O Brasil na Era do Cinismo

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 28/06/2026 | Política

Estamos no ano de 2026, uma época de eleições presidenciais. Parece, por óbvio, que o nosso sistema e modo de vida, enquanto nação pretendente ao ingresso no seleto clube dos sistemas jurídicos mais justos do planeta, resta esgarçado. Nossas leis, guiadas por uma Constituição tosca e caricata, e, em vários casos, demagoga, carece de mecanismos que façam jorrar, sobre o país, mais prosperidade que problemas. Mas, num ponto, sinto que o nosso pergaminho fundamental deveria ser intocável: a proibição do trabalho de crianças.

Para mim, e boa parte da população, dita determinação é inegociável. Inobstante, um dos candidatos direitistas ao cargo máximo, senhor Romeu Zema, teve a desfaçatez de propor uma mudança que elimine a proteção. Seu pretexto não poderia ser mais tolo: para ele, crianças devem “ajudar” as famílias. Creio que a ajuda deva se circunscrever à manutenção salubre do ambiente doméstico, com arrumação das próprias camas, a ajuda na colheita de alimentos no quintal de casa e o ensino, por parte dos pais, do preparo da própria comida. Mas não é só isso que o senhor Zema quer. Contrariando toda uma história de tratados internacionais, que desde o séculos da Idade Moderna foram gradualmente suprimindo as atividades dos pequenos em fábricas, comércios e quaisquer meios de produção e fora do âmbito de proteção familiar desde os casos mais terríveis da Revolução Industrial, Zema se supera.

Aqueles tratados, em tempos nos quais a comunicação se revelava primitiva, não muito efeito surtiram sobre territórios em que ainda existiam regimes escravocratas, ou, hoje, regiões em que crianças são vistas fazendo malabarismos ou vendendo balas nos semáforos das metrópoles. Ou em que assumem funções que podem render sérios danos às mãos, a exemplo das lesões por esforços repetitivos, quando operam caixas de supermercados, ou a carregar peso que pode lesionar a coluna vertebral. Mas, tudo bem. Zema só quer que elas ajudem suas famílias, e não que o governo as subsidie (sob a falsa alegação de que trata-se de “assistencialismo”). E, como o Brasil possui as maiores estatísticas de acidentes do trabalho, imagine os que trabalham nos semáforos sofrerem atropelamentos, ou os pequenos caixas de supermercado perceberem seus dedos suados e tremendo, numa reação do sistema nervoso ao estresse (dependendo do caso e do organismo, pode até haver amputações), bem como a aquisição de lordoses e escolioses na coluna. Zema poderia mencionar, também, os menores que, no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, trabalham em carvoarias. Nesse caso, pode até exigir o fim do Ministério Público do Trabalho e do Ministério do Trabalho e Emprego, para que não houvesse o resgate: afinal, isso atrapalharia os negócios dos criminosos que lucram, e alto, com essas sucursais do inferno, e que apoiam a direita financeiramente.

Senhor Zema, és patético. Patético e fascista (não o alcunho de um adjetivo referente aos membros de ideologia contemporânea e similar ao fascismo porque seria covardia lembrá-lo que nos campos da morte da Europa as crianças judias também eram escravizadas). Só lhe peço que vá no mais tristemente famoso daqueles campos, e para cá traga a inscrição de seu portão de entrada, que diz, em alemão, "o trabalho liberta”. Traga-a e a coloque na entrada do Congresso Nacional. Se isso surtir efeito nos representantes do povo e dos Estados, acreditarei que você não é hipócrita, acreditando mesmo no que propõe. Mas, mesmo assim, eu jamais votaria em você.