Dia 06.09.07, por volta das dezesseis e trinta recebi uma denúncia durante minha semana de plantão correicional. Uma pessoa que se dizia chamar Adriano (não fornecerei o sobrenome) relatou que uma mulher de nome “Marilisa” (não sei se com “z” ou “s”) havia dito que um “Delegado” da cidade estava falando mal dele, comentando que era vagabundo, que não prestava, que se tratava de um bandido...  O denunciante repassou as informações, inclusive o número do telefone da mulher.  Como para mim era um tipo de ocorrência banal (não envolvia denúncia de corrupção, peculato, crimes contra a administração pública envolvendo policiais...), a fim de economizar tempo e encurtar distâncias, resolvi ligar diretamente para o número da tal “Marilisa”.  Claro que estava com a outra “Marilisa” na cabeça e certamente que isso aguçou minha curiosidade, fez aflorar todo o meu imaginário carreado por brumas que envolviam clivagens com ingredientes contendo doçura, candura, amizade, carinho..., além de curiosidade, dúvidas, desafios, desatinos, desabafos... 

Logo que iniciei a conversação com “Marilisa G.” ela simplesmente deu a impressão que passou a duvidar e na medida que tentava me inserir no contexto dos fatos pude observar que ela cada vez mais parecia querer me encurralar como se estivesse sendo vítima de um ardil... Essa “Marilisa” se apresentava como uma pessoa cruel, destemperada, sem limites, arrogante..., a todo momento me questionava quem eu era, por que estava ligando para ela e, ao final, arrematou que o denunciante era uma pessoa problemática... Procurei me identificar, mas de nada valeu, a tal “Marilisa” continuava cheia de venenos, desconfiada, pronta para ir além dos limites, demonstrava ser uma pessoa irascível, sem limites, com problemas existenciais... e com sua língua felina foi questionando o que eu deveria ter feito antes de ligar para ela (como se colocasse num patamar de superioridade, como se fosse inatingível..., revelando ignorância sobre a vida, carência de espiritualidade, falta de alma..., talvez não se amasse, se detestasse...):

- “Você deveria ter levantado antes para saber quem é esse sujeito, onde já se viu? Passar a acusar alguém por aí sem provas...? Por que não fez uma investigação antes...?”

Na medida em que tentava em vão prolongar nossa conversa na busca de esclarecer os fatos, essa tal “Marilisa” se revelava uma pessoa peçonhenta, doentia, digna de muita pena..., bem provavelmente porque deveria estar se sentindo muito mal com as investidas do denunciante que segundo ela teria dado mais de oitocentos telefonemas para sua casa, e que o mesmo estava a perseguindo desde a época do “Orkut”.

Diante desse cenário resolvi usar de habilidade e não radicalizar com a nova “Marilisa”, procurando adotar uma atitude de humildade e ao mesmo tempo mantendo minhas contingências de autoridade correcional e policial totalmente distante até porque esse contato tinha repercussão difusa na minha vida. Então, a estratégia que adotei foi usar da tolerância (até em respeito aquela pessoa com toda uma vida pela frente, que merecia chances de aprendizado, já que a vida poderia lhe cobrar um preço muito alto...).

E, como percebi que não iria a lugar nenhum, resolvi deixar apenas um muito obrigado pelas informações e me desculpar, não dando chances para ela fazer qualquer tipo de questionamento... Era difícil porque essa “Marilisa” não aceitava nada que eu dissesse, tudo era motivo para contestação. Não passou mais do que dez minutos e a telefonista me repassou uma ligação. Advinha quem era? Sim era a tal da “Marilisa”, a que tinha acabado de conversar comigo. Logo de início foi dizendo:

- “Você bateu o telefone na minha cara!”

Argumentei:

- “Não senhora. Eu agradeci as informações e me desculpei por ter ligado”.

“Marilisa” foi dizendo:

- “O senhor pela voz deve ser um Delegado novo, eu não entendo, para trabalhar numa Corregedoria um Delegado deve ter alguma experiência, deve ser um profissional experiente, como é que o senhor vem ligar para mim sem fazer uma investigação prévia sobre esse sujeito? Vocês têm acesso às informações de pessoas nas Delegacias e é só olhar que vai aparecer um monte de denúncias. Ele é viciado em crack e é traficante de drogas, eu já recebi mais de seiscentos telefonemas dele. Você ligou para esse número, mas eu não moro aqui. Quem mora aqui é minha mãe. Eu cheguei a pensar que era um ‘trote’,  eu cheguei a pensar que era um trote. O senhor sabe que pode ser investigado por seus colegas?” 

Apesar de estar sendo desacatado e já poder tomar alguma providência legal, procurei usar a mesma estratégia de antes, ou seja, não alimentar aquela sua raiva, aquele seu rancor (mais por respeito a sua dor, incomodações, desgastes emocionais) e ponderei:

- “Mas minha senhora, eu peço desculpas, para mim o caso já está encerrado. A senhora disse que não é verdade que um Delegado tenha falado mal dele para a senhora, não falou? Então para mim o caso já está encerrado. A sua palavra mereceu credibilidade, pronto!”

“Marilisa” reagia, atacava, parecia estar em fúria, a impressão era que queria mesmo guerra e descarregar toda a sua ira em alguém, porém, mantive  em guarda toda minha tolerância, já que no mundo correicional o universo das pessoas envolvidas em ocorrências se apresentava muito cruel, as pessoas eram amargas, vítimas de injustiças... No final da conversa, orientei que era muito grave existirem mais de oitocentos telefonemas para sua casa e perguntei quantas ocorrências ela já havia registrado contra o denunciante. Acabei descobrindo que não registrou nenhuma. “Marilisa” acabou dizendo que iria registrar uma ocorrência e que indicaria meu nome. Chegou a perguntar se poderia citar o meu nome e eu disse que sim, não teria problema algum citar o nome do Corregedor que prestou atendimento a sua ocorrência.

Orientei “Marilisa” ainda a procurar uma Delegacia de Polícia, caso se sentisse vítima de alguma ameaça ou constrangimento.  Quase no final da conversa, argumentei que entendi ligar para ela para o esclarecimento rápido dos fatos, pois poderia intimá-la a ter que vir depor na Corregedoria, o que seria uma perda de tempo, um desperdício, até um desrespeito, posto que o denunciante não apresentou prova alguma das suas acusações e que o nosso objetivo era apenas saber da conduta disciplinar e ética de nossos policiais.

Em seguida, ligou o tal do Adriano querendo saber o que “Marilisa” havia dito, qual teria sido a sua reação. Como no telefonema anterior, com toda tranquilidade, reiterei que ela negou que algum Delegado a tivesse procurado e falado mal do denunciante, entretanto, por razões éticas, não poderia declinar nada mais a respeito do teor da conversa que tive com “Marilisa G”. Como não obteve qualquer informação sobre as diligências sobre os fatos Adriano passou a se apresentar contrariado a ponto de quase ironizar “Marilisa”, mas teve que acabar cedendo diante do meu silêncio. A seguir orientei que se tivesse alguma prova de suas alegações, especificamente, se realmente algum Delegado tivesse falado mal dele que apresentasse as provas. O denunciante tentou ainda argumentar que uma amiga dessa “Mariisa” teria ouvido a mesma comentar que um “Delegado” o teria difamado. Reiterei que ele apresentasse os nomes para que eu pudesse apurar. 

Marilisas “B.” & “G.”:

Depois que finalizei essa ligação, fiquei pensando nas duas “Marilisas”, mas esta última me trouxe novas luzes e a impressão era que talvez fosse um sinal para que pudesse dar densidade a outra “Marilisa” que não conseguia enxergar... Acho que essa nova “Marilisa” me fez mergulhar num lago triste, cheio de perigos armados, precipícios,  objetos pontiagudos para pegar os incautos, animais marinhos peçonhentos...  E, pensei que estávamos num mundo cheio de pessoas tipo “pássaros feridos” que se tornam belicosas para sobreviver ás adversidades que elas mesmas geram nas relações com seus semelhantes e nisso ferem na busca de cura espiritual, especializam sua insensibilidade para aplacar suas vulnerabilidades e dores Essa segunda “Marilisa” me trouxe algumas lições, sim, claro que errei intencional porque precisava me alimentar dessa onda de energia, na medida que no modo formal deveria ter aprofundado as investigações, registrado a ocorrência no plantão, expedido intimação para a “investigada” para que prestasse os esclarecimentos e respondesse por seus possíveis “excessos”... Mas, também, conduzi minha conversação com “Marilisa G.” como forma de humanizar as relações entre as pessoas e um “Estado” que pode tudo, de governantes corruptos que se utilizam das instituições para impingir injustiças às pessoas simples e humildes, evitando ter sido técnico, mesmo sabendo que assim teria me poupado desgastes desnecessários, procedimento que um “Corregedor” novo certamente teria adotado facilmente. 

Registre-se que de cada mil ocorrências correcionais uma teria que dar errado. “Marilisa B.” nunca foi e nem nunca será essa outra “Marilisa G.” (que talvez seja uma pessoa boa e poderia se tornar uma grande amiga...).  Outra conclusão era que todas as “Marilisas” que existiam no mundo também possuíam seus outros lados, o que é parte da natureza humana e de todos nós, porém, somente essas duas “Marilisas” faziam agora partes do meu universo pessoal. Diante disso me perguntei quais os possíveis erros que estaria cometendo no caso da “Marilisa B.?” A nova “Marilisa” teria me sinalizado que o momento chegou para entender todo o seu processo existencial do plano pessoal para o profissional?

“Fleixeiras Marilisianas”:

Sim, estava bem no centro de petardos direcionados ao meu peito e as “flexeiras marilisianas” pareciam querer acertar meu coração. Estariam elas mesmo em guerra contra o mundo? E eu, não?  Sim, mas era a natureza dos homens e das mulheres que falava mais alto.

Haveria um “triunfo final”?

Acabei lembrando de certas pessoas “especiais” que passaram por minha trajetória, desde a época em que me perguntei se haveria um “Triunfo Final”? E tive que trazer de volta à cena alguns personagens amigos que marcaram minha trajetória profissional. Por primeiro, o Escrivão Osnelito Souza, um personagem bizarro no cenário histórico policial (com quem convivi na época que presidi a “Federação Catarinense dos Policiais Civis”), enquanto me posicionei na condição de “autoridade policial” eu era uma figura distante e intransponível, tinha o respeito, a consideração e a sua amizade, mas quando me revelei de maneira humana, simples, verdadeira, um líder classista igual e a serviço de todos, parece que isso acionou um gatilho, toda as suas frustrações represadas ao longo dos anos com a vida profissional afloraram contra mim que na condição superior hierárquico simbolizava opressão e o motivo para a existência de tantos recalques introjetados (como se fosse responsável por não conseguir realizar seu sonho na sua aprovação no concurso para Delegado de Polícia...).  Em seguida, lembrei do ex-Delegado-Geral Jorge César Xavier, que enquanto tinha esperança de voltar ao poder, para tanto, necessitava de seus “soldadinhos”, de usar pessoas para atingir seus objetivos de “grandeza’ (no meu caso era evidente que também tinha os meus projetos institucionais...), agia como uma pessoa chegada, próxima, cheia de afinidades... Depois, veio “Jô Guedes” (Inspetora “Jociane Guedes Martins”), a maior de todas (apesar da menor estatura...), competente, um trator profissional, lutadora..., mas, imprevisível em razão da sua luta (para atingir fins pessoais...), de seus objetivos, das alianças (Deus e o Diabo, se fosse necessário...?),  ou do seu “eu”, que poderia ser maior que tudo? Aí entrou em cena o Delegado-Filósofo Rubem Garcez, com seu silêncio e sabedorias tupiniquins, tudo mais parecendo apanágio, alegoria, ponto de fuga.., para que pudesse manter invisível sua própria fragilidade dentro do sistema, seus temores, inseguranças, angústias, frustrações nos planos existencial e profissional  E, por último, “Marilisa”, que ingressou na instituição como se por acidente, já que teria sido guindada politicamente no cargo de Delegado Regional da maior cidade do Estado, apesar de haver colegas mais antigos e graduados...  Assim como Osnelito, “Jô Guedes” e o Delegado Garcez, Marilisa se descobriu uma pessoa frustrada com a carreira que escolheu, talvez entendesse quando o Delegado Alves se reportou a ela como uma “esperta” que só se fazia de tola, morta... para se dar bem e sobreviver, seria isso mesmo? Mas se fosse isso, será que essa “esperteza” levaria a lugar algum...? Talvez apenas o tempo viesse a demonstrar que essa relação era puramente de consumo e se deixar consumir, tudo se resumindo em esperar uma aposentadoria e ir embora sem olhar para trás, enquanto isso... A diferença entre Marilisa e Garcez era que este ingressou por ideal e Marilisa acredito que foi por necessidade e oportunidade... Era verdade que gostava de todos eles e com os mesmos vivi grandes emoções, sorvi grandes energias em termos pessoais e profissionais e momentos inesquecíveis, respirei, narrei, sofri em silêncio, morri, renasci... que resultou numa experiência de vida que me situou num mesmo patamar que eles, nem melhor nem pior, a partir de minhas fraquezas, limitações, egoísmos, pequenez, falta de coragem, desinteligência... Não que fôssemos completamente iguais, pois isso não existia, mas seria compreensível me nivelar a eles em razão não só da condição profissional, mas, também em razão das minhas imperfeições pessoais, que acabavam sendo repassadas para a instituição por conta do acaso, da indiferença, da insensibilidade e de tantos e tantos “sês” que mais pareciam não ter fim. Sim, a exemplo deles, também teria que cotejar minhas frustrações, pois muitas delas acabariam sendo repassadas do plano profissional para a minha vida pessoal, fazendo um caminho inverso...,  e assim seguiriam nossas vidas, cheias de imprevisibilidades e fascínios.