Dia 07.07.07. O dia começou com um silêncio absoluto e infinito.  Imaginava ser diferente, que não se transformasse numa “trajédia” no plano das minhas expectativas. Nem um bom dia, uma mensagem, um alento, nem que viesse do além. Como terminaria aquele interlúdio entre o matinal e o longo vesperal? A magnitude daquela noite chegaria de mansinho trazendo provações, constatações, respostas e  sinais que exigiriam superação, metamorfose, saltos, “insights” e, bem talvez, a benfazeja tolerância aliada ao fator tempo, obrigando-me a  me redimir perante minha própria insignificância e incapacidade de mudar o mundo, as pessoas... O ponto alto seria a presença de um fio condutor capaz de impor  recolhimento e meditação sobre o nossos destinos, a necessidade de se rever valores, repensar  trajetórias, jornadas existenciais dentro de uma visão “quântica”.  Depois do “portal” chegaríamos ao  fim de nossos sonhos “impossíveis”, deixaríamos em definitivo a terra do nunca com direito, ainda, a visão do epitáfio sinalizando para o retorno a  “Haporema”, um lugar tupiniquim marcado pelo espírito “dantesco”  presente, a pajelança exercendo seu domínio “patulínico”, as pessoas se deixando conduzir para viver cada dia como se fosse numa sequência cardinal, tudo ofertado como se  fosse parte de um  missal global, com seus simbolismos, mitos e sistema único dominial,  onde o importante seria interagir  dentro de uma dimensão  convencional. E, de quebra, se deixar viver e pensar assim não seria nada mal! 

Depois de ter sobrevivido ao portal cabalístico produzido pelas junções antagônicas dos “zeros” e “setes”, respirei forte da mais alta montanha e me senti pronto para um novo “start” no plano existencial. Os três “zeros” na verdade eram quatro (2007), porém, a presença do número “dois” frontal explicava a separação, a dualidade de seres..., o que explicaria os riscos decorrentes da falta de uma junção que teria imantado os “zeros” que pulverizaram os  três “matas-setes” da  dimensão quântica. De resto, teríamos outros dois “portais”, tipo 7.007 (07.07.7077) e, por fim, 07.07.7777, este  o máximo  possível em termos de cruzamento do “Portal Estelar”, com apenas dois “zeros” e seis “setes” justapostos. Numa escala quântica isso seria logo ali e as chances de êxito seriam bastante expressivas se a humanidade viver até lá.

Dia 18.07.07, por volta das vinte uma horas resolvi telefonar para Marilisa e conversar apenas sobre trabalho, sobre as nossas próximas audiências. Comentei que estava tomando o vinho que ela havia me presenteado  dias atrás. Como no passado, Marilisa parecia muito  animada, “risoleta” e receptiva, dando a impressão que havíamos passado para outra patamar, muito embora tivéssemos retrocedido. Também, imaginei que ela tivesse feito uma reflexão sobre o que ocorreu conosco nos últimos tempos. No final, prometi que no dia seguinte iria levar uma “maquina”  treme-treme da Bosch para que Marilisa pudesse lixar a parede do quarto do seu filho. O balanço final da nossa conversa foi a conclusão de que minha amiga era experiente quanto a se reinventar, permanecer com os pés-no-chão, parecia preferível e mais cômodo viver de “bobice” e “tolices” ocasionais tirando de letra momentos passados como se desligasse um interruptor, e fazendo de conta que todos os dias tinha que estar pronta para renascer e sobreviver às adversidades, novos desafios..., aliás, condições que ela teve que aprender e desenvolver como forma de compensação de suas “quedas”, “fraquezas”, “frustrações”, tudo isso por meio de um jogo que parecia envolver afetividade múltiplas, carinhos reais, meiguice solta, sedução espelhada, amizade reflexa, solidariedade permanente, misericórdia com os fracos, empatia radiante...  Sim, era por esse “mix” que também me interessei em nosso ponto de contato, algo que fascinava, desafiava e ao mesmo tempo  entorpecia, tirava da mesmice e remexia  com minhas energias sagradas e profanas.

Dia 19.07.07,  por volta das nove horas, cheguei na Delegacia Regional de Jonville, a fim de me encontrar com os Delegados Alves e Marilisa para  iniciarmos nossa viagem até a Delegacia Regional de Itajaí. Logo que estacionei meu carro  nos fundos da DRP de Joinville avistei Marilisa caminhando na minha direção, seguida pelo  José Alves. Passados alguns instantes, resolvido o problema de abastecimento da viatura, iniciamos  a viagem. O Delegado Alves foi dirigindo com Marilisa ao seu lado. Eu fiquei sentado atrás. Meu objetivo era me resguardar um pouco,  permanecendo mais distante, o que não aconteceu. Marilisa permaneceu virada quase o tempo todo para trás, intercalando alguns momentos em que segurava na minha mão direita que estava apoiada no encosto do seu banco. Com isso, acabei viajando até a DRP de Itajaí monopolizando a palavra. O Delegado Alves tinha acabado de sair do plantão da Central de Polícia e parecia “moído” o que me fez lembrar os remédios que Marilisa tinha que ingerir após cada plantão.  Acabei narrando o drama com meu empregado na chácara em São Francisco do Sul.  Marilisa me surpreendeu com sua memória:

- “Sim, tu já disseste que tens um empregado lá, que ele cuida muito bem do teu jardim, que tu xingastes ele naquela viagem, lembra? Estavas no celular conversando  e eu ouvi...”.

Olhei para Marilisa e achei aquilo tudo formidável, enfim, sua memória não era tão ruim, muito pelo contrário, lembrava até de detalhes, “então porque ela às vezes se fazia de tão morta?” pensei. Diante disso, argumentei:

- “Puxa vida, e eu que pensei que tu era uma ‘desmemorizada’, olha só , lembra de tudo...” (risos). 

Ainda pela manhã, quando estava na DRP de Itajaí, logo que tinha acabado (meio dia) de realizar nossa audiência de ouvida de testemunhas (Processo Disciplinar – Dr. Marcucci), antes de deixar o prédio resolvi fazer uma visita ao Delegado Regional Sílvio Gomes (recém revertido no cargo – estava aposentado e pediu para retornar ao serviço ativo). Entrei no gabinete de Sílvio acompanhado de Marilisa e fui me anunciando. Logo que me viu deixou o computador e veio ao meu encontro e dizendo:

- “Doutor, o senhor está fazendo muita falta. Eu lhe devo desculpas. Eu na época não lhe compreendi, muitos não o compreenderam, mas o senhor fez um belíssimo trabalho. Imagina, naquela época de ditadura, onde não se tinha tanta liberdade, o senhor viajava, vinha com aquele seu jeito calmo. O senhor sempre foi muito diplomático, muito habilidoso, conversava com a gente.  O pessoal tem perguntando onde é que anda o ‘doutor Felipe Genovez’? Ninguém ouve mais nada. O senhor está fazendo muita falta, o senhor fez muitas coisas pela instituição...”.

Interrompi e pensei em dizer que naquele meu momento estava mais para uma “estrela bêbada e apagada”, mas resolvi apenas comentar que  me preparei para sair de cena. Dr. Sílvio insistiu sobre a minha importância, experiência e como estaria fazendo falta à instituição. Argumentei que sempre critiquei a “politicagem” no preenchimento dos cargos de direção e que teria optado por não utilizar desses meios para ascender ao poder. Sílvio – que havia sido  colocado politicamente no cargo de DRP – pareceu que sentiu um leve engasgo na garganta, mas rapidamente retomou o assunto anterior quando percebi a presença de Marilisa ao meu lado atenta a nossa conversa típica do mundo tupiniquim de “Haporema”.