Delegado Marcos Giovanni:

Dia 08.11.07, no  horário das dezessete horas, estava na  Delegacia da Comarca de Herval do Oeste para mais uma audiência no Processo Disciplinar do Investigador Valdir Mechailo. Acabei me dirigindo diretamente para o gabinete do Delegado Marcos Giovanni e iniciamos nossa conversa. Não conhecia esse Delegado, tampouco havia ouvido falar Del que me atendeu prontamente,  muito embora não demonstrasse muito entusiasmo, mais parecia um personagem moderno da Polícia com  suas  sua  “previdências” e “contingências”. Resolvi respeitar aquela sua “indiferença e meia” e uma certa dose de auto suficiência,  com um misto de curiosidade e ansiedade. Porém, tudo poderia se resumir a idiossincrasias, nada era o que parecia ser porque   no decorrer Marcos dava sinais  que queria conversar e resolvi fazer algumas provocações de cunho institucional, iniciando pelas  beiradas. Pude perceber que o Delegado Marcos possuía  “barba” tipo “cavanhaque” e bigode que contrastava com uma calvice acentuada (cabeça raspada). Tinha  estatura era baixa e era magro. Fiquei imaginando que era do  time do ex-Delegado Regional “Gross”. Fiquei sabendo que ele havia ingressado  na carreira no início do ano de 2002. Resolvi perguntar como era que estavam os ânimos  dos Delegados na região e meu interlocutor  passou a verberar:

- “Bom, aqui tudo pode se resumir a duas facções. Isso não existia antes, mas acabou sendo gerada e surgiram  dois lados. Um grupo apóia  o ‘Gross’ e o outro  o Ademir Tadeu de Oliveira. Eu sou neutro, mas depois dessa disputa entre esses dois grupos a coisa aqui ficou muito difícil. Era gente se digladiando, eles se digladiavam pelo poder a qualquer preço. Agora está aqui o ‘Toninho’ que é mais pacificador, ainda bem. Mas dizem que quem vai assumir a Delegacia Regional vai ser mesmo o Ademir Tadeu, já está tudo acertado”. 

A carreira jurídica seria a salvação?

Pude perceber que o  Delegado Marcos estava determinando o cumprimento de um mandado de busca e apreensão (derrame de notas falsas na cidade) e relatou  que fez estágio no Fórum de Campos Novos, antes de seu ingresso na Polícia Civil, foi aí que entendi um pouco melhor o seu comportamento inicial que poderia ser resultado do seu convívio com o pessoal da Justiça. Resolvi insistir na minha pergunta sobre a visão institucional dos Delegados da região, já que percebi que meu “anfitrião” não havia entendido bem o meu questionamento. Marcos novamente respondeu:

- “Bom, o pessoal aqui acredita que a ‘PEC’ quinhentos e quarenta e nove’ é o nosso caminho, está todo mundo engajado nessa luta, o pessoal sabe que ser reconhecido como carreira jurídica é o caminho”.

Afinal, qual seria o  "Projeto Sonêa" à frente da 'Adpesc'?

Interrompi:

- “Bom, nós entendemos que o nosso foco é aqui o Estado de Santa Catarina. A luta pela ‘PEC’ é válida, mas a gente sabe que o que na verdade se está querendo é se desviar a atenção dos Delegados. Todo mundo sabe que o marido da nossa presidenta é o Secretário Adjunto da SSP e que provavelmente pretende substituir o ‘Benedet’. Para tanto, a missão é administrar os Delegados de maneira a garantir a ‘ordem e o progresso’, ou seja, ir até o final do governo com tudo sob controle e depois é só cobrar a fatura, não é?”

Marcos ouviu atentamente minhas opiniões e parece que passou a se dobrar a força dos meus argumentos, percebendo o seu conteúdo crítico e classista. Em razão disso, argumentou:

- “A gente sabe disso tudo, o pessoal tem comentado. Nós tínhamos um grupo de Delegados aqui no oeste e nos reunimos regularmente. Tivemos, a cada mês uma reunião numa determinada cidade. Fizemos um encontro dos Delegados aqui do oeste em Joaçaba, Chapecó, São Miguel, Concórdia e Lages. Só que depois que assumiu o novo ‘Chefe de Polícia’ parece que a coisa perdeu força. Não sei, mas parece que a ordem foi para parar com os nossos encontros porque estavam incomodando”.

As três vias e os  governos que passam:

Interrompi:

- “Bom, para nós conseguirmos fazer as coisas acontecerem na instituição precisamos de três vias de poder, a primeira é a cúpula..., a segunda os Delegados Regionais, por meio de um colégio... e a terceira, são as lideranças classistas.... Nós temos um ‘grupo’ de Delegados que entende que a nossa grande prioridade é uma ‘emenda constitucional’. Não é o reajuste salarial, nem nada, apenas uma ‘emenda’ que é fácil ser aprovada porque não vai gerar  aumento de despesas. E o momento oportuno vai ser quando o ‘Pavan’ vier assumir o governo do Estado. Depois quem vai ser o governador dever ser o ‘Esperidião’, ou a Angela e até o Colombo...”.

Marcos  interrompeu para concordar  com meu raciocínio e, na sequência, pude  prosseguir nas  minhas considerações:

- “Bom, todo mundo sabe que o pior governo na história da Polícia Civil foi o ‘Luiz Henrique da Silveira’, não tem precedentes. O único que se aproximou um pouco dele foi o Governador Ivo Silveira, mas não tem nem parâmetros porque o Ivo ainda fez algumas coisas boas para nós”.

Marcos pareceu informado e mais uma vez concordou com meus argumentos de que o pior governo na nossa história realmente estava sendo o ‘Luiz Henrique’. Acabamos nós dois quase que juntos enumerando os retrocessos da instituição, como a perda da Academia de Polícia que passou para o Gabinete do SSP, da Corregedoria-Geral da PC, a perda da Polícia Científica, a equiparação de salários entre Delegados, Oficiais da PM e Peritos e, finalmente, a autorização para a Polícia Militar elaborar termos circunstanciados. Fui para o computador de Marcos tirar uma impressão da  proposta de “emenda constitucional” e nisso entrou Marilisa no gabinete. Feitas as apresentações, argumentei que Marilisa era de Joinville e que também estava engajada na luta pela criação da Procuradoria-Geral de Polícia e na criação do segundo grau na carreira de Delegado de Polícia. Conversamos sobre a necessidade de cristalizar essas idéias e gerar uma  “onda”  dentro da Polícia Civil em torno dessa “emenda constitucional” e da importância de mobilizarmos todas as nossas forças.

Seria um olhar “pedinte”?

O final da conversa foi engraçado e lembrou um pouco aquela passagem por Caçador (com o Delegado Regional Carlos Evandro Luz) porque  olhei para o Delegado Marcos e vaticinei:

- “Bom, eu vou começar a  audiência que o pessoal já está esperando e já que a doutora Marilisa chegou  vou deixar ela aqui conversando um pouquinho contigo, tudo bem?”

Marilisa me olhou meio que sem jeito, como se achasse desconfortável aquela minha proposta  de abandono  e com a voz firme disse:

- “Não, eu também tenho que ir, é importante a minha presença!”

Mirei seus  olhos de “pidona”, sua respiração contida e insisti:

- “Fica Marilisa, fica mais um pouquinho conversando com o Marcos que eu já vou iniciando os trabalhos lá no cartório”. 

Sinais de crescimento e esperança:

Deixei os dois Delegados conversando no gabinete a portas fechadas, acreditando que Marilisa também venderia muito bem o nosso “peixe”, já que ela já conhecia nossos projetos. No caminho até o cartório fiquei pensando como Marilisa havia crescido, se fortalecido, chegando ao ponto de querer parar de fumar, melhorar-se, engajar-se numa causa relevante, acreditar..., bons sinais de esperança.

Registrado!

Terminada a audiência, na hora de entrarmos na  viatura  Marilisa ficou frente à frente comigo e se aproximou, fixando-se  no meu rosto, percebendo que eu estava com manchas de chocolate próximo aos lábios (tinha comido um chocolate derretido durante a viagem). Ela colocou seus dedos junto a minha boca e passou a esfregar para retirar aquelas marcas o que me levou a pensar: “Que gesto lindo, digno de um registro”.

O outro lado da Delegada Sonêa e o "Oceano Pacífico":

Durante o nosso trajeto até a Delegacia Regional de Joaçaba fiquei repassando a conversa com o Delegado Marcos Giovanni e me perguntei se realmente haveria um projeto Sonêa de favorecer seu esposo Secretário Adjunto (Delegado Neves). Claro que não! Sonêa era uma pessoa com grandes valores, uma pessoa virtuosa. Quem elegeu ela foram os Delegados sabendo da sua condição... e agiram assim muito provavelmente porque isso seria profícuo para a classe. Obviamente que diante desse cenário ela não poderia bater de frente com o governo, tinha que se preservar, especialmente o Delegado Neves que também sempre se revelou um profissional sério e equilibrado. E se os Delegados estavam apoiando a causa da tal "PEC 549" criticada por mim (não acreditava nesse caminho) ela tinha seus méritos de acreditar nessa "boa causa" que era nacional, melhor ainda, poderia realmente evitar choques contra o governo, já que os Delegados estavam engajados nessa causa e sem se importar para os embates no Estado. Depois fiquei pensando quem poderia ter boicotado as reuniões do "grupo" de Delegados do oeste. Imediatamente veio a mente o nome do Delegado-Geral Maurício Eskudlark que tinha grandes pretensões políticas... e eles aceitaram pacificamente.