Evolução, Deus e a Síndrome de Caim

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 17/08/2026 | História

O desenvolvimento da ciência nos trouxe incontáveis benefícios. Não apenas ao fornecer visões do futuro mas, também, na forma de um retroativo olhar, característico de uma espécie com senso crítico e conclusões baseadas em evidências empíricas.

É fato que o Homem de Neandertal raciocinava abstratamente, com louvores a uma ou mais entidades metafísicas. A maior prova é uma sepultura de um respectivo infante, ornada com chifres e flores, encontrada no que hoje é o Iraque. Desde então, houve avanços evolucionários que culminariam na atual espécie dominante, e conseguinte fundação da primeira civilização humana, de caráter teocrático: a Suméria, na mesma região localizada.

Sua teocracia, como todas que surgiriam e ainda hoje se mantém, caracterizava-se por elevar as vontades de seres superiores à condição de impositivas normas jurídicas, seguidas pelos membros dos grupos. Nos dias atuais, em alguns territórios (como o Irã e o próprio Vaticano), é assim.

Só que em 1789 a Revolução Francesa já tinha elevado a laicidade a um nível de caráter estatal no Ocidente. E, pouco após a metade do século XIX, o naturalista britânico Charles Darwin provou o evolucionismo expresso no segundo parágrafo (que, em síntese, afirma serem as espécies resultado de uma contínua evolução e seleção natural, como a que fez surgir o Homem de Neandertal e, num posterior acidente de continuidade, o Homo Sapiens). E esse evolucionismo não é compatível com nenhuma escritura sagrada.

Então, nos deparamos com um dilema: contraditada por Darwin, e para a maioria dos estudiosos, eventual força superior nos destinos de nossa espécie, não teriam os sistemas políticos, mundo afora, de impor ordens jurídicas cujos fundamentos fossem, tão somente, a continuidade do Homo Sapiens e não desejos metafísicos? É neste ponto que este autor ansiava chegar. Havendo laicidade ou teocracia, alguns valores convergem e são inegociáveis. E a prova mais contumaz se rege pelo fato de que, em todas as sociedades do planeta, sob um ou outro dos dois fundamentos, a prática do homicídio é severamente punida.

Por isso, tratando-se de tão grave mal e contaminador, também, dos dirigentes sociais, homens de profundo valor intentaram identificar suas causas e consequências, prevenindo-nos, num livre pensar individual, perfeito e independentemente de quem foi ou viria a ser Darwin, o que só reforça a superioridade intelectual destes pensadores.

A mais famosa frase de Confúcio, por exemplo, foi a determinadora de não impor aos outros aquilo que a ti não desejas. É a regra de ouro, consubstanciadora das relações humanas e lançadora de uma onda de choque (ou "efeito borboleta") sobre todos os aspectos sociais da nossa espécie, especialmente ao lidar com a administração pública. Para Confúcio, há algumas classes especiais de pessoas seguidoras do citado mandamento, dentre elas o Sábio e o Cavalheiro, que é obediente aos ritos, presumidamente bons, eis que determinados pelo império, portador do "Mandato do Céu", conferidor de legitimidade. Mas, se o Império não conferir felicidade ao povo, o Cavalheiro seria daqueles que têm um espírito indisciplinado para com a pobreza e injustiça, lutando para que a coragem, infelizmente usada para a maldade, venha a somar benefício ao povo, especialmente diante de um não-benigno "Mandato do Céu", neste momento perdido pelo império por meio de uma rebelião popular. O "Mandato do Céu" era uma metáfora de uma das mais antigas dinastias chinesas, e é assim que Confúcio o considerava. Ele, pouquíssimas vezes, dava opiniões sobre questões.

metafísicas, não se evidenciando, na sua pessoa e então, a crença numa força superior. Era um Pré-Darwinista, existente cerca de 2.400 anos antes. Era, sobretudo, um valoroso homem, não crente no divino, e para quem, em razão disso, os homens deveriam se autoproteger, para o bem do grupo e da espécie.

Já o famoso escritor russo Fiódor Dostoiévski, no final do século XIX, expressava seu amor pela Igreja Ortodoxa Russa, acreditando, e considerando necessário, o absoluto sobrenatural a determinar a conduta dos homens. Para ele, sem Deus (e, especialmente, o deus ortodoxo), não havia lei a seguir, já que ausente o referencial divino, habilitado a ditar regras, costumeiras e jurídicas, de conduta. Assim, enxergava mais a proibição do pecador crime de homicídio como uma determinação divina que uma infração interruptora da continuidade da espécie.

Por fim, falo a respeito do mais famoso escritor, também russo, Leon Tósltoi. Tratava-se de um intelectual extremamente espiritualizado, que rompeu com a Igreja Ortodoxa Russa por considerá-la contaminada por valores "ocidentais", e bem "corruptível" ao capitalismo rudimentar que assolava a Rússia no início do século XX. Vivia uma vida modesta e ascética, tendo gerado mais de 10 filhos e acreditado que a pobreza, com o mínimo existencial, era o dever de vida de um verdadeiro Cristão, cabendo a Cristo ditar toda a lei na Terra, e não à Igreja Ortodoxa Russa.

Percebe-se que o mesmo valor - não matar - surge entre históricas personagens que há muito viveram, antes e depois de Darwin. Pode-se escolher a ciência. Pode-se escolher a religião. E pode-se escolher, até mesmo, o Messias formal da religião, independentemente de segui-la. Só não se pode chegar a um ponto: matar.

Se proceder a isso, sujeitar-se-á à lei dos homens. E, para os religiosos ou seguidores informais, à lei de Deus. Uma coisa se garante, ao menos para os que acreditam: se a lei dos homens falhar, a de Deus não. Dura lex, sed lex. A lei é dura, mas é a lei.