Dia 19.07.07, isso no período da tarde,  já havia retornado para Delegacia Regional de Joinville juntamente com Marilisa, José Alves, a Escrivã Margarete Jansen e o Agente de Polícia “Zico”. Depois de concluir as audiências pertinentes ao processo disciplinar (a mesma que  apurava faltas disciplinares atribuídas ao Delegado Marcucci). A viagem estava ocorrendo com a presença dos Delegados José Alves e Marilisa Boehm, mais a Escrivã Margarete Jansen e o policial (motorista) “Zico”.  O Delegado Alves tinha saído de um plantão na Central de Polícia e não teve direito a descanso, estava com um péssimo aspecto, barba por fazer, sonolento... Marilisa que estava de férias, parecia que teve que interrompê-las para acompanhar a comissão, além de estar com uma gripe terrível. Mas a vontade de ajudar e participar era maior que tudo, pessoas valorosas, a solidariedade era total e a minha gratidão maior. Acertei com Marilisa que conversaria com Dirceu Silveira para interromper suas férias nos dias que teve que trabalhar para a Corregedoria. Achei que era tranqüilo, em nenhum momento imaginei que haveria algum senão da parte do Delegado Regional para um “Corregedor”, ainda mais em se tratando de um legítimo direito e uma questão de justiça administrativa. Com os espíritos desarmados, eu e Marilisa fomos direto até o gabinete do Delegado Regional  que parecia ocupado atendendo um advogado e mais uma pessoa que desconfiei ser um policial. Dirceu estava sentado em sua mesa trajando terno escuro, vestido a caráter, e eu aproveitei para sinalizar da porta que aguardaria, muito embora ele fizesse sinal para que entrasse sem maiores formalidades, já era um costume seu quando me via chegar. Aliás, Dirceu Silveira sempre foi uma pessoa especial no tratamento que me dispensava, parecíamos amigos, aliados, prontos para defender projetos institucionais, unir forças por uma causa superior... Porém, nessa ocasião resolvi dar um tempinho e esperar na recepção. Depois de alguns instantes, quando o recinto-mor já estava desocupado, adentramos e fui direto:

- ”Dirceu a Marilisa está de férias, porém está trabalhando normalmente por convocação da Corregedoria. Ela está numa comissão de processo disciplinar comigo e eu preciso que as férias dela sejam interrompidas nesses dias que está trabalhando...”.

Dirceu assumiu uma postura de autoridade superior, como se encarnasse a figura do Delegado-Geral que foi no passado, fixou-se em Marilisa e passou a lhe dirigir a palavra dizendo mais ou menos isto:

- “Mas isso é assunto da Corregedoria, eu não tenho nada com essa convocação de vocês.  Ela tem que acertar isso é com a Corregedoria, não comigo. Doutora Marilisa as suas férias já estão terminando! A senhora quer que suspenda as suas férias a partir do dia dezessete até o dia vinte dois?  Então é melhor voltar a trabalhar até o final do mês, depois pede férias novamente.  Mas isso não é assim,  tem que fazer um expediente lá para o ‘Marquinhos’ e sabe como ele é ‘temperamental’, da aqueles ataques...”. 

Dirceu deixou escapar um sorriso e quis ensaiar uns trejeitos do “Marquito” que eu conhecia muito bem em razão da nossa grande amizade”, mais parecendo embasar a negativa ácida do pleito correcional. Diante do descaso com as minhas considerações, acabei me segurando na cadeira, pensei em pegar o meu celular e ligar diretamente para “Marquinhos” no Setor de Recursos Humanos da SSP, mas estava sem carga e só tive que lamentar o fato, tendo que ouvir aquilo, como se fosse o “Marquinhos” o próprio “Papa”, ou “Secretário”. Na verdade Dirceu Silveira estava querendo mostrar para Marilisa quem é que mandava ali, que eu fosse um estranho na região, uma espécie de estorvo, alguém inferior... e que ela devia submissão a ele que seria o “galo do terreiro”. Procurei manter a calma interior, fiquei prestando atenção em Dirceu Silveira, depois em Marilisa que parecia fragilizada, insegura e reprimida, tudo isso agravado por seu estado gripal naqueles dias, ainda tendo que ouvir toda aquela série de empecilhos criados por seu superior imediato que não media as palavras para fixar seus petardos e para isso trovava, inventava, invocava..., tudo querendo parecer técnico, mas percebia-se claramente que era especialmente pessoal.  Não conseguia acreditar no que ouvia, naqueles seus excessos verbais, na carga emocional de seus gestos e palavras. Procurava manter meu olhar fixo em Dirceu Silveira para não perder nenhum detalhe, até a pele do seu rosto pareceu mais alva, sua voz cortante..., parecia um “Czar” que jamais perdeu a sua majestade,  um “controlador de situações críticas internas”, o “senhor do destino dos fracos”, “a autoridade suprema tupiniquim”...  Marilisa continuava empalidecida, sem voz, parecia segurar-se na cadeira, sem capacidade de se opor, argumentar..., a certa altura fiquei mais preocupado com ela do que comigo mesmo que me sentia afrontado aos extremos, pois além da minha posição de “Corregedor”, Delegado Especial bem mais antigo, me considerava “amigo” de Dirceu Silveira há décadas, e nunca tinha visto aquela sua arte cênica no tratamento de uma Delegada, enquanto que Marilisa se esforçava para manter sua dignidade. Procurei segurar firme com as duas mãos na parte superior do encosto da  cadeira que estava na minha frente, arcando um pouco o corpo e deixando as coisas acontecerem sem intervir, apenas dei uma tirada arrefecedora para registrar:

- “É verdade, o ‘Marquinhos’ é muito temperamental, é bom tomar cuidado!”

Fiquei imaginando se pudesse ligar para o ‘Marquinhos’ para dizer: “Olha só, está indo uma ‘CI’ de suspensão das férias da doutora Marilisa de tanto a tanto, processa, anota, manda para ficha agora e tchal!”  Mas Dirceu falava de “Marquito” como se fosse seu secretário semideus ou talvez fosse ele encarnando as duas ou três figuras. Para minha surpresa Dirceu
Silveira finalmente se dirigiu para mim depois daquela incursão e num tom desafiante e determinante vaticinou:

- “Delegado, tem que ser assim! Delegado, temos que fazer isso! Delegado, não existe outra alternativa...”.

Enquanto ouvia aquele vocativo “delegado” vindo do majestoso Dirceu Silveira aquilo permaneceu martelando minhas memórias, soava como um mandamento, uma ordem suprema, uma demonstração inequívoca de alguém que queria mais do que tudo mostrar poder, precisava se impor, era uma questão de externar toda a sua  autoridade, não estava ali  a figura do “Corregedor”, mas sim de um Delegado qualquer seu subordinado ou sem qualquer substância, em nível de Marilisa, Alves...  ou de qualquer outra pessoa submetida a sua autoridade.  Achei que já tinha ficado tempo demais  no gabinete do Delegado Regional e lamentei amargamente por aquela situação, afinal, depois de onze anos como Delegado Especial,  exercendo as funções de Corregedor pude perceber toda a nossa vulnerabilidade frente a uma instituição sem segurança jurídica, administrativa, independência funcional, ausência de valores, falta de respeito..., sem nunca ter procurado algum político para pedir cargo comissionado, tendo que ouvir aquilo de Dirceu Silveira cacifado politicamente pelo Governador Luiz Henrique da Silveira que tinha como seu cabo eleitoral um vereador do PMDB (Bizzoni) que era seu sogro, além de Delegado de Quarta Entrância, sem contar os escândalos e a repercussão na mídia como a fuga do Nenê da Costeira (Deic), na “Festa da Marlene Rica”, a sua gestão como Delegado-Geral (2003/2004), depois o afastamento  das funções em razão de investigações relativas a problemas funcionais na 7ª DP/Joinville em 2004/2005... Sim, não que ele fosse culpado de alguma coisa, mas tudo tinha conexão com a sua época... E naquela investigação sob minha responsabilidade ficou comprovado o uso indevido das viaturas por vários servidores da DRP de Joinville..., mas procurei sublimar sua responsabilidade propondo uma advertência a todos, quando poderia ter proposto até abertura de processo disciplinar, sem contar que o assunto poderia vazar para imprensa e ainda ser instigada a participação do Ministério Público...  Marilisa e Alves estavam dando o sangue deles pela instituição e Dirceu Silveira parecia querer medir forças, como naquele filme de Charles Chaplin com o globo terrestre sobre a cabeça e depois chutando como se fosse bola de futebol..., sim, estava com o estômago embrulhado, jamais poderia esperar aquele tipo de comportamento, Dirceu Silveira pareceu possuído, messiânico, pernóstico com seus  vaticínios ilógicos e inventados para ferir almas e corações.

Logo que saí do gabinete do Delegado Regional tive desabafei com Marilisa e acabamos nós dois nos confortando uma ao outro, ela ainda comentou que em razão da gripe e da sua imunidade baixa não teve forças para revidar a tamanha humilhação... Eu, lembrei que aquilo era uma afronta aos “amigos”, à  “Corregedoria”, pois os dois Delegados tinham trabalhado por convocação do órgão e Dirceu Silveira não tinha nada que questionar, criar dificuldades, inventar situações, humilhar...  Marilisa confidenciou:

- “Tu não visse nada.  Tu não sabe o que ele faz com os Delegados aqui. O coitado do Alves só fala em se aposentar, não está agüentando mais. Ele pensa que é o  ‘reisinho’, tu precisas ver o que ele apronta para o pessoal, mas a sorte dele é que me pegou com gripe, ah se eu estivesse boa revidava na cara dele, ah, revidava mesmo...!”

 Aproveitei para argumentar:

- “Olha, Marilisa, na verdade eu fiquei foi com pena dele. Precisar fazer isso? Criar dificuldades para mostrar que detém o poder, mostrar que manda mais, que vergonha, acho que estou é com pena dele, que ridículo, como são pequenas nossas conquistas...”.

Marilisa escutou e reiterou:

- “Tu não visse nada ainda aqui na Regional, tudo porque ele tem o governador que protege ele, que é o padrinho dele, por isso que ele faz isso com a gente, porque tem as costas quente...”.

Interrompi:

- “Que vergonha, é por isso que nós estamos nessa situação, é por causa dessa politicagem, desse tipo de gente em cargos de comando que andamos para trás, se preocupam com seus umbigos e a perseguir os críticos... Olha Marilisa em senti muito por ti. Sinceramente, vi tu ficares branca, passada na frente dele,  nunca te vi assim...”.

Em seguida, eu e Marilisa fomos até os fundos da DRP de Joinville para apanhar nossos carros e eu aproveitei para entregar minha “maquina”  treme-treme para que ela utilizasse nas suas férias na “lixação” da parede do quarto do seu filho, onde pretendia passar massa corrida e pintar. Marilisa ficou surpresa porque eu estava com a “maquininha”no meu carro, ou seja, não tinha esquecido a promessa de ontem. Próximo do meu carro, que estava embaixo do telhado coberto e num ponto reservado, sem muita visão, chamei Marilisa para que junto comigo percebesse a presença da “treme-treme” Bosch no assoalho do meu carro. Foi engraçado porque quando a chamei para aquele lugar mais escurinho ela veio cheia de graça e sem qualquer freio, como se tivesse gostado da idéia. Eu fiquei pensando nas coisas mais imediatas, como aquele abraço, beijos de despedida, carinho, mas não era indicado, oportuno, sensato..., tampouco, algo mais provocativo, até desejos “selvagens” de grandes amigos provocativos e desafiadores.