Tripartites e majestosas policiais:

Era dia 08.11.2007 e por volta das   dezoito horas e trinta minutos finalmente chegamos no Hotel Linck, localizado no centro de Joaçaba. Eu já tinha conversado com o motorista Dílson Pacheco para lhe dizer  que provavelmente não ficaria naquele lugar porque da última vez que estive lá havia passado  por uma noite de cachorro, isso apesar de ter pago somente vinte reais a diária.  Entretanto, minha preocupação era com Marilisa que poderia ficar chateada em lhe proporcionar uma “presente” daqueles. Mas lembrei Dilson que no dia anterior, quando estávamos de passagem por Curitibanos,  tinha cantado a pedra ao revelar  que seria ela que decidiria se nós ficaríamos em Joaçaba ou se já retornaríamos até Videira ou Curitibanos. Marilisa não decidiu nada e tinha recomendado que eu decidisse. Na verdade senti que quando revelei os planos da Escrivã Ariane (era se encontrar com a Inspetor Daniela, em razão da forte amizade entre as duas) Marilisa deu a impressão que teria gostado da ideia e que também adoraria se integrar à “dupla” para formarem uma “tripla” majestosa de policiais para conferenciarem durante a noite. “Bom, se era para se assim, então que assim fosse!”, foi o que havia pensado  após aquela nossa conversa.  Logo que Marilisa e Ariane deixaram a viatura policial  em direção ao hotel avisei que estava indo com Dílson até a Delegacia Regional para fazer uma visita ao Delegado “Toninho” e quando chegamos nesse nosso destino  encontrei o policial “Zico” que veio me perguntar detalhes sobre a nossa próxima viagem na semana seguinte, pois estava  preocupado porque não existia  disponibilidade de diárias. A seguir, “Zico” comentou  que o Delegado Hilton Vieira e Daniela estavam  em Joaçaba trabalhando num relatório  envolvendo o Delegado “Gross” (ex-DRP) e que iriam  permanecer até mais tarde naquele local. “Zico” pediu uma carona até o Hotel Linck porque daria uma corrida (disse que faria um “Cooper”). Depois que deixamos  “Zico” no hotel pedi que Dílson me levasse até o Hotel Jaraguá, sendo que logo que peguei a minha sacola e maleta pedi que ele não dissesse onde eu estava hospedado para não chatear o pessoal ou que pudesse deixar alguém ressentido... Logo que me instalei no quarto lembrei que no dia seguinte todo mundo saberia que estava hospedado noutro hotel e achei melhor mandar um “torpedo” para Marilisa, mesmo sabendo que ela estaria focada nos contatos com Ariane, Daniela, Zico, Dílson e Hilton. Esse foi o teor do meu “torpedo”:  “Ma, estou noutro hotel (Jaraguá). Desculpe a minha ausência. Bjs”. O engraçado é que essa mensagem era mais que um pedido de desculpas, uma justificativa e um registro histórico, apesar de saber que nessas horas e circunstâncias muito dificilmente existiria  “feed-back”, era como uma forma de oportunizar um certo “gostinho”, uma forma de provocação e gerar alguns “dolores” pela ausência ressentida porque sabia que ao mandar uma mensagem eu estaria pensando nela e se isso estivesse ocorrendo era porque estávamos “amarrados”, “plugados’, “presos”, “reféns”..., especialmente, de meus pensamentos e desejos da sua companhia para dar fluidez aos fatos. Também, era uma forma de lidar com um pseudo “poder”, dando a impressão que alguém “fácil” estivesse a seus pés, o que apreendi que com ela isso tinha um efeito contrário, reverso... Era engraçado porque nesse compasso também pretendia provocá-la aos extremos para obter um “fio condutor” que possibilitasse manter viva nossa história da qual éramos os principais protagonistas e nesse sentido tudo valeria a penas ser sorvido nos mínimos detalhes. A esperança era que Marilisa superasse aquele estágio de sentimentos brutos, porém, sabia que as nossas redes neurais eram complicadas e acabavam nos transformando em reféns dessas variáveis que consumiam nossos espaços e tempo. Lembrei que tinha dito para Marilisa aquela frase do “filósofo doido”: “Como são pequenas as nossas conquistas”, e talvez ela nunca viesse a parar para pensar na profundidade dessa máxima. Mas uma coisa que observei naquele momento era o seu distanciamento que fazia com que se perdesse com coisas do cotidiano das mulheres.   Quando me afastava por um tempo sem dar notícia parecia que ela ficava sentida, abandonada..., como se eu já fizesse parte de seus pensamentos, da sua vida... Lembrei que durante nossa viagem algumas vezes Marilisa se aproximou “insidiosamente” seu corpo ao meu, querendo demonstrar um triplo substrato pessoal, uma substância aderente e uma significância emergente entre nós, mas acabei preocupado e pensei: “Bom, espero saber lidar com essas energias, controlando impulsos e mantendo o distanciamento necessário para não confundir nossa relação, brincar com sentimos e machucar corações, aliás, sinalizando o caminho para o relicário onde poderíamos contemplar toda nossa augusta proximidade e sua repercussão no nosso mundo. 

Por volta das vinte e duas horas e trinta minutos ainda não havia retorno algum de Marilisa e pensei: “Bom, essa hora devem estar em algum restaurante, lanchonete, todos reunidos jogando conversa fora, falando sobre coisas do imaginário policial... E, eu aqui entretido com digitações, histórias..., mas com os pés no chão, a certeza de que tudo fazia parte de uma grande ilusão, convicto de como eram realmente muito pequenas as nossas conquistas. De outra parte, era preciso viver a vida, sem perder os detalhes, ir aos extremos, respirar ar puro, se renovar a cada dia...”.

No dia 09.11.07, horário: oito horas e trinta minutos, quando estava me preparando para tomar banho no meu quarto (Hotel Jaraguá), fui surpreendido com a recepcionista que me avisou que Marilisa, Dílson e Ariane já estavam me aguardando na recepção. Tive que me apressar porque estava esperando esse encontro para às nove horas... Diante dessas circunstâncias, não passados mais do que quinze minutos e eu já estava embarcando na viatura para reiniciarmos viagem de retorno à Joinville. Logo que começamos essa empreitada, depois do formal “bom dia”, Marilisa parecia “arriada” e caiu no sono, logo imaginei que só poderia ser em decorrência das conversas madrugada adentro ou das condições do hotel em que ficaram hospedadas. Observei que Ariane permaneceu acordada o tempo todo e quem estava para conversa era justamente eu que permaneci a noite toda num bom sono.

O cárcere de “Felipe H.”:

Durante o curso da viagem tomei conhecimento por Dílson que eles se reuniram num “barzinho” na cidade (na saída para a BR 282), onde permaneceram até por volta da vinte e quatro horas.  Também tomei conhecimento que Hilton Vieira teve que abreviar os trabalhos na Delegacia da Comarca porque Daniela estaria sendo requisitada. A viagem transcorreu quase que em silêncio até Curitibanos, onde abastecemos.  Marilisa acabou acordando e trouxe brilho ao ambiente, pelo menos foi para os meus olhos. De curitibanos até Rio do Sul conversamos um pouco e aproveitei para perguntar para Marilisa sobre a famosa e tradicional “Família H.”, em especial “Felipe H.” (meu xará), grandes acionistas de uma poderosa empresa de Joinville. Marilisa relatou que Felipe estaria se “recompondo”, depois de passar quarenta dias preso com Marcucci no 8º Batalhão da Polícia Militar de Joinville. E, para completar, relatou que durante a “estadia” de Felipe na PM, coincidentemente, ocorreram várias reformas no quartel, desde o auditório, quadra e etc. Perguntei para Marilisa se realmente o Delegado Zulmar havia dado alguma cobertura para Felipe no flagrante por “s.”  e ela disse que era comum, porque vários parlamentares, desde vereadores até Deputados recebiam dinheiro do “Grupo H.” que ainda era muito poderoso econômica e financeiramente na região. Em tom de provocação, argumentei que se Marilisa fosse candidata certamente que teria que acabar fazendo o “jogo jogado”, ou seja, teria que recorrer à ajuda financeira dos empresários de Joinville, caso contrário não decolaria e se isso valeria à pena...  Marilisa relatou que o candidato a Prefeito de Joinville era o Deputado Mauro Mariane, mas quem estava na vez era o Deputado Darci de Matos. Marilisa lamentou que Mauro Mariane somente naquele momento havia fixado domicílio em Joinville e que o povo sabia a verdade, isto é, que ele residiu até o dia anterior em São Bento do Sul. Argumentei que Darci de Matos era do Paraná (Laranjeiras)  e Marilisa comentou que há anos ele residia em Joinville. A seguir, comentou que o Delegado Marco Aurélio Marcucci há tempos vinha telefonando para ela, com o objetivo de estreitar as relações porque seu nome surgiu nas pesquisas para a Prefeitura....

No percurso entre Curitibanos e Rio do Sul senti Marilisa um pouco mais solta, querendo se expandir, conversar, brincar... Cheguei a perguntar se havia recebido o meu torpedo de ontem à noite e ela confirmou dizendo que não sabia o que era “Jaraguá”, pensando que eu tinha viajado para a cidade de Jaraguá do Sul à noite e que sua ficha caiu somente quando vieram me apanhar no hotel... Comentei com Ariane que o pão de queijo do café da manhã era uma delícia e que me fez lembrar dela. Durante o trecho Rio do Sul e Blumenau procurei conversar com Marilisa sobre sua saúde, sugerindo que ela realmente parasse de fumar (ela interrompeu para registrar que até aquele momento não tinha fumado um único cigarro...), que evitasse comer muita carne... Marilisa relatou que geralmente os homens acabavam trocando suas mulheres mais velhas por duas de vinte e cinco, mencionando alguém..., e ficou engraçado o olhar que ela deixou transparecer quando disse isso, aliás, fitou meus olhos com uma certa ironia, provocação... Deixei passar batido e argumentei:

- “Bom, uma árvore grande, quando já está para morrer, começa um ciclo louco de produção de flores ao máximo, tudo isso procurando gerar flores, germinar sementes para...”.

Antes que eu completasse Marilisa voltou à carga:

- “Sei, para garantir a espécie!”

Continuei:

- “Sim, é isso! Assim também são os homens. Quando eles ficam mais velhos passam a correr atrás de mulheres mais novas, o que na verdade é apenas uma manifestação do instinto de sobrevivência, ou seja, procurar mulheres novas para gerar filhos...”.

Nesse momento estávamos falando sobre o Delegado José Alves, porque o mesmo andava meio que retraído e o meu temor era que ele começasse a entrar em declínio mental por falta de exercícios cerebrais... Marilisa concordou e eu procurei argumentar sobre a importância em se estimular o cérebro com poesia, música, contatos com pessoas, ideias, leituras...  Marilisa lembrou seus problemas de coluna e disse que seu médico mandou entrar na “hidro”, depois na piscina. A seguir, Marilisa comentou que não tinha vontade de fazer exercício algum, qualquer coisa... Quando disse isso, se chegou para frente e deixou escapar um sorriso cheio de malícias para reiterar:

- “Sinceramente, eu não tenho vontade de fazer nada, só dormir, adoro dormir...”.

Interrompi:

- “Tudo bem, é importante se movimentar, mas nada de exageros, nem na cama. A gente vê os atletas aí que correm quando chegam aos sessenta, setenta, estão todos estourados, acabados, desgastados. Por exemplo, Marilisa, os meus avos viveram mais de... e eu não me lembro deles fazendo exercícios, então...”.

Um “rega-bofe” com Dilson Pacheco e o som de “Coudplay”:

No trajeto de Blumenau até Joinville Marilisa e Ariane acabaram dormindo mais um pouco e aproveitei para conversar com Dílson sobre a Corregedoria, sobre a época do Delegado Sérgio Maus... Acabei relatando um pouco os episódios protagonizados por Sérgio Maus, desde a questão da Dona Maria Auxiliadora, defendendo a Delegada Magali... Depois, relatei um pouco sobre as fofocas internas, falatórios..., também, acabamos falando sobre o Delegado Sérgio Maus..., a policial Delci..., as relações com a Marisete... Tive que fazer alguns comentários sobre a viagem de Sérgio até o oeste..., em cuja época eu respondia pela Corregedoria. Durante ainda o curso da viagem Ariane passou a relatar o sonho que teve durante à noite, ou seja, disse que sonhou comigo, porém... Marilisa, quando se falava em pesca de “siris” de garra azul, disse que provavelmente iria se mudar ainda para uma praia sossegada e virar pescadora.... Passamos a conversar sobre política e Marlisa revelou seu descrédito com o deputado Darci de Matos, em especial, quanto ao nosso “projeto” pertinente ao “Fundo de Aposentadoria dos Policiais”. Quando estávamos chegando em Joinville, pedi que Dílson levasse primeiramente a Delegada Marilisa até sua residência, já que estava chovendo. Marilisa parecia um pouco quieta e quando chegamos até o estacionamento da sua casa, ela se despediu de Ariane e me deu um beijo do lado esquerdo, por trás do banco. Assim ela se foi, sem mais e sem menos, sem palavras...  Em seguida Dílson me deixou na Delegacia Regional de Joinville onde apanhei meu carro e fui até o Supermercado Angeloni para algumas compras. No estacionamento coberto, escutando “Coudplay” resolvi mandar um e-mail para Marilisa, com o seguinte conteúdo: “Ouço ‘Couldplay’, faixa sete e penso em vc com bj e carinho pela cia...”. Passados cerca de uns sessenta minutos, veio o retorno de Marilisa, com a seguinte mensagem: “Também adorei a viagem e a tua cia. Bjs Ma. – D”. Sinceramente, não entendi o que significa aquele “- D”, mas pela primeira vez Marilisa mandou uma resposta mais consistente, não que fosse o ideal, ou que revelasse uma energia, um estado de encantamento, desejos, espontaneidade, saudades..., mais parecia um retorno por conta da satisfação e obrigação de receber a minha mensagem, talvez um “D+” que faltou e pensei: “bom, agora vão se passar os dias de silêncio até a nossa nova viagem à Foz do Iguaçu no início de dezembro, quando pretendia tirar fotos para ilustrar nossos momentos”.