O retorno do Delegado Thomé:

Dia 19.09.07, por volta das dez horas da manhã, recebi uma mensagem de voz no meu celular. Era o Delegado Thomé que deixou o seguinte recado: “Felipe, é o Ricardo Thomé. Eu preciso de um contato, por favor. O número do meu celular é 99723128. Obrigado, amigo”. Estava na Delegacia de Polícia de Piçarras e pedi para a policial Patrícia localizar a Escrivã Margarete (estava em Blumenau) e pedi que ela entrasse em contato com Thomé para verificar o que ele estava querendo (presumi que deveria estar querendo conversar alguma coisa sobre seu depoimento no processo disciplinar do Delegado Marcucci).

Depois desse contato fiquei pensando se realmente iria ouvir Thomé como testemunha no caso “Marcucci”, muito provavelmente iria indeferir a sua oitiva para evitar possíveis atritos entre ambos, situações constrangedoras... Afinal, éramos todos vítimas e algozes, passageiros de um asteroide cheio de metais tóxicos com trajetórias imprevisíveis e indefectíveis. Mais, ainda, me sentia eternamente preso ao passado com a atribuição de estender a mão na tentativa de salvar almas vagantes de um mesmo espaço e tempo cujos homens se deixaram embrutecer e se tornaram insensíveis para ver o essencial das pessoas e das coisas.   

O folgoso Comissário Petters: 

Horário: quinze horas, cheguei na Delegacia Regional de Blumenau, e logo que o Delegado Rodrigo Marquetti me viu botou as mãos na cabeça e foi dizendo:

- “Meu Deus, de novo aqui?” 

Olhei para o Comissário Petter (responsável pela área de jogos e diversões) e minimizei dizendo que apenas apareci ali para complementar o resto do trabalho. Logo que fiquei sozinho com Rodrigo comentei que no dia anterior tinha ouvido o pessoal na 2ª DP/Blumenau e que para poupar o Delegado Rafael de uma punição disciplinar e, talvez, comprometendo seu estágio probatório, teria também que dar um tratamento mais flexível para com a Escrivã Dioni. O problema era que Rodrigo havia prestado declarações comprometendo Dioni, dizendo que a mesma não trabalhava, não produzia, era devagar, não queria nada com nada...  Rodrigo me fixou, dando a impressão que estava medindo seus comentários, enquanto eu aproveitei para completar:

- “O Rafael parece ser uma pessoa muito boa e não pode ser prejudicado. Na verdade ele errou porque se deixou manipular pela Dioni. Aqueles inquéritos não poderiam ser remetidos à Justiça naquele estado em que a Delegada Rosi deixou. Quando a Dioni trouxe os inquéritos para o Rafael era para ele chamar para si a responsabilidade e determinar a Dioni que era para prosseguir, não para mandar para o fórum daquele jeito, pela metade, com muitas diligências para serem feitas”.

Disse para Rodrigo que alguns Delegados defendiam Dioni e Rodrigo Marquetti me observou curioso, a seguir me perguntou ansioso e com o olhar de “regalo”:

- “Quem elogia ela, me diz?”

Delegado Darolt elogia a Escrivã Dioni:

Pensei em frações de segundos e resolvi poupar a Delegada Jane Picoli, mudei a trajetória, colocando Darolt no fogo, já que queria ficar bem como todos os lados, e respondi:

- “O Darolt elogia ela!”

Rodrigo como uma flecha, não perdeu tempo, gesticulando as mãos para o alto, vaticinou:

- “Ah, mas o Darolt é um ‘v.’. Ele nunca trabalhou...”.

Permaneci em silêncio e não quis comentar aquela afirmação, apenas acrescentei:

- “Mas o caso da Segunda DP vai ter que ter esse tratamento. Para não sobrar para o Rafael eu também tenho que poupar a Dioni, não tem outro jeito, porque sempre combati aquela máxima de que a corda sempre rebenta no lado mais fraco, e no caso é a Dioni. O Rafael também errou, aliás, ele não poderia ter assinado aqueles inquéritos daquele jeito. Está certo que a Dioni me pareceu estrategista. Ela não quis tocar os inquéritos da Rosi Serafim e para se livrar manobrou o Rafael que era inexperiente...”.

Rodrigo concordou com o meu raciocínio, porém, adicionou:

- “Tudo bem, tudo bem, mas ela tem que receber no mínimo uma advertência. O que não pode é ela fazer o que fez e depois ficar por aí impune. Foi muito grave o que ela fez. Ele precisa ser advertida para saber que nós temos conhecimento do que ela fez, porque se não ela vai pensar que somos uns bobos...”.

A métrica “RLT”:

Fiquei pensando sobre as opiniões do DRP de Blumenau e prometi para mim mesmo meditar um pouco mais sobre o assunto, mas para mim a conversa que tive com a Delegada Jane Picoli foi decisiva para que eu adotasse aquele encaminhamento. Depois de tudo isso tive a certeza que fosse para a Escrivã Dioni ser punida, também, teria que sobrar punição para o Delegado Rafael. No curso da conversa, o Rodrigo Marchetti fez um novo comentário, mudando o curso da nossa conversa:

- “Mas Felipe, pensando bem o Thomé agiu certo em mandar os Delegados mais experientes para a Corregedoria, como no teu caso. Imagina, antes eram aquelas Delegadas novinhas, só queriam saber de punir, saíam por aí caçando bruxas. O Thomé fez muitas coisas boas, imagina, colocou gente como você, experiente, aí sim...”. 

Olhei para Rodrigo e pensei: “Tá aí, Rodrigo Marchetti é um pouco parecido com Thomé,  gosta daquele estilo, bateu levou, vai goela abaixo, não tem choro, não tem perdão, é pau na cara, meu pirão primeiro...” pensei.  Aproveitei para rebater aquele raciocínio e fiz o seguinte comentário:

- “Bom, uma coisa é você ser mandado para a Corregedoria de maneira digna, atendendo a um convite, agora outra coisas bem diferente é você se sentir humilhado, quando o Thomé ingressou como Delegado eu já era Delegado que equivale hoje à terceira entrância”.

Quando falei aquilo Rodrigo e Petters me fitaram, sem entender muito bem o que eu estava dizendo. Aproveitei para completar:

- “Bom,  o Thomé fez de tudo para reduzir a ‘Assistência Jurídica’, fez de tudo para me tirar de lá, foi uma revanche, acho que tudo por causa de um parecer que eu dei contrariando um interesse dele na época em que pleiteava pontos por merecimento. Ele queria que um livro que havia lançado fosse contabilizado para promoção e para isso contava com o meu parecer favorável e uma decisão rápida do Conselho Superior...  Depois, quando ele assumiu a Delegacia-Geral uma das medidas que tomou foi me botar para correr, me mandou para a Corregedoria sem conversa, sem consulta... Tudo bem, eu trabalho em qualquer posto, me adapto fácil, sempre gostei de trabalhar. Mas, convenhamos, uma coisa é chamar os Delegados antigos, procurando valorizá-los, reconhecer os seus trabalhos, os legados..., outra é humilhá-los de forma direta ou velada. Foi assim que eu me senti, desprestigiado, desconsiderado...”.

Rodrigo me interrompeu:

- “Como isso é ruim, né Felipe?  Esse tipo de jogo prejudica a instituição”.

Concordei, entretanto, não se poderia apenas criticar Thomé e o seu desejo ardente de poder para si, mas sempre foi assim na Segurança Pública, na Polícia Civil, a corrida de Delegados por disputas internas para chegar a cargos de direção, como nos casos de Heitor Sché, Maurício Eskudlark e outros. Não quis criticar diretamente o próprio Delegado Rodrigo Machetti por ser à época um Delegado de Primeira Entrância que ocupava um cargo de Delegado Regional numa cidade importante como Blumenau, cacifado politicamente pelo Deputado Jean Kulmann enquanto que muitos Delegados antigos estavam penando porque não faziam o jogo político. A seguir Marchetti  pareceu querer enveredar o caminho do “caçador” ou “exterminador”, passando a assacar críticas a determinados Delegados...  Olhei mais uma vez na direção de uma mesa localizada na parte dos fundos do gabinete do DRP de Blumenau e visualizei trajes esportivos do time de futebol dos policiais civis, imitando o time do Figueirense.  Pensei: “Bom, uma forma de ter o pessoal nas mãos era integrar, distrair, animar, liderar, se fazer querido, e o futebol aliado a  churrascos, cervejas era um ingrediente infalível...”.  Observei mais uma vez o Comissário Petter e logo intui que ele era “o cara”, no sentido de articular e ser o “especialista”, o “boxer”, o “bem virtuoso”, que transitava folgoso...,  o homem que controlava jogos e diversões, bares, máquinas caça-níqueis...