Dois seres muito próximos:

Dia 23.08.07, por volta das quatorze horas, estava numa salinha no setor de segurança da Penitenciária de São Cristóvão do Sul, quando passei a acessar um  computador para acessar a  Interne. No início estava sozinho  e logo a seguir Marilisa entrou na sala e veio ao  meu encontro. Para minha surpresa, num impulso, ela  passou a externar uma certa expressão de êxtase e  delírio,  seu rosto e seus olhos pareciam se transformar  de maneira nunca vista antes. Parecia totalmente entregue ou querendo se entregar e a impressão era que precisava de carinho, atenção, parecia quente... Eu estava com o braço esquerdo em direção ao teclado e ela encostou seus quadris e cochas no meu braço, com aquele olhar que exalava um certo quê de sensualidade, era algo que transcendia nossas relações habituais. Procurei ser firme, percebendo os detalhes,  me mantendo normal, discreto, alheio e ao mesmo tempo retribuindo  tudo aquilo como se fosse uma brincadeira, e talvez fosse. Durante nosso contato procurei devolver toda aquela sua sensibilidade com  um sorriso,  afastei meu braço que ficou meio que retesado e assim  evitar um contato físico mais perturbador ou comprometedor. Marilisa percebeu minha postura e pareceu acordar de um sonho, voltou a si. Nisso, procurei  entrar em alguns “sites” na tentativa de  ver se era possível criar seu e-mail, como tinha prometido momentos antes (no “gmail”). Não consegui, porque o acesso era  restrito.  Em seguida começamos a audiência e fiquei pensando: “Puxa vida, o que será que está acontecendo com Marilisa?  Passei a perceber que  ultimamente Marilisa parecia estar  querendo se aproximar, buscar mais atenção e isso parecia uma energia capaz de transcender  níveis de  amizade, ela estava  portando mais como  mulher intensa e integral. Logo  intui que teria que  tomar certos cuidados para  controlar  minhas emoções, manter fixo  meus objetivos para poder continuar em frente,  era imperativo contar nossa trajetória dentro de uma instituição caótica e ao mesmo tempo tão rica de elementos históricos, com seus personagens bastante interessantes e surreais.

Relembrando o velho amigo  Delegado Carlos Andretti:

Por volta das dezesseis horas e quarenta minutos chegamos na Delegacia Regional de Campos Novos e fomos direto para o Gabinete do Delegado Getúlio Scherer. Marilisa chegou em seguida e descobri que ela e Getúlio fizeram a Academia juntos para Delegado no ano de 1990. Getúlio relatou  que no dia dezoito último morreu o Delegado Carlos Andretti que foi Delegado Regional de  Campos Novos. Fiquei passado, porque trabalhei com Andretti em Chapecó e nunca mais o tinha visto. Getúlio ainda comentou  que Andretti estava residindo em Itapema ou Bombinhas e teria falecido  com quarenta quilos de leucemia, o que me fez lamentar esse fato.  Como Getúlio e Marilisa começaram a conversar como dois colegiais, resolvi deixá-los a sós e fui dar uma volta a pé pela cidade, pensando no meu velho amigo  Andretti, mesmo porque a testemunha que iríamos ouvir ainda não havia chegado. Depois da audiência, dispensei “Zico” e Daniela para ir se encontrarem com o Delegado Hilton Vieira em Joaçaba, pois estavam trabalhando numa investigação. Combinei com “Zico” que ele logo que deixasse Daniela com Hilton se dirigisse para Videira (Hotel Verde Vale), a fim de se encontrar conosco (leia-se: eu, Ariane e Marilisa).

A viagem para a cidade de Videira com o Delegado Regional Getúlio Scherer:

Pedi para o Delegado Getúlio providenciar uma viatura para nos levar até Videira e ele prontamente disse que ele próprio nos levaria. A audiência com a Escrivã Mariduce, responsável pela DPMu de Zortéa tinha sido difícil, o advogado (Dr. Altair) do policial (acusado) Valdir Mechailo, foi bastante tensa, com choros... Na hora de entrar na viatura Cénic branca dirigida pelo  Delegado Regional  acabei tomando a iniciativa e sentando no  de trás. Marilisa veio em seguida e pediu que eu sentasse no banco da frente, mas eu resisti e ela acabou tendo  que ir para o sacrifício, ou seja, teria que fazer companhia para o nosso falante motorista. Antes, porém, o Delegado Getúlio fez uma varredura no banco de  trás, pois havia um monte de papéis, arma... Marilisa,  com certa destreza, deu a volta  e veio sentar  ao meu lado, o que me fez lembrar daquele episódio com o Delegado Regional de Caçador  (“Carlão” Evandro Luz), quando a abandonei sozinha no seu gabinete e fui para a audiência...  Enquanto  aguardávamos  para iniciar a viagem chegou   Ariane que pediu para Marilisa se poderia sentar atrás comigo, o que a forçou  a voltar para o  banco da frente. Lamentei, mais era o esperado, porque ela e Getúlio pareciam muito amigos e tinham muito para conversar, enquanto eu e Ariane éramos mais ouvintes. Mas ficou aquela imagem, Marilisa dando a volta por trás do carro , bem rapidinho para sentar junto comigo, dando a impressão que queria deixar Ariane ir para o sacrifício. Dessa leitura senti que Marilisa estava mais chegada, íntima, se sentindo parceira... Durante o trajeto até Videira Getúlio e Marilisa monopolizaram a conversa e atrás só silêncio, pois coube a mim no máximo umas duas intervenções, sendo que numa delas perguntei quem eram os Delegados que fizeram Academia com eles e a resposta quase em conjunto: “Jurema Wulf, a outra Jurema  (Delegada de Itajaí), Toigo, Vera Spalding, Rose Serafim....  Procurando descontrair, a certa altura perguntei para Marilisa, colocando minha mão pelo lado direito no seu antebraço em sinal de carinho:

- “Escuta aqui, tu lembras o que eu disse para ti antes de sairmos lá de Joinville?”

Marilisa deu com os ombros e comentou  que não lembrava e respondi:

- “Eu disse para tu ires devagar que a viagem era longa, viu?”

Marilisa respaldou que realmente  eu tinha razão, a viagem era longa. A certa altura, já próximo de Videira, Marilisa disse que antes de ser Delegada chegou a advogar. Getulio perguntou:

- “Ah, sim, mas o teu marido também advogava ou advoga ainda?”

Marilisa respondeu:

- “Sim, mas eu  me separei, não estou mais casada, isso faz dez anos”.

Getúlio ficou surpreso e argumentou:

- “O quê, então você separou mesmo? Puxa, e não casou de novo?”

Marilisa em tom de repulsa respondeu:

- “O quê? Não me xinga, tá louco, não me deseja uma coisa dessas, agora que eu estou bem...”.

Afinidades com o Delegado Masson e uma possível vida provinciana?

Fiquei imaginando: “Nesses dez anos quanto Marilisa já não andou, viajou, sonhou, viveu, chorou, dançou, amou, talvez não apaixonou. Mas é isso mesmo, faz parte da sua história de vida, é um direito  se manter viva, feliz. Com isso, nós, amigos ficaremos torcendo pela felicidade dela”. Ouvi ainda Marilisa falar sobre o Delegado Masson para Getújlio e que o mesmo estava em Piçarras. Marilisa comentou  que outro dia o Delegado Masson esteve visitando-a e disse que estava muito bem lá e que pretendia  se aposentar. Marilisa elogiou muito Masson, dizendo que ele era  uma excelente pessoa. Lembrei que um dia Marilisa me disse que estava pensando seriamente residir em Piçarras e logo estabeleci um “link” entre ela e Masson: “Provavelmente Masson visitou Marilisa porque já possui uma ‘história’ de amizade com ela, uma aproximação, uma afeição que cativante e ele  deveria  estar sozinho, separado,  desiludido... Soube que ele andou em depressão e Marilisa nessas circunstâncias se encaixaria muito bem na sua vida. E isso também repercutiu fundo, porque ela revelou que estava pensando seriamente em pedir remoção para Piçarras, provavelmente para estreitar as relações, talvez até residirem juntos. Se isso for para a felicidade de ambos, certamente que iríamos torcer” pensei. Só que depois lembrei de uma viagem que eu e Marisa fizemos para o a região do Alto Vale, juntamente com outros membros de uma comissão de processo disciplinar e quando passamos pela cidade de Timbó ela comentou que iria pedir remoção para aquela cidade, que adorava uma cidadezinha do interior, tudo bem provinciano...