Do micro para o macro:

Dia 22.08.07, por volta das nove horas e trinta minutos, retornei  à Delegacia Regional de Jaraguá do Sul para ouvir mais testemunhas (Sindicância do policial Zocatteli - Comissário de Polícia). A primeira testemunha a ser ouvida foi o Comissário Cecatto (Delegacia da comarca). Como o advogado de defesa ainda não havia chegado, resolvi conversar um pouquinho e relembrar os velhos tempos da “Federação dos Policiais Civis” (durante meu mandado de presidente), em cuja época realizava reuniões semestrais com os policiais daquela região. Naqueles tempos o policial Cecatto era bem mais novo,  isso  há vinte anos atrás quando seus cabelos e barba eram pretas, bem diferente do momento atual em que se apresentava todo “branquinho”. Sob o olhar da Escrivã Ariane Guinther, loco de início Cecatto deu alguns tiros no escuro,  passando  a impressão que estava delirando e perdido nas suas lembranças de “caserna”, mas que não fechavam com os fatos. Depois, ele comentou que sabia que eu tinha trabalhado na década de oitenta na Segunda Delegacia de Blumenau, quando na verdade foi na “Terceira”, porém, não corrigi a informação. Resolvi dar um desconto  e repliquei seus relatos saudosistas  comentando que não eram bem assim como ele estava dizendo... A certa altura  o veterano Comissário  fez um desabafo  afirmando que a impressão que se tinha era que a Polícia Civil estava no fim.  Para ilustrar, Cecatto citou as intromissões da PM na lavratura de “Termos Circunstanciados”,  o que me fez lembrar o relato da Delegada Magali Nunes Ignácio durante a nossa conversa na cozinha da Corregedoria da Polícia Civil. Contraditei para afirmar que não era bem assim, que a Polícia Civil tinha previsão constitucional... Resolvi colocar mais lenha na nossa conversa, procurando imantar minhas palavras e magnetizar as atenções, assumindo uma postura ainda mais convincente:

- “...Cecatto, a questão é que nós não temos uma agenda. A Polícia Civil não tem planos,  prioridades, estamos tão sobrecarregados de serviços nas Delegacias que não temos tempo para pensar, planejar... Isso é diferente na Polícia Militar, lá o plantão se encerra nas vinte e quatro horas e tchal e benção, começa tudo do zero novamente. Nós não! As ocorrências vão se somando, acumulando... e olha o nosso efetivo! Estamos cada vez mais atolados com procedimentos, investigações, sujeitos a cobranças, requisições, ter que atender pessoas, prestar informações para o pessoal da imprensa... Precisamos urgente de uma agenda, de um planejamento estratégico, você entende o que eu quero dizer?”

Cecatto se manteve em silêncio, dando a impressão que estava mais para a condição de ouvinte naquela altura da nossa conversa, me permitindo que continuasse:

- “Se fôssemos colocar nessa agenda as nossas aspirações institucionais, históricas..., eu diria que o nosso maior câncer é ainda a ingerência política. Se você prestar a atenção, os Delegados Regionais ocupam cargos políticos, a cúpula também, o Delegado-Geral está lá sujeito a balançar na cadeira se não fizer o jogo do governo, o Secretário também, mesmo sendo político, membro do Ministério Público... Então, a coisa sempre esteve comprometida e isso também se aplica à Polícia Militar. Olha como funciona o Ministério Público, como é no Judiciário! Eu posso te assegurar que os Delegados Regionais são  omissos, e por quê? Eu digo isso para qualquer  Delegado Regional, digo para a Jurema aqui em Jaraguá do Sul, porque é a pura verdade, ela só está aqui porque as lideranças políticas e econômicas a querem, não importa se ela é inicial de carreira, se não cumpriu requisitos meritórios e funcionais. Os Delegados Regionais só agem e pensam localmente, estão distantes de qualquer agenda, planejamento estratégico, de se imiscuir nessas questões, procuram se manter numa posição cômoda na cadeira,  em completo silêncio, falando com as paredes ou fazendo o ‘jogo do agrado” para se manterem nas suas posições. Imagina se houvesse um colégio de Delegados Regionais,  um  mandato para o presidente e secretário, reuniões mensais, trimestrais... na sede de uma determinada região, uma pauta? É claro que isso poderia incomodar  a cúpula ou o governo, certamente que se isso viesse a vingar haveriam naturalmente tensões  internas, cobranças, controle, informações, confrontos... Claro que o Delegado-Geral, o Secretário de Segurança que também é político, todos eles poderiam em determinadas situações se sentirem pressionados, mas isso seria para o bem. É por isso que estamos nessa situação, querem manter a instituição engessada, sem avanços, modernidade, Inteligência... Aliás, o Delegado-Geral é de um partido e o Secretário  de outro, aí começam os problemas. Outro fator importante a ser tratado na agenda é a necessidade de se encaminhar um projeto de  emenda constitucional para sairmos deste buraco que nos colocaram, com autonomia administrativa, financeira e funcional. Hoje está todo mundo amarrado nos Delegados, todos esperam por eles..., só que não acontece nada, no meio dessa situação caótica  o governo e os políticos faturam, ficam numa posição  cômoda, tipo: quando mais divididos melhor,  deixa assim...! Montaram uma engenharia e qualquer pretensão de se resgatar uma isonomia salarial, como aquela que tínhamos com o Ministério Público, cai por terra, porque simplesmente o governador vai dizer que não tem recursos, que a repercussão financeira não permitirá...”.

Conversamos mais, ainda, e aproveitei para falar do fim da “Corregedoria-Geral”, sobre a emancipação dos Peritos Criminais no Governo Luiz Henrique da Silveira, o que não ocorreu na Polícia Federal e noutros Estados da Federação, inclusive, lamentei que com a cisão da nossa Polícia Científica acabaram levando um patrimônio histórico  embora, cujo acervo pertencia à Polícia Civil, tudo isso  sem que nossos “líderes”  exercessem qualquer resistência.

O Espírito “ABBA” (“Frida”...) e  os “vivas” à Ariane:

Durante o curso dessa nossa conversa a Escrivã Ariane, fã do “Abba” e que  estava próxima fisicamente, acompanhou quase tudo, muito embora parecesse às vezes um tanto distante porque já conhecia muito dessas minhas opiniões, como se não tivesse nada mais a acrescentar para formar sua opinião, ou que seu interesse já fosse outro. Ariane ao longo da sua vida profissional já havia perdido  a esperança de ser Delegada e o caminho natural talvez fosse mesmo  esperar fechar seu tempo para se aposentar e ir advogar. No final, Cecatto falou com muita veemência sobre a defesa do meio ambiente, revelando-se  radical contra qualquer agressão à natureza. Citou a questão dos reflorestamentos de eucaliptos e pinus que estavam acabando com nossas reservas de água doce. Fiquei impressionado com a veemência com que tratava desse assunto razão porque resolvi ainda  fazer um aparte final:

- “Puxa Cecatto, eu espero que tu economizes essa tua energia para trabalhar em primeiro lugar para nós vencermos  desafios institucionais, isso dentro da nossa própria ‘Casa’, depois, aí sim, que venha o  meio ambiente...”.

Ariane, parecendo  preocupado com o único filho,  resolveu tomar partido e deu o ar da sua graça:

- “Ah, doutor, mas o meio ambiente é a nossa vida, é o nosso futuro...!”.

Cecatto imediatamente concordou com aquela observação que mais parecia parte de uma melodia bem sueca cantada por Frida (com quem muito se parecia fisicamente) e Agnetha, o que me fez insistir:

- “Tudo bem, tudo bem, mas existem as nossas prioridades aqui que estão bem debaixo de nosso nariz, não adianta a gente estar se preocupando com o mundo, com coisas distantes..., enquanto  nossa instituição está desabando bem embaixo dos nossos pés!”

Cecatto argumentou que tinha entendido  a minha mensagem e preocupações, até porque foi ele que se disse preocupado com o futuro da instituição...

Ao final, logo depois que deixei o policial Cecatto, me passou um filme e  lamentei ter sido tão insensível quanto a questão levantada por Ariane, uma pessoa e profissional ímpar, de muita classe e categoria, que merecia toda a consideração institucional por sua dedicação, comprometimento, qualidades pessoais... No meu caso estava sempre focado e direcionado para o mundo policial interior, para nossos desafios internos e como seria possível tornar forte uma instituição para  merecer da sociedade todo o respeito e consideração em razão de serviços de excelência prestados na em sua defesa. Mas, realmente a  incursão de Ariane tinha algo místico, superlativo no plano do discurso “policialesco”, tratar  da questão da preservação do meio ambiente parecia universal, soava como música, aquelas que ouvíamos durante nossas viagens, quando ela trazia seus “CDs” preferidas, os mesmos de sempre, o que me fazia introjetar a sua imagem a da “Frida”, com um quê de sósia...