EXPERIÊNCIAS PEDAGÓGICAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL: PRÁTICAS, DESAFIOS E APRENDIZAGENS NO DESENVOLVIMENTO INTEGRAL DAS CRIANÇAS
Por Everson Augusto Marques | 25/09/2026 | EducaçãoEVERSON AUGUSTO MARQUES
ELAINE CRISTINA CAVICCHIOLI
GABRIELA ARAUJO GRACIANO
EXPERIÊNCIAS PEDAGÓGICAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL: PRÁTICAS, DESAFIOS E APRENDIZAGENS NO DESENVOLVIMENTO INTEGRAL DAS CRIANÇAS
SÃO CARLOS
2026
EXPERIÊNCIAS PEDAGÓGICAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL: PRÁTICAS, DESAFIOS E APRENDIZAGENS NO DESENVOLVIMENTO INTEGRAL DAS CRIANÇAS
Resumo
Este artigo apresenta um relato de experiência desenvolvido com uma turma da Fase 6 A da Educação Infantil do CEMEI Deputado Vicente Botta, durante o ano letivo de 2025. O trabalho teve como objetivo refletir sobre as práticas pedagógicas desenvolvidas com crianças de aproximadamente cinco anos, considerando os processos de aprendizagem, socialização, construção da autonomia e desenvolvimento integral. As experiências relatadas foram organizadas a partir de projetos literários, vivências lúdicas, atividades voltadas à construção da identidade, desenvolvimento da linguagem, consciência fonológica, coordenação motora, educação ambiental, valorização da diversidade cultural e inclusão. O percurso pedagógico também envolveu desafios relacionados à organização da rotina, à convivência entre as crianças e às diferentes necessidades educacionais presentes na turma. A partir da observação cotidiana, da escuta e da elaboração de estratégias pedagógicas, buscou-se construir um ambiente mais seguro, acolhedor e favorável à aprendizagem. Os resultados observados ao longo do ano evidenciaram avanços na autonomia, na participação, na interação entre as crianças, no reconhecimento e registro do próprio nome, no desenvolvimento motor e nas diferentes formas de expressão. Conclui-se que uma prática pedagógica fundamentada na ludicidade, na escuta, na afetividade, na inclusão e na valorização das singularidades pode contribuir significativamente para o desenvolvimento integral das crianças na Educação Infantil.
Palavras-chave: Educação Infantil. Práticas pedagógicas. Ludicidade. Inclusão. Desenvolvimento integral.
1. Introdução
A Educação Infantil constitui uma etapa fundamental para o desenvolvimento integral da criança, uma vez que é nesse período que ela amplia suas possibilidades de interação com o mundo, constrói vínculos, desenvolve sua autonomia e vivencia diferentes formas de expressão, comunicação e aprendizagem. Nesse contexto, o trabalho pedagógico precisa considerar a criança como sujeito ativo, capaz de explorar, questionar, criar hipóteses, estabelecer relações e construir conhecimentos a partir das experiências que vivencia.
O presente artigo apresenta um relato de experiência desenvolvido durante o ano letivo de 2025 com uma turma da Fase 6 A, no período da manhã, do CEMEI Deputado Vicente Botta, localizado no Jardim Ipanema em São Carlos. A instituição atende crianças desde os quatro meses até os cinco anos de idade e desenvolve uma proposta pedagógica voltada ao desenvolvimento integral, à valorização das singularidades e à construção de aprendizagens significativas.
A experiência teve como ponto de partida a realidade concreta da turma. No início do ano letivo, o grupo apresentava dificuldades relacionadas à organização da rotina, à permanência nas atividades, à interação entre as crianças e à autonomia em algumas ações, além de diferentes níveis de desenvolvimento motor e de apropriação da linguagem escrita.
A turma iniciou o ano com 18 crianças, entre elas cinco com necessidades educacionais específicas. Ao longo do ano ocorreram transferências e novos ingressos, chegando-se ao final do período com 15 crianças matriculadas. A diversidade presente no grupo exigiu do professor um olhar atento para as particularidades de cada criança e a elaboração de estratégias que possibilitassem a participação de todos.
Diante dessa realidade, o trabalho pedagógico foi organizado a partir de uma rotina estruturada, porém flexível, e de vivências que buscassem articular aprendizagem, brincadeira, interação e desenvolvimento. Foram desenvolvidos projetos e sequências didáticas envolvendo literatura, identidade, emoções, linguagem, consciência fonológica, alimentação saudável, meio ambiente, sustentabilidade, diversidade cultural, história e cultura dos povos indígenas e africanos, além de experiências relacionadas ao movimento e à expressão corporal.
O objetivo deste artigo é refletir sobre essa experiência pedagógica, destacando os desafios encontrados, as estratégias utilizadas e as aprendizagens observadas ao longo do processo.
2. Contexto da experiência
A experiência foi desenvolvida no CEMEI Deputado Vicente Botta, com uma turma da Fase 6 A, composta por crianças da Educação Infantil. O professor responsável pela turma atua na área da educação há 20 anos e integra o quadro profissional da instituição desde 2013.
No início do ano, a turma apresentava um comportamento bastante agitado. Algumas crianças tinham dificuldade em permanecer sentadas durante as propostas, conversavam constantemente e apresentavam pouca autonomia em determinadas atividades. Também foram identificadas dificuldades relacionadas à coordenação motora e ao reconhecimento e registro do próprio nome.
A presença de crianças com necessidades educacionais específicas tornou ainda mais necessária a construção de uma prática pedagógica baseada na observação e na adaptação. Entre as crianças atendidas, havia um aluno que necessitava de acompanhamento mais próximo e apresentava episódios de tentativa de saída do espaço da sala, o que exigia estratégias voltadas à segurança, à organização do ambiente e à participação do grupo.
Nesse cenário, um dos primeiros desafios enfrentados foi estabelecer uma rotina que proporcionasse maior segurança às crianças e, ao mesmo tempo, possibilitasse o desenvolvimento das atividades pedagógicas.
A rotina diária foi organizada contemplando momentos de acolhida, café da manhã, atividades dirigidas, almoço e brincadeiras no parque. Entretanto, essa organização não foi compreendida como algo rígido, mas como uma referência que poderia ser modificada de acordo com as necessidades apresentadas pelas crianças e pelas situações vivenciadas no cotidiano.
A previsibilidade das atividades contribuiu para que as crianças compreendessem melhor a sequência do dia, favorecendo a construção da autonomia e reduzindo situações de ansiedade. Paralelamente, foram estabelecidos combinados coletivos, buscando construir um ambiente mais organizado, acolhedor e seguro.
3. A literatura como possibilidade de aprendizagem
A literatura esteve presente diariamente na rotina da turma por meio de momentos de leitura deleite, rodas de conversa, manuseio de livros e propostas relacionadas às histórias. A escolha das obras procurou contemplar não apenas aspectos relacionados à linguagem, mas também questões sociais, culturais e emocionais.
Entre as obras utilizadas durante o ano estiveram A Bicharada vai para a Escola, O Monstro das Cores, O Aniversário do Seu Alfabeto, O Tupi que Você Fala, Chapeuzinho Vermelho e o Leão Faminto, O Varal das Letras, A Cesta de Dona Maricota e O Cabelo de Lelê, entre outras.
O trabalho com a literatura possibilitou criar situações nas quais as crianças puderam expressar sentimentos, formular hipóteses, ampliar o vocabulário, realizar pseudoleituras, localizar informações, observar palavras e letras e participar de conversas sobre diferentes temas.
A leitura deixou, portanto, de ser compreendida apenas como um momento de contato com a história e passou a constituir uma estratégia para o desenvolvimento de diferentes aprendizagens.
No início do ano, por exemplo, os livros A Bicharada vai para a Escola e O Monstro das Cores foram utilizados para conversar sobre o retorno às aulas, os sentimentos despertados por esse momento e as expectativas das crianças em relação ao novo ano.
A partir das histórias, foram criados espaços de diálogo nos quais as crianças puderam falar sobre aquilo que sentiam, ouvir os colegas e perceber que diferentes pessoas podem vivenciar sentimentos distintos diante de uma mesma situação.
4. Identidade, autonomia e construção do nome próprio
Um dos primeiros eixos trabalhados durante o ano foi a construção da identidade. Para isso, foi elaborado um livro com características e particularidades de cada criança, possibilitando que o grupo percebesse as semelhanças e diferenças existentes entre seus integrantes.
A proposta buscou valorizar a singularidade e promover o respeito às diferenças físicas, culturais e emocionais.
Nesse processo, o trabalho com o nome próprio ocupou lugar de destaque. O nome representa uma importante marca da identidade e constitui uma das primeiras referências da criança no processo de aproximação com a linguagem escrita.
No início do ano, algumas crianças ainda não conseguiam registrar o próprio nome com autonomia e apresentavam dificuldade para localizá-lo entre os nomes dos colegas. Por meio de situações contextualizadas, jogos, listas, atividades de identificação e diferentes formas de registro, o nome passou a ser trabalhado de maneira significativa e vinculada à identidade de cada criança.
Essa abordagem permitiu articular o desenvolvimento da linguagem escrita à construção da identidade, evitando que o trabalho com letras e nomes se reduzisse à memorização ou à repetição descontextualizada.
5. Inclusão, convivência e valorização das diferenças
A inclusão esteve presente de maneira transversal no cotidiano da turma. A convivência com crianças que apresentavam diferentes necessidades educacionais possibilitou desenvolver situações de diálogo sobre respeito, empatia, cooperação e valorização das diferenças.
O trabalho com a inclusão não foi limitado a uma data específica, mas incorporado às relações cotidianas. As crianças foram incentivadas a compreender que cada pessoa possui características, necessidades e formas de aprender diferentes.
Essa perspectiva exigiu do professor uma postura de observação constante, buscando compreender o comportamento e as necessidades individuais para reorganizar as propostas sempre que necessário.
A experiência mostrou que a inclusão também se constrói nas pequenas ações cotidianas: nos combinados da turma, na organização dos espaços, na forma de apresentar uma atividade, na possibilidade de diferentes formas de participação e, principalmente, na construção de relações baseadas no respeito.
6. Diversidade cultural e educação para as relações étnico-raciais
A valorização da diversidade cultural constituiu outro eixo importante do trabalho desenvolvido durante o ano. A literatura foi utilizada como instrumento para aproximar as crianças da história e da cultura dos povos indígenas e africanos.
A partir da obra O Tupi que Você Fala, de Cláudio Fragata, foram exploradas palavras e elementos culturais de origem indígena presentes no cotidiano das crianças. A proposta possibilitou perceber que a cultura indígena não pertence apenas ao passado, mas permanece presente em diferentes aspectos da sociedade brasileira.
Também foram trabalhadas obras como Amoras, Meu Crespo é de Rainha, O Pequeno Príncipe Preto, Chapeuzinho Vermelho e o Leão Faminto e O Cabelo de Lelê.
Após as leituras, foram realizadas rodas de conversa nas quais as crianças puderam expressar suas percepções e sentimentos. Esses momentos contribuíram para discutir questões relacionadas à identidade, ao respeito às diferenças, à valorização das características físicas e à importância de conhecer diferentes histórias e culturas.
O trabalho buscou, dessa forma, contribuir para a construção de uma educação pautada no respeito e na valorização da diversidade desde a infância.
7. Educação ambiental e sustentabilidade
A educação ambiental foi desenvolvida por meio de experiências concretas, buscando aproximar as crianças das questões relacionadas ao cuidado com o meio ambiente.
A observação das árvores existentes na escola possibilitou conversar sobre sua importância para a qualidade do ar e para a vida. A turma também participou de atividades relacionadas à horta, ao plantio e aos cuidados com as plantas.
Uma das experiências envolveu o plantio e cuidado de suculentas em garrafas PET. A atividade permitiu trabalhar simultaneamente questões relacionadas à sustentabilidade, reutilização de materiais e responsabilidade pelo cuidado com um ser vivo.
Também foram realizadas oficinas de brinquedos com materiais reutilizáveis, produção de cartazes de conscientização e atividades relacionadas à reciclagem e ao reaproveitamento.
A temática ambiental ultrapassou os limites da sala de aula e envolveu a comunidade escolar. Durante a Festa da Família, cujo tema foi meio ambiente e sustentabilidade, foram desenvolvidas ações como feira de troca de livros, bazar de roupas e brinquedos, contação de histórias, degustação de chás, exposição de trabalhos e outras atividades.
Essas experiências demonstraram a importância de apresentar às crianças situações concretas nas quais possam perceber que suas ações também fazem parte do cuidado com o ambiente.
8. Projetos literários e desenvolvimento da linguagem
Entre os projetos desenvolvidos, destaca-se o trabalho com A Cesta de Dona Maricota, de Tatiana Belinky. A obra foi utilizada para abordar a importância de uma alimentação saudável e diversificada, estabelecendo relações com os cuidados realizados na horta da escola.
Após a leitura, as crianças participaram da elaboração de listas de alimentos presentes na história, realizaram registros escritos, desenhos e, posteriormente, participaram de uma experiência de degustação de salada de frutas.
Outro projeto significativo foi desenvolvido a partir do livro O Aniversário do Seu Alfabeto. A obra possibilitou trabalhar as letras do alfabeto e seus sons de forma lúdica, relacionando cada letra aos elementos apresentados na narrativa.
As atividades envolveram diferentes formas de exploração das letras, registros, oralidade e brincadeiras. Como encerramento do projeto, foi realizada uma festa de aniversário do Seu Alfabeto. As crianças participaram da confecção dos convites e acompanharam o professor, que atuou como escriba durante a produção coletiva das informações.
Também foi desenvolvido um trabalho com a sequência O Varal das Letras, ampliando as possibilidades de exploração do sistema de escrita de maneira contextualizada e significativa.
Essas experiências demonstraram que o contato com a linguagem escrita pode ocorrer de maneira prazerosa na Educação Infantil, respeitando as características da faixa etária e utilizando situações reais de comunicação.
9. Ludicidade, movimento e desenvolvimento motor
As vivências propostas ao longo do ano foram organizadas de forma lúdica, considerando a brincadeira como elemento fundamental para a aprendizagem na infância.
Foram realizadas atividades envolvendo jogos de montar, massinha de modelar, rasgar e amassar papel, traçado de letras e números, localização de palavras em textos, análise de gráficos, poemas, rodas de leitura, pseudoleituras e diferentes formas de expressão.
Essas atividades contribuíram para o desenvolvimento da coordenação motora fina, da percepção espacial, da lateralidade, da linguagem oral e escrita e do raciocínio lógico.
As aulas de Educação Física, realizadas duas vezes por semana pela professora Kátia, também contribuíram para esse processo. As experiências corporais possibilitaram trabalhar aspectos motores, afetivos e sociais por meio de jogos, brincadeiras e atividades de movimento.
Nesse sentido, o corpo foi compreendido como parte essencial do processo de aprendizagem, e não apenas como elemento relacionado às atividades físicas.
10. Resultados e aprendizagens observadas
Ao longo do ano letivo, foi possível observar mudanças significativas no comportamento e na participação das crianças.
O estabelecimento de uma rotina, aliado à construção de combinados e à utilização de estratégias diferenciadas, contribuiu para a organização do grupo. As crianças passaram gradualmente a compreender melhor os diferentes momentos do dia e a participar das propostas com maior autonomia.
Também foram observados avanços em relação ao reconhecimento e registro do nome próprio, à coordenação motora, à participação nas rodas de conversa, ao manuseio dos livros, à expressão oral e à interação com os colegas.
As propostas relacionadas à literatura favoreceram o desenvolvimento da imaginação e da linguagem, enquanto as experiências ambientais permitiram aproximar as crianças de práticas concretas de cuidado e responsabilidade.
Mais do que resultados mensuráveis, a experiência possibilitou perceber mudanças nas relações estabelecidas pelas crianças com os colegas, com os adultos, com os materiais e com os espaços da escola.
O acompanhamento cotidiano mostrou que cada criança possui seu próprio ritmo de desenvolvimento e que os avanços precisam ser compreendidos a partir de sua trajetória individual.
11. Considerações finais
A experiência desenvolvida com a turma da Fase 6 A ao longo de 2025 evidenciou que o trabalho na Educação Infantil exige planejamento, flexibilidade, observação e sensibilidade para compreender as necessidades de cada criança.
Os desafios encontrados no início do ano foram importantes para repensar a organização da rotina e desenvolver estratégias capazes de favorecer um ambiente mais seguro e acolhedor. A construção de combinados, a previsibilidade das atividades, a escuta das crianças e a adaptação das propostas contribuíram para a melhoria da convivência e para o envolvimento do grupo nas experiências pedagógicas.
A literatura mostrou-se uma importante ferramenta para integrar diferentes campos de aprendizagem, possibilitando trabalhar linguagem, identidade, emoções, diversidade cultural, alimentação saudável, meio ambiente e relações sociais.
mesma forma, as experiências envolvendo brincadeiras, movimento, arte, escrita, oralidade e exploração de materiais demonstraram que a aprendizagem na Educação Infantil acontece de forma integrada e significativa quando a criança é colocada no centro do processo.
O trabalho também reforçou a importância de uma educação inclusiva, na qual as diferenças sejam reconhecidas e valorizadas como parte da própria constituição do grupo.
Ao final do percurso, percebeu-se que ensinar na Educação Infantil significa também aprender a observar, escutar e reconhecer pequenas conquistas que, para cada criança, representam grandes avanços.
Assim, o relato apresentado demonstra que uma prática pedagógica baseada na afetividade, na ludicidade, na literatura, na inclusão, na valorização da diversidade e na participação ativa das crianças pode contribuir para a construção de experiências educativas significativas e para o desenvolvimento integral na primeira infância.
Mais do que registrar atividades realizadas durante um ano letivo, a experiência revela um processo contínuo de construção de aprendizagens, vínculos, autonomia e descobertas, tanto para as crianças quanto para o professor.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010.
SÃO PAULO (Estado). Currículo Paulista: Educação Infantil e Ensino Fundamental. São Paulo: Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, 2019.
BELINKY, Tatiana. A cesta de Dona Maricota. São Paulo: Paulinas.
FRAGATA, Cláudio. O tupi que você fala. São Paulo: Globo.