Em Defesa de Dois Grandes Ídolos Injustiçados
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 10/08/2026 | HistóriaO esporte, em especial o bretão, confundiu-se, ao longo do século XX, com a identidade nacional de diversos povos, em especial no Brasil. Aqui, história e futebol não são mutuamente incólumes, e dessa forçosa simbiose nascem graves injustiças. Especialmente as praticadas contra o goleiro Moacyr Barbosa, da Seleção Brasileira Vice-Campeã Mundial de 1950, e em detrimento de Zico, maior jogador brasileiro desde Pelé.
Na Copa do Mundo do Pós-Guerra, o conhecimento, por parte de quaisquer cidadãos, de qualquer parte e relativamente a outros países, era ínfimo. Poucos, mesmos nos países ditos desenvolvidos, tinham acesso a bibliotecas ou outros instrumentos de conhecimento geográfico. Todos os países almejavam ser protagonistas por sua história, glórias militares ou de algum esporte em que fossem insuperáveis. No caso do Brasil, seria a chance de o mundo nos conhecer pela excelência que nossa Seleção, realmente, apresentava, com a consequente conquista da Copa do Mundo, aqui disputada.
Rio de Janeiro, Maracanã, 16 de julho de 1950. Último jogo do quadrangular que também envolvia Suécia e Espanha, não tendo mais, ambas, chances numéricas de obtenção do título, a ser decidido exatamente no último jogo do quarteto, que seria entre Brasil e Uruguai.
Nos dias anteriores à peleja, já era dado como certo o título para o Brasil. Políticos, empresários, artistas e outros frequentavam a concentração da Seleção. Jornais antecipavam manchetes do dia 17 de julho, com as indicações de "Brasil Campeão". Começou a partida, necessitando o Brasil, apenas, empatar para obter a glorificação.
Saímos na frente no início do segundo tempo, com gol de Friaça. Era certa a vitória, a ser obtida em menos de uma hora. Só que Juan Schiaffino empatou. O Brasil, ainda assim, estaria em vantagem, até que, aos 29 minutos, Alcides Gigghia marcou o segundo da "Celeste Olímpica". O desespero tomou conta da equipe "Canarinho", que, num país não valorizador da medalha de prata, seria execrada se aquela potencial derrota não fosse revertida. E não foi.
Ao final, o silêncio terrivelmente ensurdecedor de mais de 200 mil pessoas. A tristeza coletiva. Os choros e ranger de dentes. Uma tristeza que, quando ocorrida no seio de uma sociedade obcecada por esportes coletivos, teria um bode expiatório: e esse bode, sem qualquer chance de defesa, foi o goleiro Barbosa.
Até 2000, quando faleceu, Barbosa carregou a pecha de humilhações públicas, excomunhão social, piadas de péssimo gosto e ódio injustificado (mesmo tendo inúmeros títulos pelos clubes onde jogou, especialmente o Vasco da Gama). A repulsa do povo brasileiro por Barbosa chegava a níveis, digamos, de seita. E Barbosa reagia com respostas firmes, convicções morais fortes e a certeza de que, mesmo que houvesse falhado no gol de Gigghia (assisti à gravação diversas vezes e nunca enxerguei nada mais que um lance normal, corrente em qualquer jogo), o Vice-Campeonato Mundial era posição de destacadíssima honra, não valorizada pelos brasileiros. A partir da década de 1980, questionava seus detratores ao afirmar que a então pena máxima de prisão no Brasil era de 30 anos, e que ele a estava cumprindo por mais tempo, mesmo sem ser um criminoso.
Além disso, suponhamos que ele tivesse realmente falhado. Não creio que alguém de boa ética, princípios e senso de justiça compactuaria com massacres verbais, xingamentos e perseguições midiáticas, feitos a uma pessoa que nunca fez mal a ninguém, apenas perdeu um jogo de futebol. E isso ocorre sempre, ainda hoje nos fóruns de internet, na mídia verbalizada, nos ataques pessoais em grupos de Whatssap e noutras plataformas, que permitem aos covardes agir como bandos, e não matilhas (já que cães são respeitáveis).
Após a Copa do México de 1986, Zico organizou uma homenagem a todos os jogadores brasileiros que, ainda vivos, tivessem atuado em Copas do Mundo. Foram jogadores, até mesmo, da Copa de 1930. Ao abraçar Zico, Barbosa chorou porque nunca tinha sido homenageado na sua própria pátria.
Em relação a Zico, só tenho a falar o melhor. Nasci em 1976 e o vi jogar, na minha infância. Um grande atleta, maior artilheiro do Flamengo e da história do Maracanã, detentor de todos os possíveis títulos, em todos os níveis, pelo Flamengo e ídolo da Udinese, além de introdutor do futebol no Japão e seu respectivo fiador na Turquia, países onde é considerado um deus. Fora de campo, um ser humano extraordinário, com os valores de lealdade, honestidade e disciplina que transmitia aos seus fãs. Suas passagens em Copas do Mundo não lograram a obtenção do título, mas aqui descreverei as circunstâncias:
1) Copa do Mundo de 1978, na Argentina e com 16 seleções - Eram duas fases de grupos. Na primeira, quatro grupos de quatro seleções. As duas primeiras de cada grupo se classificariam para uma segunda rodada de grupos, e, daí, somente a primeira de cada seria a finalista. Não havia as semifinais como hoje as conhecemos. No primeiro grupo, os Países Baixos se classificaram à final. No grupo do Brasil restavam Argentina, Peru e Polônia. Brasil e Argentina empataram em 0 a 0. O Brasil venceu o Peru por 3 a 0 e a Argentina derrotou a Polônia por 2 a 0. Brasil e Polônia (vitória de 3 a 1 para os brasileiros) se enfrentariam antes de Argentina e Peru. Tendo em vista todo o saldo acumulado desde a primeira fase de grupos, os anfitriões souberam, antecipadamente, que teriam de vencer o Peru por uma diferença de quatro gols, para que passassem à final. Venceram por 6 a 0, num jogo claramente "comprado" e entregue aos argentinos, já que os peruanos, claramente, lhes davam a bola e facilitavam suas vidas para que, ao final, fossem eles próprios goleados. Uma vergonha completa, um insulto ao futebol mundial. Com o "resultado", jogaram a final os Países Baixos e a Argentina, e não os Países Baixos e o Brasil. No retorno da Seleção Peruana a Lima, foi a mesma recebida com hostilidades pela população envergonhada, o que foi reforçado pelo fato de seu goleiro, Quiroga, também possuir a nacionalidade argentina. Uma Copa vencida com flagrante trapaça. A Seleção Brasileira terminou em 3º lugar, honrada e invicta.
2) Copa do Mundo de 1982, na Espanha e com 24 seleções - O Brasil, uma verdadeira máquina goleadora, favorito absoluto e com uma seleção "de outra galáxia", venceu a URSS (2 a 1), goleou a Escócia (4 a 1) e a Nova Zelândia (4 a 0), na primeira fase de grupos. Da segunda fase de grupos, se sobressairia um de cada para avançar às recém-ressuscitadas semifinais. O Brasil venceu a Argentina de Maradona (3 a 1) e cedeu aos italianos por 3 a 2, num resultado que ocasionou uma hecatombe nacional. Aquela seleção, tão brilhante, não podia perder. Perdeu, não para a Itália (cujo time, até hoje, considero ruim, apesar de, posteriormente, ter vencido a Copa). Perdeu para Paolo Rossi, em lampejos de genialidade, e dos quais sairiam seus três gols. Mesmo com a derrota, ficamos em 5º lugar na classificação geral, uma linda posição.
3) Copa do Mundo de 1986, no México e com 24 seleções - Brasil venceu com certa facilidade a Espanha, a Argélia (1 a 0 cada) e a Irlanda do Norte, por 3 a 0. Nas oitavas de final, também nos classificamos tranquilamente contra a Polônia, por 4 a 0. Até então, devido a uma contusão criminosa que havia sofrido em 1985, num jogo pelo Campeonato Carioca, Zico não tinha sido posto em campo. E, em razão dos recorrentes problemas nos joelhos, não desejava ter ido àquela Copa, só aceitando-o quando a população pediu e mestre Telê Santana implorou. Nas quartas de final, contra a França, aos 30 minutos do segundo tempo a partida restava dramática, com o resultado parcial de 1 a 1, e Telê decide pôr Zico. Mortalmente ferido por seus problemas físicos, deu tudo de si e, numa jogada brilhante, induziu a França a cometer um pênalti sobre Branco. Zico bateu o pênalti e o goleiro francês defendeu. Dali, e passando por toda a prorrogação, o jogo permaneceu em 1 a 1, encaminhando-se para as decisivas cobranças de penalidades máximas. Zico pensou que, se a eventual eliminação fosse creditada ao pênalti perdido no tempo regulamentar, ficaria no lugar de Barbosa como o humilhado das próximas décadas. Ainda assim, foi homem o suficiente para assumir a responsabilidade, não pedindo para não ser escolhido. Apontados os cinco jogadores do Brasil e cinco da França para as cobranças, Zico fez o seu. Quem perdeu foram outros grandes jogadores da história mundial. Eliminada nos pênaltis, a Seleção de 1986 encerrou sua participação invicta (eis que 1 a 1 no tempo regulamentar, independentemente do resultado posteriormente obtido). Invicta como em 1978, e em 5º lugar, como em 1982.
Agora, eu lhes pergunto: tendo perdido duas Copas invictamente (numa delas, por meio de trapaça da Seleção dita campeã) e outra numa tarde infeliz em que Paolo Rossi brilhou mais que toda a sua fraca seleção somada, Zico é ou não um vencedor? A sua trajetória no Flamengo, na Udinese, no Japão, na Turquia e na própria Seleção Brasileira já responde. Zico só é desconsiderado no Brasil. No resto do planeta, é idolatrado. Sobre o pênalti perdido no tempo regulamentar, na decisão final dois foram não convertidos por, indiscutivelmente, grandes e admiráveis astros dos anos 1980. Não falo seus nomes, por respeito máximo e porque pois Zico sempre optou por carregar o fardo sozinho, sem apontar companheiros, devido ao seu grande caráter. Mas se, infelizmente, a população tende a enxergar um culpado, por que não considerar, como tal, os três equanimemente? Seria menos injusto (mas, jamais, justo). Por que somente Zico? Percebo, aqui, um "ódio clubístico".
O que fizeram, e ainda fazem, com Barbosa e Zico não tem nome. As humilhações que ambos passaram foram e são abjetas, negando os grandes brasileiros que foram, dentro e fora de campo. Homens cujas grandezas em campo só são superadas por seus valores pessoais, materializados diante de um povo que, infelizmente, merecia respostas mais duras e ríspidas.