Literatura Infantil e a Formação do Leitor: o Papel da Escola e da Família
Por Everson Augusto Marques | 25/09/2026 | EducaçãoEVERSON AUGUSTO MARQUES
ELAINE CRISTINA CAVICCHIOLI
GABRIELA ARAUJO GRACIANO
Literatura Infantil e a Formação do Leitor: o Papel da Escola e da Família
SÃO CARLOS
2026
Literatura Infantil e a Formação do Leitor: o Papel da Escola e da Família
Resumo
A literatura infantil desempenha papel fundamental no desenvolvimento integral da criança, contribuindo para a formação do leitor, para a ampliação da imaginação, da criatividade e da capacidade de compreender diferentes experiências humanas. Este artigo discute a importância da literatura infantil no contexto educacional e familiar, destacando o papel do professor e da família na aproximação da criança com os livros e com as narrativas literárias. Aborda-se também o processo histórico de constituição da literatura infantil, desde o surgimento de uma concepção diferenciada de infância até a consolidação do gênero literário destinado às crianças. Discute-se, ainda, a necessidade de que a leitura seja apresentada como experiência de prazer, descoberta e liberdade, e não apenas como instrumento pedagógico. Nesse sentido, são apresentadas práticas de leitura que podem favorecer a formação de leitores, como a leitura compartilhada, a dramatização, a utilização de fantoches, a diversidade de gêneros textuais e a organização de espaços de leitura. Conclui-se que a formação do leitor depende de uma ação conjunta entre família e escola e de uma prática pedagógica que reconheça a literatura como manifestação artística capaz de promover experiências significativas na infância.
Palavras-chave: Literatura infantil. Formação do leitor. Leitura. Infância. Escola. Família.
1. Introdução
A leitura ocupa um lugar de grande importância na formação humana e, quando introduzida desde a infância, pode contribuir significativamente para o desenvolvimento intelectual, emocional, social e cultural da criança. Entre as diferentes formas de aproximar o público infantil do universo da leitura, a literatura ocupa posição privilegiada, pois permite à criança entrar em contato com histórias, personagens, conflitos, sentimentos e diferentes formas de compreender o mundo.
As histórias infantis não devem ser compreendidas apenas como instrumentos destinados ao ensino de conteúdos escolares. Antes de qualquer finalidade pedagógica, a literatura constitui uma manifestação artística que possibilita à criança imaginar, criar, emocionar-se, divertir-se e estabelecer relações entre o mundo real e o imaginário.
Nesse processo, família e escola desempenham papéis fundamentais. A criança que convive desde cedo com livros, histórias e adultos leitores encontra maiores possibilidades de construir uma relação afetiva com a leitura. Entretanto, quando esse contato não acontece no ambiente familiar, cabe também à escola criar condições para que o aluno descubra o prazer de ler e ouvir histórias.
O professor, portanto, assume uma importante função como mediador entre a criança e o texto literário. Para exercer esse papel, precisa ser também um leitor, conhecer diferentes obras e gêneros e compreender que nem toda atividade de leitura precisa estar acompanhada de exercícios, avaliações ou cobranças de interpretação.
Este artigo tem como objetivo refletir sobre a importância da literatura infantil na formação do leitor, considerando seu desenvolvimento histórico, sua contribuição para a infância, o papel da família e da escola e algumas práticas de leitura que podem ser desenvolvidas no ambiente escolar.
2. A constituição histórica da literatura infantil
A literatura destinada especificamente às crianças consolidou-se entre o final do século XVII e o século XVIII, período marcado por profundas transformações sociais e culturais. Antes desse momento, a infância não era compreendida da mesma maneira que na sociedade moderna.
Segundo Zilberman (1985), antes do século XVIII não existia uma concepção de infância enquanto período diferenciado da vida, com características, necessidades e interesses próprios. A partir da Idade Moderna, novas concepções de família e de infância começaram a se desenvolver, aumentando a preocupação com a proteção, a educação e a formação das crianças.
Nesse contexto, a expansão da escolarização também contribuiu para o desenvolvimento da literatura infantil. A escola passou a exercer papel importante na formação das novas gerações, e os livros destinados às crianças foram frequentemente utilizados como instrumentos de transmissão de valores, comportamentos e conhecimentos.
Durante esse período inicial, muitas obras infantis apresentavam forte caráter moralizante e pedagógico. A literatura era utilizada para ensinar à criança aquilo que a sociedade considerava adequado, preparando-a para os papéis que deveria desempenhar na vida adulta.
Com o passar do tempo, entretanto, a literatura infantil começou a ampliar suas possibilidades artísticas. As obras passaram a explorar com maior intensidade a imaginação, a fantasia, o humor, a criatividade e o universo próprio da criança. A linguagem também passou a ser pensada de maneira mais adequada ao público infantil.
Essa transformação permitiu que a literatura deixasse de ser compreendida exclusivamente como instrumento educativo e passasse a ser reconhecida também como experiência estética e artística.
No século XIX, o gênero infantil ganhou ainda maior projeção com autores e obras que se tornaram referências da literatura mundial. Entre eles estão os irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, Lewis Carroll e Carlo Collodi, cujas histórias permanecem presentes no imaginário de diferentes gerações.
No Brasil, a literatura infantil também passou por um processo de desenvolvimento e consolidação. Entre os autores que contribuíram para esse percurso encontram-se Olavo Bilac, Coelho Neto, Figueiredo Pimentel e Carlos Jansen.
Nesse cenário, Monteiro Lobato ocupa lugar de destaque na história da literatura infantil brasileira. Sua produção destinada às crianças incorporou elementos da cultura brasileira, do folclore, da fantasia e do cotidiano, contribuindo para a construção de uma literatura que dialogava de maneira mais próxima com o imaginário infantil. O universo do Sítio do Picapau Amarelo e seus personagens tornou-se parte significativa da cultura literária brasileira.
3. A importância da literatura infantil na infância
Ouvir e ler histórias durante a infância são experiências fundamentais para a formação do leitor. Mesmo antes de dominar a leitura e a escrita, a criança pode estabelecer contato com os livros por meio da escuta de histórias, da observação das imagens, da interação com o adulto e da participação em situações de leitura.
A criança que ouve histórias tem a oportunidade de entrar em contato com diferentes experiências humanas. As narrativas apresentam conflitos, desafios, medos, alegrias, perdas, descobertas e possibilidades de superação. Por meio dos personagens, a criança pode reconhecer sentimentos, imaginar situações e construir diferentes interpretações sobre o mundo.
A literatura também estabelece uma importante relação entre realidade e imaginação. Ao entrar em contato com universos ficcionais, a criança pode experimentar situações que não fazem parte de sua experiência cotidiana. Dessa maneira, amplia suas possibilidades de compreender a si mesma, os outros e o ambiente em que vive.
Histórias tradicionais, como as narrativas de contos de fadas, permanecem presentes no imaginário infantil justamente porque possibilitam múltiplas interpretações e dialogam com questões humanas universais. Personagens como Cinderela, por exemplo, atravessaram gerações e continuam despertando interesse entre crianças e adultos.
Isso não significa que todas as histórias devam ser apresentadas de maneira acrítica. Cabe ao educador conhecer as obras, considerar sua linguagem, seus contextos históricos e culturais e criar oportunidades para que as crianças desenvolvam suas próprias interpretações.
Nesse sentido, a literatura infantil não precisa apresentar sempre comportamentos considerados exemplares ou oferecer uma lição moral explícita. Sua riqueza está justamente na possibilidade de provocar perguntas, emoções, descobertas e diferentes formas de imaginar.
4. Literatura infantil: prazer ou obrigação?
Um dos principais desafios da escola é evitar que a leitura literária seja associada exclusivamente à obrigação. Quando toda história é seguida de questionários, exercícios, avaliações ou cobranças de interpretação, corre-se o risco de transformar uma experiência prazerosa em uma tarefa escolar mecânica.
A leitura literária precisa preservar seu caráter de descoberta. A criança deve ter oportunidades para escolher livros, ouvir histórias, observar ilustrações, conversar sobre personagens e simplesmente desfrutar da narrativa.
Isso não significa abandonar o trabalho pedagógico com a leitura. Significa reconhecer que existem diferentes objetivos para diferentes momentos de leitura. Há situações em que o professor trabalhará aspectos linguísticos, estruturais ou interpretativos de um texto. Em outras, entretanto, a finalidade principal pode ser simplesmente proporcionar uma experiência literária.
O professor precisa compreender que o prazer pela leitura não pode ser imposto. Ele é construído gradualmente por meio de experiências significativas.
Nesse processo, a escolha das obras é fundamental. Livros adequados aos interesses, à faixa etária e às experiências das crianças podem despertar curiosidade e identificação. Por outro lado, escolhas pouco adequadas podem produzir desinteresse e afastamento.
Por essa razão, é essencial que o educador conheça a literatura infantil contemporânea, tenha contato com diferentes autores e gêneros e esteja atento à qualidade das obras disponibilizadas às crianças.
5. O papel do professor na formação do leitor
O professor possui uma responsabilidade significativa na formação de leitores. Para incentivar seus alunos, é necessário que ele próprio mantenha uma relação efetiva com a leitura.
O professor leitor constitui uma referência importante para a criança. Quando os alunos observam seu professor lendo por prazer, comentando livros, demonstrando curiosidade e compartilhando suas experiências literárias, percebem que a leitura não existe apenas como obrigação escolar.
Além disso, o professor deve oferecer aos alunos contato com diferentes gêneros e linguagens, ampliando progressivamente seu repertório. A sala de aula pode tornar-se um espaço permanente de circulação de livros e histórias.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa destacam algumas condições importantes para o desenvolvimento da prática de leitura na escola, entre elas a existência de uma boa biblioteca, a organização de acervos de classe, a realização de momentos de leitura livre, a possibilidade de escolha dos livros pelos alunos e o empréstimo de obras para leitura fora da escola (BRASIL, 1997).
Essas orientações ressaltam a necessidade de que a leitura faça parte da rotina escolar e não apareça apenas em momentos isolados.
A formação do leitor, portanto, exige continuidade. Não basta realizar eventualmente uma atividade com histórias. É necessário criar uma cultura de leitura dentro da escola, envolvendo professores, alunos, gestores e famílias.
6. Família e escola: uma responsabilidade compartilhada
Embora a escola tenha papel fundamental na formação do leitor, a família também participa desse processo. O contato com histórias pode começar muito antes da entrada da criança na escola.
Ler para uma criança, contar histórias, apresentar livros, conversar sobre personagens e observar imagens são experiências que podem contribuir para a construção de vínculos afetivos com a leitura.
A família não precisa possuir conhecimentos técnicos sobre literatura para compartilhar histórias com as crianças. O mais importante é proporcionar momentos de contato com os livros e demonstrar que a leitura pode fazer parte da vida cotidiana.
Quando a criança percebe que adultos próximos também leem, conversa sobre histórias e observa livros sendo valorizados, tende a compreender a leitura como uma prática social significativa.
Entretanto, é importante reconhecer que nem todas as famílias possuem as mesmas condições de acesso aos livros. Por isso, a escola desempenha papel essencial na democratização do acesso à literatura, oferecendo acervos, bibliotecas, empréstimos e diferentes oportunidades de leitura.
Dessa maneira, família e escola não devem ser vistas como instituições concorrentes, mas como espaços que podem atuar de forma complementar na formação do leitor.
7. Práticas de leitura na escola
Para despertar o interesse das crianças pela leitura, o professor pode desenvolver diferentes práticas, respeitando a faixa etária, os interesses e as necessidades dos alunos.
Entre as possibilidades estão:
leitura de diferentes gêneros literários;
leitura compartilhada, com o professor como modelo de leitor;
contação de histórias;
dramatização de histórias infantis;
utilização de fantoches;
representação de cenas por meio de desenhos, objetos e outros materiais;
organização de rodas de leitura;
criação de espaços permanentes de leitura na sala de aula;
empréstimo de livros para leitura em casa;
momentos de leitura livre;
incentivo para que as próprias crianças contem histórias aos colegas;
organização de pequenas bibliotecas de classe com obras variadas.
A diversidade de práticas permite que a criança perceba que a leitura pode acontecer de diferentes maneiras e em diferentes contextos.
A leitura compartilhada, por exemplo, possibilita que o professor demonstre estratégias próprias do comportamento leitor. Já a contação de histórias valoriza a oralidade, a expressão corporal e a capacidade de criar imagens mentais.
A dramatização pode favorecer a expressão das emoções e a compreensão das personagens. O uso de fantoches e outros recursos pode tornar a experiência ainda mais significativa, principalmente com crianças menores.
Entretanto, independentemente da estratégia escolhida, é importante preservar a dimensão prazerosa da experiência literária. As atividades devem aproximar a criança dos livros, e não transformar a leitura em uma sequência de tarefas obrigatórias.
8. Considerações finais
A literatura infantil constitui importante instrumento de formação humana e cultural. Seu papel ultrapassa a aprendizagem da leitura e da escrita, pois as histórias possibilitam à criança imaginar, criar, questionar, emocionar-se e compreender diferentes experiências humanas.
A formação do leitor começa antes mesmo da alfabetização formal. A criança pode tornar-se leitora ao ouvir histórias, observar livros, acompanhar a leitura realizada por um adulto e participar de situações nas quais a literatura esteja presente.
Nesse processo, a família e a escola desempenham funções complementares. A família pode proporcionar experiências afetivas de contato com histórias e livros, enquanto a escola possui a responsabilidade de garantir o acesso democrático à literatura e desenvolver práticas sistemáticas de formação de leitores.
O professor, por sua vez, precisa atuar como mediador e também como leitor. Seu conhecimento sobre literatura infantil, sua capacidade de selecionar obras e sua própria relação com a leitura podem influenciar as experiências dos alunos.
É igualmente necessário compreender que a literatura não deve ser reduzida a um instrumento para ensinar conteúdos ou transmitir comportamentos. Como manifestação artística, ela possui valor próprio e pode proporcionar à criança experiências de prazer, imaginação e liberdade.
Assim, formar leitores significa muito mais do que ensinar a decodificar palavras. Significa criar condições para que a criança estabeleça uma relação significativa com os livros e descubra na leitura uma possibilidade de conhecimento, expressão, imaginação e prazer.
Uma escola que valoriza a literatura infantil constrói, portanto, espaços nos quais as crianças podem ouvir, ler, imaginar, contar, criar e compartilhar histórias. É nesse ambiente de liberdade e mediação que a leitura pode deixar de ser apenas uma exigência escolar e transformar-se em uma prática significativa ao longo da vida.
Referências
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental, 1997.
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1931.
ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 1985.