Nosso Patrimônio Histórico Móvel: Tesouros do Brasil
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 30/07/2026 | HistóriaNo mundo, um dos fenômenos psicológicos mais difundidos é a estereotipia. Há estereótipos em relação a grupos, indivíduos e, até mesmo, atitudes. Em relação às últimas, resta o senso comum a dizer que, para viver a história de facto, deve-se sair do Brasil, eis que um país novo e sem muita história. Nada tão e totalmente falso.
Há muitos e muitos exemplos, no Brasil, de relíquias históricas imóveis. Desde as construções do Pelourinho, em Salvador, até as igrejas barrocas de Minas Gerais. Desde a arquitetura portuguesa e azulejada de São Luís até o Centro do Rio de Janeiro. E é aqui que concentrar-me-ei.
Temos, no Rio de Janeiro, a maior biblioteca pública da América Latina, por si só um imponente e vistoso edifício na nobre Avenida Rio Branco. E, no seu interior, há objetos que, para quaisquer historiadores, são verdadeiros tesouros.
Johannes Gutemberg, cientista romano-germânico que viveu entre 1400 e 1468, foi o inventor da prensa. De sua invenção, marco do início da produção em massa de livros no Ocidente, saíram as primeiras Bíblias impressas e traduzidas do grego ao latim, num total de cento e cinquenta a cento e oitenta unidades. O trabalho de produção terminou em 1455 e, por razões diversas, os exemplares foram parar em diversas partes do mundo. Na nossa Biblioteca Nacional há uma original daquele lote, não pessoalmente impressa por Gutemberg, mas pelas pessoas de dois ex-sócios: Johann Fust e Peter Schoffer. O exemplar pertence ao início da produção do lote, sendo, portanto, uma das primeiras Bíblias impressas no Ocidente. Assim, o fato de não ter sido Gutenberg a, diretamente, imprimi-la, em nada diminui seu valor. Ao contrário. Os exemplares impressos por Gutenberg seriam a evidência de uma eventual produção em massa realizada individualmente, o que é contraditado pela prova definitiva, materializada no trabalho dos ex-sócios, que indica ter sido a prensa, apenas, o incipiente início do ofício industrializado, eis que ainda demandador do labor grupal. E essa Bíblia está aqui, a poucos quilômetros deste escritório. Ela é minha, é sua, é nossa. Ela é do Brasil.
Da invenção de Gutenberg chegou à Biblioteca Nacional um exemplar do livro mais ilustrado do mundo. "Crônica de Nuremberg", publicado em 1493 pelo também romano-germânico Hartmann Schedel. A obra, com ilustrações que, somadas, totalizam cerca de mil e seiscentas gravuras, tenciona contar a história do mundo em sete partes, desde o início dos tempos até a então recém-extinta Idade Média, incluindo suas criaturas mitológicas. Nos dias de hoje, sobrevivem cerca de mil duzentas e cinquenta unidades, e essa, na Biblioteca Nacional, é propriedade do Brasil.
Além disso, também há um exemplar da Bíblia Poliglota de Antuérpia, de 1569, cujo autor foi Cristóvão Cristóvão Plantin, um dos mais famosos impressores do século XVI. O patrocínio das impressões fora fornecido por Filipe II, Rei da Espanha e da União Ibérica (e, por conseguinte, do Estado do Brasil, controlado e dominado pela metrópole espanhola até o fim da fusão com Portugal, em 1640). Prova-se, assim, que houve um monarca do Brasil, anterior a D. Pedro II, também cultivador da intelectualidade, eis que mecenas de um dos primeiros livros sagrados e multilinguísticos do Ocidente.
Por outro lado, têm-se um exemplar da primeira edição do épico "Os Lusíadas", de Camões, publicado em 1572, bem como uma cópia do primeiro jornal impresso do mundo, em 1601, e a original escrita, em grego, dos textos dos Quatro Evangelhos num pergaminho do século XI. No âmbito específico da história do Brasil, há inúmeros documentos assinados por pessoas como D. Pedro II, Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado. E muito mais.
O Brasil (e, especialmente, o Rio de Janeiro) são riquíssimos em história, não obstante suas, ainda, curtas trajetórias cronológicas como entidades políticas. Improcedem quaisquer argumentos contrários. Somos, não somente, celeiros da humanidade, mas reais celeiros da própria e verdadeira cultura humana.