Dia desses eu resolvi comer um lanchão. Daqueles bem sebosões mesmo, do nosso favorito, o "Joe". "Joe" faz um sanduba no capricho, gorduroso, mas muito bom, o melhor que já comi. Tomei uma coca-cola de 600mL, e pedi uma porção extra de chips - aquelas batatas fritas que são fritas, depois fatiadas e fritas de novo. E ketchup. A ocasião? Promoção no trabalho de um familiar. 

Quando fui dormir naquele dia, depois de um banho quentinho e pijamas novinhos, fronhas trocadas limpíssimas na minha cama abençoada, eu chorei. Mas não chorei pouco não: eu desabei, as fronhas ficaram enxarcadas e até o lençol embaixo do travesseiro estava molhado. A minha camisola ficou gelada e o meu rosto ardia de tantas lágrimas. É que eu tinha lembrado que era gorda. Eu me amaldiçoei e me condenei, e me odiei, e foi aí que pensei... Por que eu tenho que ser gorda? 

Eu me arrependi de ter comido o sandubão, de ter tomado a coca-cola, de ter comido arroz e mandioca no mesmo prato, de ter comido macarrão com queijo, de ter pedido fritas, e ódio até do chocolatinho após o almoço. Um ódio muito intenso, vergonha humilhante. 

Já haviam se passado mais de duas horas desde o momento que resolvi deitar. Eu fazia exercícios diariamente desde a minha infância - eu era jogadora de handball nos tempos de escola, já competi no Vale do Paraíba, eu praticava mountain bike, eu era nadadora desde bebê. Depois de um ano pouco convencional na minha vida, engordei 45kg e nunca mais os perdi novamente. Mas não importava o que eu fizesse, nunca conseguia emagrecer. "Bom", pensei eu, "isso só pode ser por causa dos meus hábitos nojentos de alimentação". 

Eu já fiz diversas dietas, mas nunca duravam mais de uma semana, porque eu me cansava na hora - sou de áries. Eu normalmente como o que quero - como arroz, feijão, macarrão, sopa, frutas, miojo, legumes, proteínas de origem animal e vegetal, sucos, refrigerantes, pão, pão, pão. Eu não analiso, planejo e faço lista do que vou comer todo dia. Não sou assim. 

Naquela noite, enquanto eu estava ensopada de lágrimas salgadas e grudentas, uma coisa me ocorreu... por que eu comia aquelas bobeiras? 

Mas aí começou o flashback, e ele não era o que eu esperava. Quer saber o que eu comi, e quando?

Com 5 anos, no meu aniversário, frio para caramba, umas oito da noite, meus pais me falaram para colocar blusa e calça de moletom, porque a gente ia sair. Sem saber do que se tratava, fiz o que fora pedido e saímos de carro. Estacionamos num lugar do qual eu não me recordava e entramos. Era uma pastelaria. Sentamos na mesa, pedimos coxinha, pastelzinho e um bolinho. Cantamos parabéns ali mesmo. Eu me entupi de coxinha. Foram as melhores coxinhas da minha vida. E foi de surpresa. No meu aniversário, meus pais e eu. 

Com 8 anos, um ano antes de nascer minha irmã, fui fazer uma endoscopia que estava agendada para as 16h - uma tortura para uma criança! Eu tinha ficado de jejum o dia todo, e já era uma gourmande desde a infância - adoro comer! Meus avós estavam lá, e juraram que assim que eu saísse da endoscopia iriam me fazer a famosa sopinha de legumes com carne que eu AMAVA. Como prometido, comi a sopinha deliciosa acompanhada de um pãozinho francês fresquinho. Até sinto o gosto.

Falar em pão? Quando bebê, uns 3 aninhos, meu avô por parte de pai falava para meus dois primos e eu fazermos fila educadamente. Para quê? Ele cortava pão italiano fresquinho em cubos pequenos, passava manteiga e dava na boca de cada um de nós, que revezávamos na fila respeitosamente até encher. Hoje ele não está mais aqui nesse plano, mas na ponta da língua resta a memória do gostinho do pãozinho.

No período estressante de ensino médio, no 1º ano, toda quinta-feira, meu tio, minha mãe, minha irmãzinha e eu sentávamos no sofá da sala, ligávamos nosso PS2 para jogar um jogo chamado "Obscure" comendo uns salgados da rotisseria "Julia" que entregava para a gente na hora, tudo fresquinho. Sentávamos no tapete, no sofá, tínhamos até um puff gigante em formato de bola de basketball. Era de dois jogadores: meu tio um, e eu o dois. Eu era super medrosa, e minha mãe dava uns gritos fenomenais. Minha irmã, sempre séria, ficava compenetrada observando o jogo. Meu tio acabava sempre me resgatando dos monstros. 

Um ano, ao voltar de viagem, eu estava meio doentinha. Minha avó atravessou a cidade - literalmente - e veio me fazer o franguinho maravilhoso dela. Ele é feito no óleo e depois grelhado em mais óleo. E depois esse óleo era usado no arroz. É muito óleo. Mas meu amigo, é muito boa essa comida. E ela largou tudo e veio me cozinhar isso porque eu estava precisando - não só de alimento, mas principalmente de afeto.

Na páscoa, é obrigatório visitar meu avô. E quando a gente vai lá, tem algo que não tem como resistir: uma merluzinha fritíssima. E no domingo de páscoa, churrasco, lasanha, refrigerante, gelatina de abacaxi da minha tia, salada de maionese dos meus tios, carne louca, batata de festa... É para se esbaldar. E a união da família enorme e inteira presente quebra qualquer jejum.

Quando morava num prédio no interior de São Paulo, várias crianças brincavam comigo. Um dia, cada um tinha uns 5 reais, e decidimos ir numa locadora - sim, faz tempo - comprar quitutes. Um comprou biscoito de água e sal, outro comprou uma embalagem de patê, outro comprou sorvete para todos nós e eu comprei peixes que se deixasse na água por algumas horas, viravam um peixão. Eu brincava naquela época das dez da manhã até as dez da noite.

No meu aniversário, há poucos anos, a minha melhor amiga que havia se mudado para 1000km de distância de mim veio me visitar, e fomos na pizzaria 1900 comer uma magnífica mozzarella com azeitinho por cima e um guaranázão geladíssimo, bem brasileiro. E depois um petit gateau perigosíssimo, com calda de chocolate. Voltamos depois para casa e jogamos até meia-noite "Gang Beasts". 

Finalmente, por que tudo isso? Basicamente, essas lembranças foram o motivo de eu parar de chorar naquela noite. Eu dormi feliz e contente. 

Mas e aí? Eu engordei esses 45kg por causa disso tudo, esses "hábitos deploráveis de alimentação?". Será mesmo? Não, eu com certeza discordo. Esses momentos, esses encontros entre família e amigos foram o que me manteve de pé. 

Eu abriria mão de algum desses momentos para "não ter engordado"? Definitivamente não. Eu não abriria mão de nada. 

Nas semanas seguintes, depois de ter aceitado que dieta não é tudo, que emagrecer não é tudo, que eu não tinha que me odiar por ter comido, as coisas mudaram. Curiosamente, eu comecei a perder peso. Em um mês e meio, perdi 5kg. No final das contas, o que estava me deixando gorda não era o sandubão do "Joe" - era, na verdade, o peso da pressão e culpa que eu tinha em mim. Credo, gente, ela pesa para burro! Não recomendo para ninguém.