Em Defesa de Nossa Latino-Americanidade

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 25/04/2026 | História

Li, há algumas semanas, que numa interação nas redes sociais uma hispânica escreveu, sobre os brasileiros, quererem os mesmos fazer parte do "time". O "time" a que se referia é o conjunto de nações latino-americanas. Para ela, o Brasil não é um país latino-americano, pois se reveste como o único do continente que usa o português na condição de língua majoritária, perante os dezoito que utilizam o espanhol (só que este único usuário da língua portuguesa possui, sozinho, 43% do território de toda a região, bem como 38% da sua população total).

Infelizmente, essa não é uma percepção só dela, mas de muitas pessoas, incluindo a imensa maioria dos próprios brasileiros, que não se consideram latinos. Deixem-me esclarecer algo: a latinidade é a condição étnica atribuída àqueles que utilizam, como primeira língua, um idioma evoluído do latim. São essas línguas o espanhol, o francês, o italiano, o português, o catalão, o galego e o romeno, além de um punhado de dialetos existentes em países como a Suíça, a própria França e a Itália. Como, na América Latina, não existem países ou territórios de majoritária língua italiana, catalã, galega ou romena, restam aqueles em que boa parte da população utiliza o espanhol, o francês e o português (neste último caso, 99% da população brasileira).

Napoleão III (sobrinho de Napoleão Bonaparte), eleito Presidente da Segunda República Francesa, e que, depois de um golpe, se tornou Imperador do Segundo Império Francês (períodos compreendidos entre o início da década de 1850 até pouco após 1870), foi o primeiro a, se não cunhar, popularizar a expressão "América Latina", quando sugeriu à França estreitar laços com a região, para que houvesse uma contraposição aos EUA e à sua Doutrina Monroe. Disse disso, logicamente, porque se sentia latino e tinha o objetivo de tomada ou manutenção de antigos territórios dominados pela França na América, como a Guiana Francesa, a Martinica, o Haiti e o Quebec canadense (embora este se encontre num grande país da América Anglo-Saxônica).

Mas, como mencionou o termo num contexto geopolítico, parece óbvio que não se referia apenas aos países ou territórios de língua francesa, e sim, também, aos demais ameaçados pela Monroe, que eram (e ainda são) os hispano e luso-americanos: países que formam a América cobiçada pelo imperialismo, diversa da Anglo-Saxônica, e, portanto, Latina nos sentidos geopolítico e linguístico.

As dezoito soberanias citadas pela mencionada moça são hispano e latino-americanas. Os países, territórios e regiões de matriz colonial francesa são franco e latino-americanos. E o Brasil, imensamente maior que todos os demais, individualmente considerados, em questões de território, população e PIB bruto, é luso e latino-americano. Somos, pois, todos latinos, e latino-americanos.

Além disso, em comparação ao Brasil (no qual, repito, 99% das pessoas fala, prioritariamente, o português), países como o Peru e a Bolívia detém um percentual populacional mais baixo que utiliza o espanhol como idioma principal, já que ofuscado por línguas de matrizes incas e indígenas, como o quéchua e o aimará. E, nem por isso, tais países têm suas identidades latinas questionadas. O mesmo ocorre em um país como a Guatemala, em relação a idiomas de origens indígenas e maias, que retraem os números dos que usam o espanhol como primeiro idioma.

Assim, tentar arrancar a latinidade do Brasil, por ignorância ou capciosidade, é, ilicitamente, descaracterizar a história material da origem da língua portuguesa, nosso maior fator de identidade nacional. Se nem assim o “time” hispânico se convencer, só posso citar o grande filósofo chinês Confúcio, que, em sua sabedoria, dizia: “riem de mim porque sou diferente. Eu rio de vocês porque são todos iguais”.