O Poder Acumulado de Duas Potências Regionais
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 19/05/2026 | PolíticaSun Tzu, autor de "A Arte da Guerra", disse que, "se não puder vencer um inimigo, una-se a ele". No caso do Brasil e da Argentina, não é possível prever quem seria o vencedor de um eventual conflito. O passado o confirma, eis que, a outrora rivalidade pela hegemonia da América do Sul resultou em duas guerras desastrosas para ambos os lados. Inicialmente, houve a Guerra da Cisplatina (1825-1828), vencida pelos argentinos. Após, eclodiu a Guerra do Prata, ou Guerra contra Rosas (1850-1851), para os brasileiros vitoriosa.
A trajetória do Porta-Aviões Nuclear USS Nimitz em países da América do Sul, incluindo o Brasil e a Argentina, não é apenas um protocolo diplomático. Reveste-se, sobretudo, de uma demonstração do pretendido poder sobre os mares do sul (especialmente ao se tratar de um veículo portador de armas atômicas). Na Argentina, o Presidente Javier Milei entrou no Nimitz, claramente demonstrando afinidades ideológicas com o governo de Donald Trump. Quando aportar no Brasil, se Lula tiver um mínimo de coerência doutrinal, não irá conhecê-lo.
As visitas a dois países que, na atualidade, possuem governos diametral e ideologicamente opostos no campo da "Guerra Fria 2.0", mostram a cooptação de Milei ao campo ocidentalista, relegando Lula ao ostracismo político diante da grande potência. Isso, se considerarmos apenas governos, e não Estados. Tanto que, na presente década, um e outro dos gigantes sul-americanos tiveram governantes de ambos os extremos espectros políticos, mas, independentemente disso, a cooperação Brasil-Argentina, estabelecida em meados da década de 1980 (quando os generais de ambos retornaram às casernas), continuou sem crises. Assim, a passagem do USS Nimitz é um alerta de dominação às duas nações, e não só ao Brasil.
Por isso, medidas diplomáticas se fazem necessárias a garantir nossa cooperação: a primeira é a reafirmação do reconhecimento incondicional das Ilhas Malvinas como argentinas, numa antiga posição do Estado brasileiro, quando, apenas agora, os EUA tencionam fazê-lo, numa punição aos britânicos por sua recusa de ceder tropas para a guerra contra o Irã. Por certo, também deveria haver mais exercícios a conjuntos das duas Marinhas, pois, na década de 1990, os países renunciaram ao uso da energia nuclear para fins militaristas, o que faz com que suas capacidades dissuasórias das estejam, quase, no mesmo patamar, há pouco desequilibrado pela aquisição brasileira de novas corvetas e demais embarcações, além da ambição brasileira de possuir um submarino nuclear (que, não se confunda, jamais representaria uma embarcação portadora de mísseis atômicos, mas nuclear seria a sua propulsão).
Tendo o poder regional como meta, as duas nações não o cederiam unilateralmente aos EUA, país protestante, do norte e anglo-saxão, com quem há muito menos afinidades que a comum caminhada sul-americana, num contexto latino, católico e ibérico. Governos passam, mas os Estados ficam. Portanto, a cooperação é um fundamental para que alcancemos, juntos, o poder soberano do sul aquático. Para tanto, adotaríamos os protocolos diplomáticos já expressos, além de, sob rígidas condições comerciais e de sigilo, e corroboradas pelos nossos serviços de inteligência, transferir aos argentinos a tecnologia referente às corvetas e embarcações recém-adquiridas (e, em câmbio, conosco eles fariam o mesmo, ainda que sua Marinha esteja em um pequeno déficit à nossa comparada, exigindo o Brasil uma total censura argentina a eventual agressão dos EUA, desde a Venezuela, sobre nossas fronteiras, bem como da China e-ou Rússia, ainda que a Argentina venha a ter um futuro governo de esquerda).
Com a aquisição de um, ou mais porta-aviões pelo Brasil, nossa costa ficaria mais bem guarnecida, e as medidas acima protegeriam os mares da América do Sul como sempre quisemos. Um único poder de facto conjunto, enviando à diplomacia dos EUA o recado de que, ao menos militarmente, a costa leste da América do Sul não é sua área de influência, independentemente da nau atômica ora exibida, e que só, segundo seus detentores, seria usada contra nações que possuem armas similares (o que a História já provou não ser verdade).
Adiante, Armada de Tamandaré.