FORMAÇÃO DOCENTE DO POVO MUNDURUKU: AVANÇOS E DESAFIOS.

Joao Paulo Silva Pessôa

Joaop022@hotmail.com

Licenciado Pleno em Pedagogia, Faculdade de Itaituba – FAI.

 

RESUMO

            Este artigo enfoca a o processo de formação docente do povo Munduruku, bem como as dificuldades que estes docentes enfrentam no ingresso as universidades de Ensino. Traz uma reflexão sobre a grade curricular dos cursos de formação e a necessidade da elaboração de Cursos Universitários especifico para a formação do Índio, ao qual respeite suas especificidades culturais, étnicas, linguística e sociais. Este artigo tem como ênfase evidenciar o processo educacional de escolas indígenas da Terra Indígena Munduruku, em Jacareacanga no Sudoeste do Estado do Pará.  Por meio de uma pesquisa bibliográfica, acrescida de uma pesquisa de campo, para constatar o processo de formação educacional do Povo Munduruku, bem como à realidade do indígena, a formação docente não indígena para o cenário indígena, além do impacto sociocultural e a educação diferenciada e bilíngue Munduruku.

Palavras - Chave: Formação – Educação – Munduruku – Educação Diferenciada.

 

INTRODUÇÃO

            O título poderá conduzir o leitor a suposições que se afastam relativamente da minha intenção sobre o conteúdo deste artigo. Na verdade, penso que nos tempos hoje vividos, muitas coisas relativas à educação não acompanharam a evolução e mudanças profundas ocorridas na sociedade. A educação escolar Indígena, surgiu com processo de catequização do Povo Munduruku. Este processo que teve início com as Missões Franciscanas pelo alto Rio Tapajós, fixando-se na Aldeia Missão região do Rio Cururu, com o passar dos anos houvesse a necessidade de formar o índio para assumir o papel de professor em suas comunidade, haja vista as especificidades linguísticas da população Munduruku. Este presente artigo, enumera problemáticas que buscam a investigação. Como é o processo de formação de um professor Munduruku? O que esse professor representa em sua sociedade? Quais delimitações um docente Munduruku enfrenta sem formação? Com dados voltados a uma pesquisa bibliográfica e a campo este presente trabalho tem como finalidade o norteamento de tais argumentos no que referencia a formação docente do Povo Munduruku.

FORMAÇÃO DOCENTE DO POVO MUNDURUKU: AVANÇOS E DESAFIOS

Com uma população de mais de 14 mil Indígenas Munduruku, o território dos Guerreiros Cortadores de cabeças, abriga um área de mais de 1 Milhão de hectares, localizado na região Sudoeste do Pará, no município de Jacareacanga. São mais de 114 Aldeamentos ao longo de margem de rios, campos e a beira de estradas; Porém em sua maioria residem a margens de Igarapés e rios nas regiões conhecidas como: Região do Alto Tapajós, Região do Baixo Teles Pires, Região do Baixo Tapajós, Rio Cururu, Rio das Tropas, Rio Kadiriri, Rio Anipiri e Rio Kabituto. Representando, assim o processo de ocupação do território ao longo de seu povoamento.

A Educação Indígena, bem como a abordagem histórica e os avanços educacionais que transcrevem o papel indispensável da formação histórica do professor, está difundida ao longo da História da Educação no Brasil. As inúmeras transformações no aspecto educacional redigem a necessidade que houve e os vários processos da educação no cenário nacional refletindo este em vários contextos, bem como no expresso na criação, inovação e renovação que atravessam séculos para que se houvesse na contemporaneidade a compreensão processo - ensino e aprendizagem, cabendo ao professor o papel indispensável dessa transformação.

A formação indígena é constituída com base em dois campos principais. O primeiro tem um suporte mais marcado nos valores, na identidade e no próprio convívio com a natureza. Os professores indígenas, [...] são os principais responsáveis por essa parte da formação, que envolve as relações sociais no cotidiano da aldeia. No segundo campo, a formação ocorre por meio de um ensino que requer uma mediação mais verbal, isto é, um desenvolvimento de competências que estão ligadas ao letramento. (CAVALCANTE, 2003 apud SENA, 2003:16).

 

Segundo o autor, o processo de ensino – aprendizagem indígena, constitui-se de duas vertentes fundamentais fundamentada na formação dos valores; este no que se diz respeito ao dia a dia das comunidades indígenas, com seus costumes e modos de vida, os saberes tradicionais repassados de pai para filho. Múltiplas maneiras do saber, que moldam a identidade de um povo. A segunda maneira da formação indígena requer a necessidade de um conhecimento especifico voltado a uma educação formal, que contribua para a escolarização, por exemplo do letramento escolar, que desperte os conhecimentos de regidos pela escola. Este conhecimento, deve ser pautado de uma formação especifica ao público trabalhado, ou seja, a educação escolar indígena.

Baniwa (2006) afirma que “os gêneros sociais indígenas, descrevendo e analisando essas concepções é clara expressão de força interventora do mundo branco”. Como o autor expressa em primeiro lugar, reflete a concepção fragmentada que se tem da sociedade e da vida, em que cada segmento etário, profissional, de gênero e religioso são pensados como destacado da coletividade e, por vezes são diferenciados, distintos e concorrentes entre si, razão pela qual é necessário buscar mecanismos impositivos de proteção.

O propósito de levantar as condições acima é ajudar a pensar a abordagem de gênero entre as comunidades indígenas, tomando como premissa válida o fato de que toda sociedade humana é o resultado de experiências vividas, e os modos de organização social, política, econômica e religiosa e correspondem às lições e às aprendizagens milenares de vida que, como tais, devem ser respeitadas.

            A educação escolar Indígena, surgiu com processo de catequização do Povo Munduruku. Este processo que teve início com as Missões Franciscanas pelo alto Rio Tapajós, fixando-se na Aldeia Missão região do Rio Cururu. Esta localidade abrigava um dos maiores povoados Munduruku no século XIX, com o passar dos tempos muitos aldeamentos foram criados, surgindo a necessidade de implantar escolas nesses territórios, já que o crescimento populacional tomava um ritmo acelerado.

Eu quando criança brincava de roda, dançando, cantando de roda, nos brincávamos de Parasuy (essa brincadeira era a onde as crianças brincavam de representar os gestos dos animais como da Arara, Anta, Macaco entre outros animais). Enquanto isso os homens ficavam tocando a taboca e as mulheres acompanhavam as crianças nas rodas. (Mariquinha Borõ Munduruku, Aldeia Caroçal Cururu, 2014).

 

A educação tradicional sempre fez parte da vida dos Munduruku, ensinamentos que contribuíam na formação ética e valores tradicionais. Costumes que prevalecem até os dias atuais pelos Nativos sempre transmitidas pelos mais antigos aos jovens, a qual quer hora do dia.

Com o passar dos anos, a Fundação Nacional do Índio – FUNAI, ficou responsável em atender a essas necessidades educacional, juntamente com a secretaria de Educação do Município de Itaituba-Pará. Haja visto que neste período o Território Munduruku pertencia a este município.

O quadro pedagógico de professores no processo de ensino – aprendizagem do povo Munduruku, sempre foi constituído por não indígenas, já que os indígenas não possuíam uma formação específica para assumirem seu posto como professores indígenas, ficando responsáveis em disciplinas sem a necessidade de formação, voltadas ao ensino da Arte e da Linguagem Materna. Essa necessidade por professores indígenas formados, abriam preceitos para uma educação que sobressaiam a importância de uma educação Indígena de qualidade e diferenciada, voltada aos costumes e características peculiares do povo Munduruku.

Segundo dados da SEMECD – Jacareacanga, Pará, hoje segundo dados são 66 escolas indígenas que atendem uma população de mais de 5 mil alunos indígenas no Território Munduruku, essa necessidade por mão de obra indígena qualificada abriu possibilidades para a necessidade da formação especifica de professores indígenas, bilíngues e atuantes no ensejo de desenvolverem tal educação;

O curso de magistério Intercultural, realizado no âmbito do Projeto IBAOREBU de Formação Integral do Povo Munduruku, nasceu com intuito da formação presente demanda tem por objetivo a correta prestação dos serviços de Educação (diferenciada, intercultural, bilíngue e de qualidade) aos indígenas da etnia Munduruku que habitam a calha do rio Tapajós, em Jacareacanga/PA, no que traz a necessidade das escolas indígenas Munduruku.

 

Eu, não entendo o que o “Pariwat” fala, eu não sei como multiplicar igual eles, já tive vários professores e não consegui aprender. Falar português não é fácil eles não querem aprender a nossa língua, então fica difícil. (Aluna 6º Ano, Aldeia Santa Maria; 2012).

 

A falta de formação especifica na atuação escolar voltada as populações indígenas em tese Munduruku por não indígenas, contribuíram para os auto índices de não alfabetização nas escolas do povo Munduruku. O que cresce a importância da inserção de professores indígenas bilíngues que possuam formação adequada na atuação escolar.

            Com dados voltados ao alto índice de não alfabetização de alunos indígenas do território Munduruku reavivou a necessidade da contratação de mão de obra indígena pela SEMECD – Jacareacanga, Pará. Ao mesmo tempo em que surgiu essa necessidade, os impedimentos burocráticos que impediram a não contratação de professores indígenas por não terem formação adequada; Segundo o Ministério Público Federal – MPF 2014:

 

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou o Inquérito Civil 1.23.002.000115/2014-38, cuja cópia integral segue anexa, após representação feita pelo Conselho Indígena Munduruku do Alto Tapajós - CIMAT, na qual denunciaram que 70 (setenta) professores indígenas de escolas Munduruku, no município de Jacareacanga/PA,

Foram demitidos de suas funções, após parecer jurídico emitido pela Prefeitura daquele município, o qual concluiu pela ilegalidade na contratação de professores, com o argumento de não terem formação escolar mínima para ministrarem aulas na rede municipal de ensino.

 

Com parecer favorável a contratação dos professores para atuação em sala de aula nas series iniciais, aos quais contribuem para alfabetização bilíngue e diferenciada do povo Munduruku em 2016, deu-se encerramento aos curso de formação indígenas IBAOREBU, abrindo-se a necessidade de formação indígena em formações especificas para atuação por completo em suas localidades. Transcrevendo o parecer jurídico do MPF, a Prefeitura Municipal de Jacareacanga – PMJ, reencontrou todos os 70 professores demitidos injustamente, deste modo reintegrando esses profissionais ao seu local de trabalho.

A Formação diferenciada indígenas de professores Munduruku, e de fato o processo adequado para a transformação escolar do índio na contemporaneidade e que possibilitará uma educação especifica indígena do povo Munduruku e suas especificidades educacionais.

RFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANIWA, Gersem. Os Desafios da Educação Indígena Intercultural no Brasil: avanços e limites na construção de políticas públicas. Porto Alegre: Pallotti - 2012.

CAVALCANTE, Luciola Ines Pessoa. Formação de Professores na perspectiva do movimento dos Professores indígenas da Amazônia. Brasília - 2003.

MPF. Ministério Público Federal de Santarém, direitos e legislação indigena.http://www.prpa.mpf.mp.br/news/2014/arquivos/ACP_MDK_educacaoecontratacao%20professores.versao%20final.pdf, Santarém/PA.  Acessado em 12/09/2015.

SENA, Vera Olinda. Formação do professor indígena. Campinas: ALB, p. 105-112. São Paulo -  2003.