Delegado Marcucci insisti na oitiva do Juiz João Marcos Buch:

Ainda, no dia 21.09.07, no horário das 14:30 horas, logo que terminei a ouvida da testemunha Tadeu, o Delegado Marcucci disse que iria me mandar o requerimento insistindo para ser ouvido o juiz Marcos Buck. Argumentei que receberia o documento, mas que provavelmente iria indeferir. Marcucci insistiu que era importante ouvir aquele magistrado justamente porque as diligências que derem origem ao Processo Disciplinar partiram dele. Argumentei que conversei com o Juiz Marcos Buch e ele me disse que se julgava suspeito de testemunhar no referido processo porque foi o responsável pela condenação. Marcucci me perguntou se no meu despacho de indeferimento eu iria colocar isso (que o Juiz havia se julgado suspeito). Respondi que sim, pois era fato verdadeiro que ele se julgou suspeito para participar do processo como testemunha de defesa no seu caso.  Depois que assinamos os documentos relativos à audiência, fui imprimir cópia do meu parecer sobre “Termos Circunstanciados” (encaminhados ao Delegado-Geral) para serem repassados para os Delegados Marilisa e Gentil. Meu objetivo era que divulgassem o material, tomassem conhecimento, fizessem uma reflexão. Também, pretendia entregar para Marilisa uma cópia do anteprojeto do nosso “Fundo de Aposentadoria”, com as alterações que o Delegado Wilmar Domingues juntamente comigo havia acrescentado (vinte por cento para Coronéis quando se aposentassem). Gentil tentou argumentar que aquele “Fundo” não era bem assim, que o pessoal lá do futebol comentou que os PMs já tinham esse benefício há muitos anos e constava do Estatuto deles, mas o governo não pagava. Marilisa, ao receber o material comentou que iria marcar um encontro com o Deputado Darci de Matos. Antes que ela terminasse reiterei que ‘nós’ (eu, Wilmar e outros) estávamos tentando fazer alguma coisa pela Capital. Marilisa se calou. Retornei com os impressos e fiz uma dedicatória datada no rosto da primeira folha a cada um deles. Em seguida, pedi licença e fui para o gabinete do DRP Dirceu Silveira. 

A recorrente tensão de Marilisa:

Passados alguns minutos, quando eu e Dirceu Silveira conversávamos a sós (enquanto pedi para “Zico” localizar onde eu havia esquecido minha jaqueta nova), Marilisa retornou, sentou do meu lado e foi dizendo para Dirceu, com uma voz tensa, uma conduta nada de uma mulher feliz, tranqüila:

- “Disseram que tu querias falar comigo? Estou aqui...”.

Dirceu Silveira repassou um documento do jornalista “Toninho Neves” a respeito de crimes na Internet envolvendo uma parente sua (Orkut) e pediu para que Marilisa abraçasse as investigações. Marilisa afirmou que na próxima semana estaria viajando e que não poderia investigar nada. Dirceu Silveira pareceu ter ficado meio que sem jeito, enquanto Marilisa continuava visivelmente nervosa e insistiu:

- “A semana que vem eu estou fazendo um curso, lembra. Eu não posso fazer essa investigação. Manda a Vivian, eu não entendo nada de computador, nada de Internet...”. 

Dirceu Silveira pareceu meio que passado, ficou com o rosto branco, balançou a cabeça, ficou com a voz trêmula, quase que gaguejou, mas controlou-se bonito na minha frente. Retirou o documento das mãos de Marilisa dando a impressão que querida dizer “tudo bem”, porque  trataria de mandar outra pessoa investigar. Sugeri que mandasse para a DEIC na Capital. Dirceu Silveira tentou fazer um contato com um policial de Joinville que estava fazendo mestrado em computação e que poderia ajudar nas investigações. Em seguida, foi atender uma ligação no celular enquanto eu olhava para Marilisa e fazia um relato sobre a importância dos Delegados se aperfeiçoarem, procurarem se especializar, buscarem conhecimento... Cheguei a comentar:

- “Nos dias de hoje não dá para um Delegado ficar numa Delegacia e não entender um pouco de informática, pelo menos o básico. Eu fiz curso de programação em ‘Basic’..., tudo pago por mim, não fiquei esperando pela Secretaria...”. 

Delegadas Marilisa e Lúcia Stefanovich “zero grau”:

Marilisa me olhou e dava a nítida impressão que continuava “passada”, preferiu não abrir a boca, não comentar nada, apenas ser ouvinte, enquanto eu achava esquisita aquela relação entre os dois Delegados. Chequei a relatar que há alguns meses atrás mandei um amigo da Epagri procurar a 5ª DP da Capital para registrar uma ocorrência por suspeita de prática de crime de informática naquela empresa pública. Disse que o pessoal da Epagri procurou a Delegada Lúcia Stafanovich que foi sincera ao afirmar que não entendia nada de informática e que nem sabia ligar o computador. Relatei que o pessoal havia ficado horrorizado, pois achavam que a Polícia era super preparada e que os Delegados estavam bem instruídos e preparados em termos científico para defender a sociedade, mas que nada...  Marilisa, sem falar muito, levantou-se e pude perceber que seu corpo parecia engessado, sua face continuava visivelmente tensa, ela realmente parecia transtornada, endiabrada, e naquelas circunstâncias, dava a impressão que existia uma outra “Marilisa” escondida que invisivelmente grunhia os dentes, estava com todas as unhas rijas, com um olhar de serpente, com a voz tensa e o corpo de leoa pronta para dar um “salto” no ar... Era incrível aquela transformação, para assuntos científicos ela era “zero grau”, enquanto isso se transformava numa guerreira para outras questões..., a exemplo da Delegada Lúcia Stefanovich. Fiquei observando seu semblante curioso, lembrando das brigas da sua mãe com seu pai, dos seus venenos escondidos, das suas ideias alucinantes, e tudo o mais que os menos desavisados não poderiam perceber, a não com o devido tempo, um pouco de tempo adicional, mais tempo para se envelhecer juntos, muito tempo mais à frente de convivência....  Marilisa deixou o gabinete e Dirceu Silveira foi felino e direto:

- “Essa menina depois que foi Regional aqui virou outra pessoa. Essa menina antes da Regional aqui era uma, depois se transformou radicalmente. Felipe, tu precisavas ver, antes dela assumir a Regional ela estava na Delegacia da Mulher aqui em Joinville e fazia um excelente trabalho. Tu precisavas ver o conceito que a Delegacia tinha aqui em Joinville, todo mundo elogiava, ela era excelente. Depois, colocaram na Regional e aí, meu amigo, ela mudou. Era o Esperidião Amin telefonando para ela, o Limpinski, o Rachadel, era aquele parente dela, o Paulo Bauer, todo mundo usando ela, bom, eles telefonavam para ela aqui e mandavam ela fazer tal coisa politicamente e ela ia lá e fazia tudo que eles mandavam. Olha, ela chegou a entrar em choque, comprar uma briga com o Luiz Henrique, na época ele era o Prefeito da cidade. Tu acreditas que ela foi para a rádio criticar o Luiz Henrique, fez o maior escarcéu.  Essa menina começou a ficar totalmente perdida, só fazendo besteiras, no final, bom... Ela hoje toma remédio para dormir, remédio para acordar, remédio para trabalhar, remédio para comer... Ela é movida a remédios. Eu tenho pena dela. Depois da Regional ela não prestou mais...”.

Interrompi:

- “Mas, Dirceu, se eu fosse Regional aqui e passasse uma diligência para um Delegado fazer e ele tivesse esse comportamento que a Marilisa teve aqui, olha, não sei...”.

Dirceu interrompeu:

- “Sei, sei, mas no caso dessa menina eu conheço o passado dela. Na hora que ela me disse que não iria fazer eu tive que levar em conta toda uma história. Eu sei como lidar com ela. Se eu insistisse, ela iria entrar em parafuso, não dormiria, faria o maior rolo, e acabaria doente, internada. Eu conheço o meu eleitorado, podes ter certeza. Eu te falei que antes a Delegacia da Mulher funcionava, tinha conceito e a Marilisa fazia um bom trabalho. Depois que ela saiu da Regional e voltou para a Delegacia da Mulher tudo mudou. Tu acreditas que ela chegou a contaminar o pessoal lá na Delegacia da Mulher. Acaba todo mundo doente como ela lá, é a Kéthetlin, é a outra... E sabe o que é isso? É ela que acaba alimentando esse clima. Felipe, essa menina na época que era Regional aqui ela e o ex-marido tinham uma churrascaria. Tu acreditas que eles ganhavam dinheiro como água, muito  dinheiro. Ela chegava a comentar com o pessoal aqui que nunca ganhou tanto dinheiro na vida como naquela época. A cidade toda ia para lá, eram filas e filas naquela churrascaria. E, aí, o marido dela acabou engravidando uma empregada novinha e a partir daí tudo desandou na vida dela. O marido dela tem um programa aí na televisão, ele é medido com tradições gaúchas. Depois da separação ele recomeçou a vida, tocou para frente, se resolveu. Mas essa menina não. Ela não conseguiu. Enquanto o marido recomeçou numa boa, ela ficou assim, cada vez pior, a base de remédios...”. 

Interrompi:

- “Bom, mas ela devia ser muito apaixonada pelo ex-marido, pela família, pelos filhos. Um fato desses como ocorreu com ela pesou bastante, não achas?”

Dirceu concordou. Aproveitei para dizer que gostava muito de Marilisa. Dirceu também comentou que gostava dela e a respeitava muito. Procurei mudar de assunto e falar do Delegado José Alves. Dirceu Silveira me olhou e foi afirmando:

- “Tá aí, o Alves é outro. Tinha que se aposentar. Eu chegava a chamar ele de ‘velhinho’. Ele fugia do trabalho, não queria nada com nada e eu disse para ele: ‘É Alves, estais velhinho, tens que se aposentar...”.

Aproveitei para emendar:

- “Bom, eu tenho dito que a instituição é muito culpada com o que acontece na vida de nossos policiais. Esses Delegados Regionais novinhos, entraram ontem, vão atrás de políticos para ocupar cargos, depois só querem saber de promoções..., é uma vergonha, enquanto que os Delegados antigos são preteridos. Não vê, é só olhar agora, lá em Blumenau está o Rodrigo Marquetti, entrou ontem e já está no comando de Delegados antigos, o Marcucci foi outro exemplo aqui. Lá em Chapecó, a Tatiane Klein foi outro exemplo, como tu dissesses, a Regional acabou com ela. Antes ela era uma Delegada, depois ela se transformou noutra...”.

A ‘bomba’ contra o Delegado Mário Calatto:

Dirceu me interrompeu, concordando que realmente a ingerêncìa política era uma das maiores doenças que enfrentávamos  e, a seguir, mudou de assunto e falou de uma “bomba” contra o Delegado Márcio Colatto que estava em suas mãos. Diante da minha curiosidade, Dirceu Silveira mostrou uma requisição do Promotor Tramontin, pedindo diligências para localizar uma caminhonete que havia desaparecida na época em que Colatto estava respondendo pela DRP de Joinville, quando efetuaram uma prisão de estelionatários, e a caminhonete dos mesmos desapareceu. Recomendei que mandasse o material para a Corregedoria, cujos fatos já eram do conhecimento do órgão correcional. No final da conversa, lamentei que muitos Delegados não têm noção da importância de participar, trabalhar, dedicar-se a luta institucional, engajar-se...