Sempre ouvi dizer que as mães judias são as mulheres mais apegadas aos filhos e que somente no dia do casamento, o filho quebra a taça como símbolo da ruptura com o cordão umbilical. Proust, em “A procura do tempo perdido”, sugere que ele tinha uma relação edipiana com a mãe. Não conseguiu romper o cordão que o ligava a ela e assim permaneceu por toda sua vida. Mas todas as mães são iguais, pelo menos as normais. Sejam elas brasileiras, italianas, japonesas ou de qualquer lugar do mundo, o instinto protetor parece estar presente no DNA.

Às vezes dá a impressão que são muito possessivas, egoístas, mas não é só isso.  Elas sempre lembram que geraram e cuidaram durante tanto tempo de suas crias e depois vem uma fulana qualquer para tomar o seu lugar. Não deve ser fácil ser substituída.  “Mãe, ninguém substitui você no meu coração. Você tem um lugarzinho que ninguém mexe”, gostava de dizer um amigo para neutralizar os ciúmes da mama com suas namoradas.

Um velho amigo, o Sinésio Dozzi Tezza, diverte a turma com a história de um filho de mãe italiana, daquelas mais radicais do que as mães judias que dizia para o filho que ia sair com a primeira namorada: “Olha filho querido, se você quer mesmo sair com essa putana, pode ir, eu não me incomodo. Mãe nasceu para sofrer. Quando você chegar e, por acaso, eu já estiver morta e gelada no sofá, não precisa nem chamar a funerária. Eu não me importo. Mas você, filho querido, pode abrir a geladeira que ainda vai encontrar umas porpetas que eu preparei com todo o carinho do mundo pra você”. Se depois de um discurso como esse, você ainda conseguir sair de casa, já pode ser considerado um homem, pois já se libertou do cordão umbilical.

Mas minha mãe, bem brasileira, com um distante antepassado português cristão-novo se superou ao comentar com minha sogra, no dia do meu enlace: “Se o casamento não der certo, tudo bem, o meu filho pode voltar para casa que a cama dele estará sempre esperando arrumada”. Nunca comentei essa história com ela para evitar constrangimentos, mas paguei o mico.

Ao escrever sobre as mães, é impossível não se lembrar da triste passagem do filme “A Escolha de Sofia”, em que uma mãe precisa escolher um dos filhos para salvá-lo da câmara de gás durante o nazismo. É cruel dizer isso, mas toda mãe sempre tem o filho preferido, por mais que negue isso. E Sofia escolheu o mais amado, mesmo que isso tenha lhe custado a pior dor do mundo.

Enfim, as mães tem sido tema da literatura desde os heroicos tempos gregos que deu origem a tragédia Édipo Rei de Sófocles de 427 a.C. Nessa ficção, o destino reserva a Édipo a pior desgraça: matar o pai e se casar com a mãe.  E Freud utiliza essa tragédia como base para a sua teoria psicanalítica em que os filhos desejam a mãe exclusivamente para eles e querem, inconscientemente, se livrar dos pais para satisfazer esse desejo.

E existem, também, os filhos que nutrem um amor filial tão grande que não conseguem amar outras mulheres, pois a figura materna está sempre presente e insubstituível.  Isso também é explicado por Freud.

Os filhos são gerados nas mães e fazem parte dela e elas deles. Só depois de algum tempo os filhos descobrem-se indivíduos e não parte das mães. Até então as consideram como parte ou extensão deles. Para o psicanalista Eugene Enriquez a criança é constituída como indivíduo pelo olhar da mãe sobre ela e pelo discurso que a designa como ser único. Assim, nós só podemos nos ver porque a mãe nos vê e nos fala de nós.

Enfim, mãe é sempre mãe.

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