia africana: passado e presente. Trad. Mário de Almeida. Angola, ed. Paulus: 2014.

NGOENHA, Elias Severino. Das independências às liberdades. Edição. Paulus, Angola: 2014.

 

 

 

[1] Muanamosi Matumona nasceu no Uíje (Angola), em 1965- 2009. Onde também foi ordenado sacerdote, em 1995. Estudou Comunicação Social e Teologia Sistemática na Universidade na Universidade Católica Portuguesa de Lisboa. Suas obras, Jornalismo Angolano: história, desafios e perspectivas. A reconstrução de África na era da Modernidade. Filosofia Africana, na linha do Tempo Implicações Epistemológicas, Pedagógicas e Práticas de uma Ciência Moderna. Etc. 

[2] António Teca Dicondele é Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Angola (UCAN), Instituto Superior Dom Bosco (ISDB), Membro da Organização Académica FILONORG (Angola-Luanda). É formado em Agregação Pedagógica para o ensino Superior pela mesma Universidade. É também Jornalista estagiário pela Rádio Escola. Nutre maior interesse em Filosofia Existencial, Filosofia Vitalista, e a Filosofia da Desconstrução. Com os seguintes contactos: 937 993 828, [email protected]

[3] MATUMONA, Muanamosi. Os Media na era da globalização para uma sociologia do jornalismo angolano. Uíje, Edições SEDIPU, 2009, 193.

[4] ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. 7ª Edição. Trad. António Borges Coelho. [ at al]. vol. 1 . Lisboa: Presença, 2006, pp. 7- 8.

[5] Ibid., 7- 8.

[6] MATUMONA, Muanamosi. Cristianismo e mutações sociais, elementos para uma teologia africana da reconstrução. Uíje, Edição do Sedipu: 2005, p. 103.

[7] JOÃO, Paulo II. Fides et Ratio, nº 5- 20.

[8] MATUMONA, Muanamosi. Cristianismo e mutações sociais, elemento para uma teologia africana da reconstrução, Edição do Sedipu, Uíje, 2005, p. 103.

[9] PARRINDER, Geoffrey. African tradiconal religion. Londres, Sheldon Press, 1962. Apud. MAKUMBA, M. Maurice. Introdução à filosofia africana: passado e presente. Trad. Mário de Almeida. Angola: Paulus, 2014, p. 35.

[10] ANTHONY, Guddens. O mundo na era da globalização. Apud. MATUMONA, Muanamosi. Os Media na era da globalização: para uma sociologia do jornalismo angolano. Uíje, edições Sedipu: 2009, p. 34.

[11] MAKUMBA, M. Maurice. Introdução à filosofia africana: passado e presente. Trad. Mário de Almeida. Angola: Paulus, 2014, p. 37.

[12] P. Hountondji. African philosopy: myth and reality. Londres, Hutchunson University Library for Africa, 1983, sur la philosophie africaine, Paris Maspero, 1976. Apud. MAKUMBA, M. Maurice. Introdução à filosofia africana: passado e presente. Trad. Mário de Almeida. Angola: Paulus, 2014, pp. 35- 36. 

[13] MATUMONA, Muanamosi. Filosofia africana, implicações epistemológicas pedagógicas e práticas de uma ciência moderna. Editora, Esfera do Caos: 2010, p. 97.

[14] NGOENHA, Elias Severino. Das independências às liberdades. Angola, Edição. Paulus: 2014, p. 5.

[15] Heterotopia numa linguagem mais foucaultiana significa dizer a criação dos novos espaços aqui e agora. Ver, a filosofia como modo de vida [instituto cpfl], Margareth Rago.

[16] NGOENHA, Elias Severino. Das independências às liberdades. Angola: Paulus, 2014, p. 5.

[17] ELA, Jean-Marc. Restituer l´histoire aux sociétes africaines, promouver les sciences socialis em Afrique noire. 1994.

[18] LUCIEN, Goldmann. Epistemologia e filosofia política. Edição. Presença, Lisboa: 1984. Apud. MATUMONA, MUANAMOSI. Filosofia africana, implicações epistemológicas pedagógicas e práticas de uma ciência moderna. Editora, Esfera do Caos: 2010, p. 139.

[19] Ibid., 141.

[20] NGOENHA, Elias Severino. Das independências às liberdades. Angola: Paulus, 2014, p. 10.

[21] Ibid., 10.

[22] HOUTONDJI. Sur la philosophie afraine, Yaoundé, Clé, 1990. Apud. NGOENHA, Elias Severino. Das independências às liberdades. Angola: Paulus, 2014, p. 96.

[23] ELUNGU. La philosopie africaine. Apud. MATUMONA, Muanamosi. Filosofia africana, implicações epistemológicas pedagógicas e práticas de uma ciência moderna. Editora, Esfera do Caos: 2010, p. 135.

[24] MATUMONA, MUANAMOSI. Filosofia africana, implicações epistemológicas pedagógicas e práticas de uma ciência moderna. Editora, Esfera do Caos: 2010, pp. 162- 163.

[25] GRAY, John. Sobre humanos e outros animais. 2ª Edição. Trad. Miguel Serras Pereira. Córdova. Editora, Lua de Papel: 2008, p. 59.

[26] ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. 7ª Edição. Trad. António Borges Coelho. [at al]. Vol. 1. Lisboa: Presença, 2006, pp. 7-8.

[27] GRAY, John. Sobre humanos e outros animais. 2ª Edição. Trad. Miguel Serras Pereira. Córdova. Editora, Lua de Papel: 2008, p. 58.

[28] MAKUMBA, M. Maurice. Introdução à filosofia africana: passado e presente. Trad. Mário de Almeida. Angola, Edição. Paulus: 2014, p. 26.

[29] ORUKA, Odera Henry. Sage philosophy. 1994. Apud. BUCKINGHAM, Will. [at al]. O livro de filosofia. Trad. Douglas Kim. São Paulo, Edição. Globo Livros. 2012, p. 324.

[30] OMOREGEBE, I. Joseph. Africain philosophy, yesturday and today. 1998. Apud. MAKUMBA, M. Maurice. Introdução à filosofia africana: passado e presente. Trad. Mário de Almeida. Angola: Paulus, 2014, p. 26.

 

[31] H. Maurier. In Fasc. Sebenta de filosofia Africana. 2º Ano, ISDB, 2016. p. 16.

[32] MATUMONA, MUANAMOSI. Filosofia africana, implicações epistemológicas pedagógicas e práticas de uma ciência moderna. Editora, Esfera do Caos: 2010, p. 97.

[33] H. Maurier. In Fasc. Sebenta de filosofia Africana. 2º Ano, ISDB, 2016, p. 17.

[34] MATUMONA, MUANAMOSI. Filosofia africana, implicações epistemológicas pedagógicas e práticas de uma ciência moderna. Editora, Esfera do Caos: 2010, p. 97.