A MORTE

Quando menino

A morte era um passarinho

Que pousava na janela

Durante o silêncio da tarde.

Quando adolescente

A morte me assustava

Nos corredores dos sonhos

Era sempre um vulto

Que me dava às costas

E evaporava na escuridão.

Hoje, é apenas a maré

Que vai e volta

E aprendi que a morte

É só a dessaudade.

 

 

O IDIOMA

 

Quando menino

Euntinha a língua do pê

Que duelava

No tempo

Enquanto gestava em mim

A experiência da fala

Minha lingua

Minha Pátria

Que criava palavras

Na atonia da vida

Eu queria apenas

Ter o sentido das palavras

Para que elas adormecessem

No colo das minhas lembranças.

 

O VELHO E O TEMPO

O tempo para um menino

É a monotonia

Do velho relógio de parede

O escurecer

E o amanhecer

Para um velho

É a inutilidade das horas

A martelar sem pressa

Na forja dos segundos.

 

MINHA CASA

 

Meu pai pintou a casa

Toda de rosa e branco

Minha mãe pensou as cores

E o pincel atravessou a noite

Ela contou depois

Que uma nuvem 

Desceu do céu

E cobriu a casa

Como quem cobtre o mundo

E deixou as cores

Ociosas no tempo

 

Brumadinho

 

 

De repente

Um turbilhão de lama

Soterra tudo

Corpos e esperanças.

Não houve tempo para gritar

Não houve tempo para correr

Não houve tempo para orar

As bocas e narinas

Entupidas

O medo de morrer

O medo da morte

Os corações pararam de bater

O desmaio e o fim

Acabou a história

Para homens, mulheres

Jovens e crianças

A vida parou

Ou foi Minas?

 

São Caetano

 

Guardo na memória,

Suas ruas ainda sem asfalto

O colégio Luiz Capra

Imponente no alto do outeiro

Onde aprendi as primeiras as letras

O casarão abandonado no horizonte

Com muitas histórias e fantasmas

A estação de trem

Por onde se chegava e se partia

A lago de banhos proibidos

O matagal com murtinhas

Com seu doce sabor ainda presente

O velho português da padaria

Sempre reclamando da vida

A capela onde o padre Ernesto

Fazia seus inesquecíveis sermões

Os cinemas do bairro Átila e Real

O cinema do centro

Onde assisti “La escondida”.

O filé a parmesiana na rua Amazonas

O bauru do bar do Gouveia

A Concha Acústica na praça central

A casa onde morei

Nossos vizinhos poloneses, alemães, italianos, caipiras

O Seu Rubens, o único negro da rua

Um homem imenso e forte

Dizem que era porque tomava

Em jejum, um copo de vinho

O velho italiano Antonio Piffer

Que adorava o café da minha mãe

E nos contava histórias da velha Itália

Com lágrimas nos olhos

E eu chorava junto

Sem entender por quê.

 

MEU BAIRRO

 

São Caetano do Sul

Morava em ruas entre rios

Juruá, Tocantins, Iguaçu

Tietê, Paranapanema, Meninos

Ruas que ainda desaguam

Em algum passado distante.

 

O sino tocando na igreja,

Sempre em construção,

Acordava as beatas

Cobertas de véus negros

Caminhavam em fila

Para a comunhão diária.

 

O meu velho colégio

“Padre Luiz Capra”

Tocava “Sempre aos domingos”

Mesmo às segundas-feiras.

Canção para acordar crianças

E confortar corações.

 

O sol queimava meu rosto

Nas peladas intermináveis.

O verão era quase sempre eterno

E a noite, os vagalumes

Pintavam a rua de verde

Enquanto dormíamos

Com as janelas abertas.

O casarão abandonado

Ao longe, no outeiro

Com suas velas acesas

Dava guarida aos fantasmas

Que assombravam crianças.