O ENSINO DA ESCRITA CRIATIVA NOS ANOS INICIAIS
Por Carolina Pessoa Varanda Leite | 03/09/2026 | EducaçãoO ENSINO DA ESCRITA CRIATIVA NOS ANOS INICIAIS: COMO IR ALÉM DA CÓPIA E ESTIMULAR A AUTORIA DESDE CEDO
A aprendizagem da escrita representa uma das experiências mais significativas vivenciadas pela criança durante os primeiros anos de escolarização. Aprender a escrever significa apropriar-se de uma forma de linguagem que possibilita registrar pensamentos, comunicar desejos, contar acontecimentos, criar histórias, expressar sentimentos, produzir conhecimentos e participar de diferentes práticas sociais. Nesse sentido, o ensino da escrita não pode ser compreendido apenas como aquisição de técnicas relacionadas à formação de letras, à ortografia ou à cópia de palavras.
Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, especialmente durante o processo de alfabetização, é comum que o trabalho pedagógico concentre grande atenção na aprendizagem do sistema de escrita alfabética. Essa preocupação é legítima e necessária, uma vez que a criança precisa compreender o funcionamento da escrita para utilizá-la com autonomia. Entretanto, quando o ensino se restringe à reprodução de letras, sílabas, palavras, frases e textos apresentados pelo professor ou pelo material didático, corre-se o risco de construir uma concepção limitada sobre o que significa escrever.
A escrita escolar precisa ser compreendida como uma prática de linguagem. A criança não deve ser vista apenas como alguém que aprende a reproduzir aquilo que outra pessoa escreveu, mas como sujeito capaz de produzir significados e elaborar textos a partir de suas experiências, conhecimentos, sentimentos e imaginação.
A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece, para os anos iniciais, a necessidade de desenvolver práticas de produção textual, incluindo situações de criação e recriação de histórias, poemas, quadrinhas, cantigas e outros gêneros. Entre as propostas relacionadas ao primeiro ano aparecem, por exemplo, a produção de recontos, histórias imaginadas e textos criativos, inclusive com o professor atuando inicialmente como escriba.
Essa perspectiva permite compreender que a criança pode participar de práticas de escrita antes mesmo de dominar convencionalmente todos os aspectos do sistema alfabético. Ela pode ditar uma história ao professor, criar personagens, inventar finais, produzir listas, escrever palavras conhecidas, elaborar pequenos bilhetes, criar poemas, registrar experiências e construir narrativas utilizando os conhecimentos que já possui.
Nesse contexto, surge a importância da escrita criativa como possibilidade pedagógica para aproximar a criança da produção textual de maneira significativa e prazerosa. A escrita criativa não deve ser entendida como uma atividade improvisada ou como uma prática que substitui o ensino sistemático da língua portuguesa. Pelo contrário, ela pode constituir um espaço planejado de aprendizagem no qual os conhecimentos linguísticos são mobilizados para que a criança possa comunicar aquilo que deseja dizer.
Pesquisas sobre produção textual nos anos iniciais indicam que ainda existe uma tendência de concentrar o ensino nos aspectos estruturais e formais da escrita, mesmo diante de avanços nas concepções de linguagem e produção textual. Dessa forma, discutir a escrita criativa significa também questionar práticas que colocam a criança em uma posição predominantemente passiva diante da linguagem.
O presente artigo tem como objetivo discutir o ensino da escrita criativa nos anos iniciais, refletindo sobre os limites das práticas centradas na cópia e apresentando possibilidades para estimular a autoria infantil desde cedo. Busca-se compreender de que maneira leitura, oralidade, ludicidade, literatura, experiências cotidianas e diferentes gêneros textuais podem contribuir para que as crianças desenvolvam uma relação mais significativa com a escrita.
A discussão é especialmente relevante porque a formação de escritores não acontece apenas quando a criança já domina completamente a ortografia e a gramática. A postura autoral começa a ser construída quando a criança percebe que suas ideias possuem valor, que pode dizer algo por meio da escrita e que seus textos podem ser lidos, compartilhados, discutidos e apreciados por outras pessoas.
A ESCRITA NOS ANOS INICIAIS: PARA ALÉM DO DOMÍNIO DO CÓDIGO
Durante muito tempo, o ensino da escrita esteve fortemente associado à ideia de reprodução. A criança aprendia primeiro as letras, depois as sílabas, posteriormente as palavras e, em seguida, frases e textos. Nessa perspectiva, escrever corretamente era frequentemente considerado o principal objetivo da aprendizagem.
Embora o domínio do sistema alfabético seja indispensável, a escrita possui uma dimensão muito mais ampla. Escrever envolve produzir sentidos, escolher palavras, organizar ideias, considerar um interlocutor, selecionar determinado gênero textual e decidir como aquilo que se pretende comunicar será apresentado.
Por isso, alfabetizar e ensinar a produzir textos são processos que precisam estar articulados. A criança pode aprender o funcionamento do sistema de escrita ao mesmo tempo em que participa de situações reais de leitura e produção textual.
Soares (2003) contribui para essa compreensão ao diferenciar alfabetização e letramento, mostrando que a apropriação do sistema de escrita precisa estar relacionada ao uso social da leitura e da escrita. Assim, não basta saber decodificar ou registrar palavras; é necessário compreender para que se lê e para que se escreve.
Nesse sentido, uma criança que escreve uma lista de brinquedos para organizar uma brincadeira está realizando uma prática de escrita. Da mesma maneira, quando escreve um bilhete para alguém da família, cria uma história, produz uma legenda para um desenho ou registra uma experiência vivida, está compreendendo que a escrita possui uma função comunicativa.
O ensino da escrita precisa, portanto, possibilitar experiências diversificadas. Em vez de perguntar somente "qual letra vem agora?", é importante também perguntar: "O que você quer escrever?", "Para quem vamos escrever?", "O que queremos contar?", "Como podemos começar?", "Que palavras podem ajudar a transmitir essa ideia?".
Essas perguntas deslocam o foco da escrita enquanto simples reprodução para a escrita enquanto atividade intelectual e comunicativa.
A produção textual, conforme apontam estudos sobre o ensino da escrita nos anos iniciais, precisa ser sistematizada e contextualizada para que tenha significado para os estudantes. Isso significa que a criatividade não deve ser colocada em oposição ao ensino sistemático. Pelo contrário, o professor pode ensinar planejamento, organização textual, revisão, ampliação de vocabulário e aspectos linguísticos enquanto oferece espaço para a criança criar.
A escola precisa ensinar a criança a escrever, mas também precisa criar situações nas quais ela tenha motivos para escrever.
A CULTURA DA CÓPIA E SEUS LIMITES
A cópia pode desempenhar determinadas funções pedagógicas. Copiar uma palavra, observar a formação de letras ou registrar uma frase pode contribuir, em algumas situações, para a familiarização com a escrita. O problema ocorre quando a cópia ocupa a maior parte das experiências de escrita oferecidas às crianças.
Quando a criança passa grande parte de seu tempo escolar copiando, pode desenvolver a compreensão de que escrever significa reproduzir algo que já foi produzido por outra pessoa. Nesse modelo, a iniciativa está no professor, no livro ou na atividade, enquanto ao aluno cabe executar.
Essa prática pode ser particularmente problemática quando o objetivo é desenvolver autoria. Afinal, não existe autoria quando a criança simplesmente reproduz uma produção que não lhe pertence.
A autoria pressupõe escolhas. O sujeito autor decide o que dizer, como dizer, para quem dizer e quais recursos utilizar. Mesmo uma pequena história produzida por uma criança em processo de alfabetização pode apresentar escolhas autorais importantes.
A criança pode decidir que seu personagem será um cachorro aventureiro, que a história acontecerá em uma floresta e que o final será engraçado. Pode escolher determinadas palavras, alterar uma situação conhecida ou criar um acontecimento inesperado. Essas escolhas constituem manifestações de autoria.
Estudos sobre produção textual nos anos iniciais mostram justamente a importância de criar situações em que os estudantes possam se envolver em práticas significativas de produção escrita, superando uma abordagem excessivamente concentrada nos aspectos formais.
Isso não significa eliminar atividades de cópia. Significa estabelecer equilíbrio e, principalmente, garantir que a cópia não seja confundida com produção textual.
Uma criança que copia dez frases pode ter realizado um exercício de registro gráfico. Uma criança que escreve três frases próprias sobre uma experiência vivenciada pode ter realizado uma atividade muito mais significativa de produção de sentidos, mesmo que apresente erros ortográficos.
Nesse sentido, o erro precisa ser compreendido como parte do processo de aprendizagem. Se a criança acredita que só pode escrever quando souber escrever "corretamente", pode desenvolver medo de experimentar.
A escola precisa construir um ambiente no qual seja possível tentar, errar, modificar, perguntar e reescrever.
A CRIANÇA COMO SUJEITO-AUTORA
Pensar a criança como autora significa reconhecer sua capacidade de produzir sentidos e participar ativamente das práticas de linguagem.
A autoria não aparece somente quando o aluno produz um texto longo, ortograficamente correto ou literariamente sofisticado. Ela pode aparecer em uma frase, em uma escolha de personagem, em uma palavra inventada, em um final diferente, em uma legenda, em um desenho acompanhado de escrita ou em uma narrativa oral posteriormente registrada pelo professor.
Estudos específicos sobre autoria na escrita literária infantil demonstram que é possível favorecer a emergência da postura autoral nos anos iniciais por meio de condições didático-metodológicas adequadas. Uma pesquisa realizada com estudantes do 5º ano, por exemplo, investigou justamente as condições necessárias para favorecer a autoria em textos literários produzidos por crianças.
Outro estudo sobre alunos-autores nas séries iniciais demonstra que o professor pode trabalhar características dos gêneros literários sem retirar das crianças a possibilidade de criação. Elementos como personagens, narrador, espaço, tempo, sequência narrativa e ponto de vista podem funcionar como recursos para orientar a produção, e não como modelos rígidos para serem simplesmente copiados.
Essa diferença é fundamental.
Ensinar que uma história possui começo, desenvolvimento e desfecho não significa obrigar todas as crianças a produzir histórias iguais. Pelo contrário, conhecer a estrutura narrativa pode ampliar as possibilidades de criação.
O professor pode apresentar diferentes histórias, comparar personagens, observar finais, discutir diferentes formas de começar uma narrativa e, depois, convidar as crianças a produzir suas próprias versões.
Nesse processo, a leitura exerce papel essencial.
A criança precisa ter contato com bons textos para desenvolver repertório. Quanto mais histórias ouve e lê, mais possibilidades encontra para imaginar situações, conhecer palavras, perceber estruturas narrativas e experimentar diferentes formas de expressão.
A leitura e a escrita, portanto, não devem ser trabalhadas como atividades isoladas.
Quem lê encontra possibilidades de escrita.
Quem escreve passa a observar a leitura de outra maneira.
Quem ouve histórias amplia sua capacidade de narrar.
Quem narra desenvolve recursos para escrever.
ESCRITA CRIATIVA: CONCEITO E POSSIBILIDADES PEDAGÓGICAS
A escrita criativa pode ser compreendida como uma prática de produção textual que estimula a imaginação, a experimentação da linguagem, a criação de sentidos e a expressão pessoal.
No contexto escolar, ela pode envolver diferentes gêneros e propostas: histórias, poemas, cartas, bilhetes, diários, quadrinhos, finais alternativos, personagens, pequenos livros, relatos, descrições, parlendas, cantigas recriadas, textos coletivos e produções multimodais.
Uma revisão sistemática sobre escrita criativa na educação básica latino-americana identificou experiências envolvendo produção textual, pesquisa-ação, ferramentas virtuais e diferentes linguagens artísticas, destacando o potencial da escrita criativa como proposta de inovação pedagógica.
A escrita criativa também não precisa estar restrita à produção de histórias fictícias. A criança pode escrever criativamente sobre situações reais.
Por exemplo:
"Se eu pudesse conversar com uma árvore..."
"O que meu brinquedo faria enquanto eu estou na escola?"
"Uma carta para mim quando eu for adulto."
"O dia em que a escola ficou de cabeça para baixo."
"Se os animais pudessem falar..."
"Meu lugar favorito no mundo."
"O que eu mudaria na minha cidade?"
"Uma notícia muito estranha aconteceu hoje."
Propostas como essas permitem que a criança produza linguagem a partir de perguntas abertas.
O professor pode utilizar imagens, objetos, músicas, sons, histórias, fotografias, brincadeiras e acontecimentos cotidianos como disparadores.
Uma caixa misteriosa, por exemplo, pode conter um objeto desconhecido. As crianças podem observá-lo e imaginar quem o utilizou, de onde veio e que história possui.
Uma imagem pode ser utilizada para criar personagens.
Uma música pode gerar uma narrativa.
Uma visita à biblioteca pode resultar em um diário.
Uma situação ocorrida no recreio pode ser transformada em notícia.
Uma história conhecida pode receber um novo final.
O importante é que exista uma intenção comunicativa e espaço para escolhas.
O PAPEL DA LEITURA NA FORMAÇÃO DO ESCRITOR MIRIM
Não é possível pensar o desenvolvimento da escrita criativa sem considerar a leitura.
A leitura oferece repertório linguístico, cultural e imaginativo. Ao entrar em contato com diferentes autores, gêneros, personagens e estilos, a criança percebe que existem inúmeras formas de contar uma história.
A literatura infantil possui papel privilegiado nesse processo porque permite que a criança experimente diferentes mundos e perspectivas.
Histórias podem ser lidas não apenas para responder perguntas de interpretação, mas para despertar novas possibilidades de criação.
Depois da leitura de um conto, por exemplo, o professor pode perguntar:
"Como seria essa história se o personagem fosse uma criança?"
"E se a história acontecesse em nossa cidade?"
"E se o personagem tivesse escolhido outro caminho?"
"Como seria a história contada pelo vilão?"
"Que outro final poderíamos criar?"
Essas perguntas transformam a leitura em ponto de partida para a autoria.
A literatura deixa de ser apenas objeto de compreensão e passa também a ser espaço de experimentação da linguagem.
A aproximação entre literatura e autoria pode favorecer práticas nas quais os estudantes não apenas analisam textos literários, mas experimentam a criação e a ressignificação de discursos.
A leitura em voz alta realizada pelo professor também é importante. Mesmo quando ainda não conseguem ler convencionalmente, as crianças podem participar intensamente da cultura escrita por meio da escuta.
Ao ouvir histórias, elas aprendem que os textos possuem ritmo, personagens, conflitos, descrições, diálogos e diferentes formas de organização.
Dessa maneira, a leitura diária pode se tornar uma das principais estratégias para estimular a escrita criativa.
O PROFESSOR COMO MEDIADOR DA AUTORIA
O papel do professor é fundamental para que a criança desenvolva uma relação autoral com a escrita.
Isso significa que o professor não deve simplesmente entregar uma proposta e esperar que todos produzam textos de maneira independente. É necessário criar condições para a escrita acontecer.
O professor pode atuar como escriba, leitor, interlocutor, organizador e mediador.
Nos primeiros momentos da alfabetização, por exemplo, uma criança pode contar oralmente uma história enquanto o professor a registra. Posteriormente, a criança pode participar da escolha das palavras, reconhecer palavras conhecidas e tentar escrever algumas partes.
Essa prática é particularmente importante porque demonstra à criança que aquilo que ela fala pode ser transformado em texto escrito.
A BNCC contempla situações em que o professor atua como escriba durante a produção de histórias imaginadas e recontos, especialmente nos primeiros anos.
O professor também pode realizar produção coletiva.
Em uma atividade, pode perguntar:
"Como nossa história vai começar?"
As crianças apresentam ideias.
Depois:
"Quem será o personagem?"
"Qual será o problema?"
"Como ele vai resolver?"
O professor registra as sugestões no quadro e, junto com a turma, constrói o texto.
Posteriormente, cada criança pode produzir sua própria história.
Essa sequência possibilita compreender que escrever envolve planejamento e escolhas.
O professor também precisa aprender a fazer intervenções que não apaguem a autoria.
Ao corrigir uma produção infantil, é necessário cuidado para não substituir a escrita da criança pela escrita do adulto. Em vez de simplesmente reescrever o texto inteiro, o professor pode conversar sobre determinados trechos, perguntar o que a criança quis dizer, ajudá-la a localizar informações ou propor alternativas.
A revisão, assim, torna-se parte do processo de escrita.
PLANEJAR, ESCREVER, REVISAR E REESCREVER
Uma das ideias importantes para o ensino da escrita é que escrever não é um ato realizado de uma única vez.
Escritores adultos planejam, escrevem, revisam, modificam, cortam, acrescentam e reescrevem.
As crianças também podem vivenciar esse processo, desde que ele seja adaptado à sua faixa etária.
O planejamento pode começar oralmente.
Antes de escrever uma história, a turma pode conversar sobre:
Quem será o personagem?
Onde a história acontecerá?
O que acontecerá?
Qual será o problema?
Como será resolvido?
Como terminará?
As respostas podem ser desenhadas, registradas em palavras-chave ou organizadas coletivamente.
Depois ocorre a produção.
Em seguida, a revisão.
Com crianças pequenas, revisar não precisa significar realizar uma correção gramatical complexa. Pode significar reler para verificar se a história está compreensível, se falta alguma informação ou se existe uma palavra que pode ser substituída.
Em uma perspectiva contemporânea de produção textual, planejamento, elaboração, revisão e reescrita são etapas importantes do processo de escrita. Documentos pedagógicos recentes relacionados ao PNLD, por exemplo, enfatizam o uso do rascunho, a organização das ideias, a revisão e a reescrita/redesign dos textos produzidos pelos estudantes.
Esse processo contribui para que a criança compreenda que um texto pode ser melhorado sem perder sua autoria.
A primeira versão não precisa ser perfeita.
Ela precisa existir.
Depois pode ser modificada.
Essa compreensão diminui o medo de errar e favorece uma relação mais positiva com a escrita.
LUDICIDADE, IMAGINAÇÃO E ESCRITA
A ludicidade possui grande importância no trabalho com a escrita nos anos iniciais.
Brincar e criar são atividades profundamente relacionadas à infância. Por isso, propostas de escrita que incorporam elementos lúdicos podem contribuir para reduzir a sensação de obrigação e favorecer o envolvimento.
Pesquisas sobre produção textual nos anos iniciais apontam contribuições da ludicidade para a produção escrita e para o envolvimento dos alunos nas atividades.
A escrita pode ser apresentada como desafio, aventura, investigação ou brincadeira.
Por exemplo, o professor pode anunciar:
"Hoje recebemos uma carta de um personagem que precisa da nossa ajuda."
As crianças leem a carta e precisam responder.
Em outra situação:
"Encontramos um mapa misterioso. Precisamos escrever a história de quem o perdeu."
A imaginação cria uma situação comunicativa.
O professor, entretanto, precisa tomar cuidado para que a ludicidade não seja apenas uma decoração da atividade.
Não basta colocar desenhos coloridos em uma folha e chamar a proposta de lúdica.
A ludicidade precisa estar relacionada à participação ativa da criança, à criação e à produção de sentidos.
O jogo, a brincadeira e a imaginação podem funcionar como caminhos para que a criança experimente diferentes possibilidades de linguagem.
A ESCRITA CRIATIVA E A INCLUSÃO
O trabalho com escrita criativa também pode contribuir para práticas pedagógicas mais inclusivas.
As crianças apresentam diferentes ritmos de aprendizagem, experiências familiares, repertórios culturais e formas de expressão.
Uma proposta excessivamente fechada pode favorecer apenas aquelas crianças que conseguem responder exatamente ao modelo esperado.
Já uma proposta aberta pode permitir diferentes formas de participação.
Uma criança pode produzir uma frase.
Outra pode escrever um pequeno texto.
Outra pode desenhar e ditar a narrativa para o professor.
Outra pode escrever palavras-chave.
Outra pode produzir um texto mais extenso.
Todas podem participar da mesma experiência, respeitando suas possibilidades.
Essa perspectiva é especialmente importante nos anos iniciais, pois a escrita convencional se desenvolve progressivamente.
A criança não precisa esperar dominar completamente a escrita para começar a ser autora.
Ela pode ser autora enquanto aprende a escrever.
Esse princípio é fundamental.
A escrita criativa, portanto, não deve ser reservada aos alunos que "já sabem escrever". Ela pode ser utilizada justamente como instrumento para favorecer o desenvolvimento daqueles que estão construindo esse conhecimento.
AVALIAÇÃO DA ESCRITA CRIATIVA
Avaliar a escrita criativa exige repensar os critérios utilizados tradicionalmente.
Se o professor avaliar exclusivamente ortografia, pontuação e caligrafia, poderá deixar de observar aspectos importantes da produção.
É necessário considerar também:
capacidade de comunicar uma ideia;
organização das informações;
criatividade;
desenvolvimento do tema;
construção de personagens;
sequência dos acontecimentos;
utilização do vocabulário;
autonomia;
envolvimento com a proposta;
capacidade de revisar;
evolução individual.
Isso não significa deixar de ensinar ortografia e gramática.
Esses conhecimentos continuam sendo importantes.
O que muda é o momento e a maneira como são trabalhados.
Em uma primeira produção, o professor pode valorizar principalmente a capacidade de produzir sentidos. Em momentos posteriores, pode selecionar alguns aspectos linguísticos para serem trabalhados coletivamente.
Assim, a avaliação passa a acompanhar o processo.
O professor pode manter um portfólio com diferentes produções realizadas ao longo do ano.
Ao comparar os primeiros textos com os posteriores, torna-se possível observar avanços que uma atividade isolada não consegue revelar.
A criança também pode participar da avaliação, refletindo:
"Do que gostei no meu texto?"
"O que consegui fazer?"
"O que gostaria de melhorar?"
"Qual parte foi mais divertida?"
Essa prática contribui para desenvolver consciência sobre o próprio processo de aprendizagem.
DESAFIOS PARA A IMPLEMENTAÇÃO DA ESCRITA CRIATIVA
Embora a escrita criativa apresente diversas possibilidades, sua implementação pode enfrentar desafios.
Um deles é a falta de tempo.
A rotina escolar é extensa e envolve diferentes componentes curriculares, habilidades e demandas administrativas.
Entretanto, a escrita criativa não precisa constituir um projeto separado de todas as outras aprendizagens.
Ela pode estar integrada aos diferentes componentes.
Uma história sobre animais pode articular Língua Portuguesa e Ciências.
Uma produção sobre o bairro pode envolver Geografia.
Um diário de experiências pode acompanhar Matemática ou Ciências.
Um poema pode dialogar com Arte.
Outro desafio é a formação docente.
Para trabalhar autoria, o professor também precisa sentir-se seguro para permitir que os estudantes produzam textos diferentes.
Quando existe preocupação excessiva em obter respostas padronizadas, a criatividade tende a ser reduzida.
Também é necessário superar a ideia de que uma boa produção infantil é aquela que apresenta a mesma estrutura para todos.
As crianças precisam ter espaço para produzir textos diferentes.
O professor pode oferecer parâmetros, mas não precisa determinar cada detalhe da produção.
Estudos sobre autoria na Educação Básica apontam justamente a necessidade de proporcionar experiências reais com a linguagem, evitando reduzir a produção textual a exercícios meramente escolares.
Outro desafio está relacionado à própria cultura escolar.
Se durante todo o ano a criança realiza atividades de cópia e reprodução, pode estranhar inicialmente uma proposta aberta.
Por isso, a mudança precisa ser gradual.
É possível começar com pequenas experiências:
uma frase inventada;
um título diferente;
uma legenda;
um final alternativo;
uma personagem;
um pequeno bilhete.
Aos poucos, essas experiências podem se transformar em projetos maiores.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O ensino da escrita nos anos iniciais precisa ultrapassar a compreensão de que escrever significa copiar, reproduzir ou preencher atividades.
A criança precisa aprender o sistema de escrita, mas também precisa aprender que a escrita pode ser utilizada para dizer aquilo que pensa, sente, imagina e deseja comunicar.
Nesse processo, a escrita criativa apresenta-se como uma possibilidade importante para a formação de sujeitos autores.
Estimular a autoria desde cedo significa reconhecer que a criança possui voz, ideias, experiências e capacidade de produzir sentidos. Significa oferecer situações nas quais ela possa escrever antes mesmo de dominar completamente todas as convenções da língua.
Isso não significa abandonar o ensino da ortografia, da gramática, da estrutura textual ou da organização da escrita. Significa colocar esses conhecimentos a serviço da comunicação e da autoria.
O professor continua exercendo papel fundamental. É ele quem organiza situações de aprendizagem, oferece repertório, lê histórias, provoca perguntas, ajuda a planejar, orienta a revisão e cria oportunidades de circulação dos textos.
A diferença está em não ocupar sozinho o lugar de autor.
O professor não precisa dizer exatamente o que a criança deve escrever.
Pode ajudá-la a descobrir o que deseja dizer.
Essa mudança aparentemente simples representa uma transformação profunda na maneira de ensinar.
Em vez de perguntar somente "Você copiou corretamente?", a escola pode perguntar:
"O que você quis contar?"
"Como podemos deixar sua história ainda mais interessante?"
"Quem vai ler o que você escreveu?"
"Que outra palavra você poderia usar?"
"Você gostaria de mudar alguma parte?"
Essas perguntas colocam a criança no centro do processo de produção.
A escrita criativa também contribui para uma concepção mais humanizada da alfabetização. Quando a criança percebe que suas produções são valorizadas, desenvolve maior confiança para experimentar a linguagem.
A autoria, portanto, não deve ser entendida como algo reservado aos escritores adultos. Ela começa a ser construída nas pequenas escolhas que a criança realiza ao produzir linguagem.
Uma criança que inventa uma história é autora.
Uma criança que cria um personagem é autora.
Uma criança que escreve um bilhete para alguém é autora.
Uma criança que muda o final de uma história é autora.
Uma criança que registra uma experiência com suas próprias palavras está exercitando autoria.
Cabe à escola reconhecer e ampliar essas possibilidades.
Superar a cultura da cópia não significa eliminar a reprodução de modelos quando ela possui função pedagógica. Significa impedir que a reprodução seja a experiência predominante de escrita.
A escola precisa ensinar a criança a copiar quando necessário, mas precisa, sobretudo, ensinar que ela pode criar.
Precisa ensinar a criança a escrever corretamente, mas também precisa mostrar que existe algo que somente ela pode dizer daquela maneira.
Assim, o ensino da escrita criativa nos anos iniciais pode contribuir para formar não apenas alunos que sabem escrever, mas sujeitos que compreendem a escrita como instrumento de expressão, participação, criação e transformação.
A criança que aprende desde cedo que suas palavras têm valor encontra na escrita não apenas uma obrigação escolar, mas uma possibilidade de existência, comunicação e autoria.
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