Dois Clássicos Literários, e um Filme de Enorme Valor
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 07/10/2026 | HistóriaA prática da literatura nos acostuma a comparações com outras formas de arte ou variadas possibilidades, das quais a obra escrita se originou, ou de que é derivada. Neste contexto, incluem-se o cinema, o teatro, ou mesmo a psicologia aplicada a fatos históricos, reais ou imaginários, mas sempre com teórica verossimilhança fática. Assim, dois dos livros que recomendo são “Os Meninos do Brasil”, de Ira Levin, e “O Ditador”, de Sidney Sheldon.
É fato que, após a Segunda Guerra Mundial, muitos dos maiores criminosos de guerra nazistas se refugiaram na América do Sul, especialmente na Argentina (um país que mais se aproximaria do conceito de “pureza racial” por eles desejada, e cujo governo teria facilitado a emissão dos respectivos vistos). Uma segunda leva se instalou no Brasil, tendo como maior símbolo o tristemente famoso médico Josef Mengele, um verdadeiro monstro que entre nós subsistiu até morrer por afogamento em Bertioga-SP, em 1979. Historiadores militares afirmam que células nazistas, sobreviventes da guerra e espalhadas mundo afora (mas, especialmente, na América do Sul) não consideravam sua ideologia vencida, tendo a ilusão de ressuscitar o III Reich. Realmente havia, sim, pessoas que objetivavam tamanha loucura, mesmo que o mundo de então já fosse dominado por superpotências que esmagaram o nazismo e que, felizmente, o fariam de novo, se necessário. E esse é o fundamento inicial de “Os Meninos do Brasil”.
A ciência nos informa que, psiquicamente, nenhum de nós é igual. Todos possuímos singulares biografias, compostas de pequenos e grandes fatos, situações e nuances capazes, por si só, de desviar e moldar o psiquismo de cada um em direção a uma personalidade única, para o bem ou para o mal. E é com fundamento nesta constatação que os nazistas descritos em “Os Meninos do Brasil” agem: promovem o crescimento de crianças que, no seu conceito, teriam o maior percentual possível de sangue ariano puro, com pais funcionários estatais e mães donas de casa, educação formal idêntica e, nas máximas possibilidades, em si reproduzidos os demais aspectos da biografia conhecida de seu infame líder, Adolf Hitler. Tudo para que, num futuro próximo, aquele que possuísse, na comparação ao ditador nazista, a personalidade mais parecida, viesse a ser seu sucessor, reconstruindo o III Reich. É um livro bem interessante.
Quanto à outra obra recomendada, “O Ditador”, também tem um pano de fundo que remonta à Segunda Guerra Mundial. Digo isso porque se baseia na clássica película “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin. No filme, Chaplin faz uma paródia de Hitler, ridicularizando-o por meio de uma encarnação própria em Adenoid Hynkel, ditador da fictícia Tomânia, que acaba sendo substituído por um sósia idêntico (um barbeiro), reversor de suas políticas totalitárias. No livro “O Ditador”, Sidney Sheldon nos apresenta um ambiente parecido e vivido em tempos mais recentes, quando o lugar do general Ramón Bolívar, governante autoritário da, também imaginária, nação sul-americana de Amador, é tomado por um fisicamente idêntico ator estadunidense, que acaba reconduzindo o país à democracia.
Ler romances com a grandiosidade do acima mencionados é um verdadeiro exercício de intelectualidade, bem como uma imersão no que foi, é e seria a história, com muitos dos seus possíveis desdobramentos. E, também junto ao filme referido, uma lição de como, a qualquer custo, evitar o abatimento, sobre a sociedade, das mais extremas das maldades. Recomendo-os fortemente.