O Mais Coerente de Todos os Partidos

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | História

Republicanos ou democratas. Quando se tem em mente essas duas facções, sabemos que, na próxima eleição para a presidência dos EUA, vencerá um candidato da direita ampla, geral e irrestrita (republicano) ou da centro-direita (democrata). Lá, há dezenas de partidos políticos, sendo alguns o Partido Independentista do Alasca, o Partido Comunista dos Estados Unidos, o Partido Socialista, o Partido Verde e outros. Todos podem a aspirar à presidência, mas sem quaisquer chances, pois o “establisment” jamais admite quem ousa transformar a plutocracia numa real democracia, algo que, absolutamente, jamais foi.

E uma das razões em que se pauta é que uma das reivindicações dos alijados era acabar com o alistamento obrigatório para a Guerra do Vietnã, iniciada por Kennedy (que, justiça seja feita, queria, de início, enviar somente conselheiros militares, mas a pressão saiu de seu controle e desaguou no morticínio que conhecemos). Voltando à questão do alistamento obrigatório, trata-se de um país onde os negros constituíam apenas 12% da população, mas somavam, nas tropas combatentes, 25% do total. Um escândalo completo, provocado por e pelos democratas, que, em questões de conflitos externos, sempre foram mais genocidas que os republicanos (foram eles, por exemplo e por meio do Presidente Harry Trump, que lançaram as duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki). Fora isso, os negros sempre foram pessimamente tratados dentro de seu próprio país, numa espécie de “apartheid americano”, já que a eles sobravam os piores empregos, as piores escolas, os piores serviços médicos e o pior tratamento possível por parte da polícia.

Em novembro de 1963, Kennedy foi assassinado, assumindo como presidente o até então vice, Lyndon Jonhson. A guerra ia mal para para os americanos, que a todos os instantes enviavam de volta aos EUA sacos de corpos com soldados mortos. A única saída viável para o atoleiro, a curto prazo, seria um amplo programa de reformas sociais idealizado por Jonhson, com direcionamento específico aos jovens negros. De nada adiantou, pois eles tinham, internamente, um legítimo grupo que os representava: o Partido dos Panteras Negras, um grupo que resolveu se unir em Oakland, Califórnia, em 1966, a fim de dar urgente demanda à sua juventude, sedenta por alimento, saúde e oportunidades, e que teve sua força moral aumentada quando do assassinato do reverendo Martin Luther King, ocorrido durante a Ofensiva do Tet, impositiva de uma vitória até militar, mas não política dos EUA, vez que o Vietnã se reunificou sob o sistema marxista.

Da iminente derrota política, tomou-se forças para o fortalecimento da tão significante organização. Eles se espalharam por alguns pontos do país e ofereciam cafés da manhã, assistência médica e dentária grátis a muitas comunidades carentes. A prática comedida de esportes também não era incomum. E quando, nas Olimpíadas da Cidade do México, em 1968, dois atletas americanos no pódio de uma prova de atletismo ergueram seus punhos fechados, denotando apoio ao Partido dos Panteras Negras, houve adoração por parte do estádio, mas ódio nas autoridades dos EUA, especialmente no diretor do FBI, J. Edgard Hoover, determinado a com eles acabar não por serem provedores do necessário à subsistência, mas uma organização marxista e guerrilheira disposta a desafiar o sistema, com provocações a policiais e fiscalização de seus trabalhos, realizada por membros armados, vez que a população negra era, constantemente, vítima de todos os tipos de arbitrariedades, torturas, espancamento e até mesmo assassinato. De fato, eram guerrilheiros urbanos, que tinham o propósito de derrubar o governo dos EUA, mas que, para isso, precisavam de bases no exterior para os casos de um prováveis exílios, especialmente quando há a perseguição de J. Edgard Hoover. O país escolhido foi a Argélia, cujo homem forte, Ahmed Ben Bella, foi líder da resistência na guerra de independência contra a França. O Partido dos Panteras Negras teve violentos combates com as forças policiais regulares americanas durante a década de 1970, e foi desbaratado somente em 1982.

Mas seu símbolo e seus valores continuam. O punho erguido e cerrado no ar, que Pelé (velho conhecido de Ben Bella) e Rivelino exibiam ao comemorar seus gols, ainda na Copa do Mundo de 1970, bem como Sócrates no decênio de 1980, continua em voga. Mohammed ali também adotou o gesto, todos em repúdio a um Estado que se dizia democrático, mas que era, simplesmente, uma versão ocidentalizada do odioso e execrável “apartheid” sul-africano.